Quaquá tenta reescrever a história de Maricá: do embate estudantil ao ataque à memória de Édio Muniz..

TVC/Barão/Inohan
O jornalista Ricardo Cantarelle, testemunha da história recente de Maricá, traz à tona fatos que muitas famílias tradicionais preferem silenciar: a trajetória de Washington Quaquá, de líder estudantil humilde a prefeito marcado por ações de desconstrução política.

As origens do embate

Voltamos a 1982. O prefeito da cidade era Édio Muniz de Andrade liderança respeitada, que também presidiu o Rotary Clube de Maricá e a Associação Comercial.

Do outro lado estava o jovem Washington Luiz Cardoso Siqueira, o “Quaquá”, estudante de família humilde, com discurso crítico às elites locais.

A relação entre ambos foi marcada por confrontos. Expulso certa vez da prefeitura por criticar Édio, Quaquá respondeu com um “enterro simbólico” do prefeito.

Em outro episódio, foi impedido de entrar em um evento do Rotary presidido por Édio, fato que feriu profundamente seu orgulho e marcou sua memória política.

Da rejeição ao poder

Anos depois, Quaquá rompeu o isolamento. Venceu as eleições para prefeito e iniciou um governo voltado a obras de infraestrutura, principalmente na pavimentação urbana. Com discurso de transformação, consolidou sua imagem como líder popular e preparou o terreno para seu sucessor e aliado, Fabiano Horta.

A aprovação da gestão foi tamanha que, em determinado momento, Quaquá nem precisou fazer campanha: o carisma de Horta garantiu a continuidade do projeto.

No entanto, derrotas políticas posteriores como a vitória de Jair Bolsonaro sobre Haddad em 2018 e, mais tarde, a derrota pessoal para o pescador e construtor Renato Machado, eleito deputado estadual acentuaram o ressentimento do ex-prefeito.

Da aliança à desconstrução

Reconduzido ao poder, Quaquá iniciou um movimento de ruptura com o legado de Horta, desmontando programas sociais e promovendo demissões em massa.

A ofensiva não poupou nem mesmo a memória de antigos adversários: o ex-prefeito Édio Muniz, falecido, mas lembrado pela criação de projetos que beneficiavam a população.

O caso da Fábrica Édio Muniz

O episódio mais simbólico ocorreu recentemente com a paralisação da Fábrica de Produtos Desidratados Édio Muniz, em Ubatiba. O espaço, administrado pela O.S. SOLARES Ação Social e Cidadania (ASC), atendia diretamente agricultores familiares, escolas e instituições sociais da cidade.

Cerca de 27 funcionários foram atingidos pela suspensão das atividades após a prefeitura deixar de repassar recursos à entidade por três meses consecutivos.

Sem o apoio financeiro, a O.S. decretou férias coletivas e suspendeu a produção de itens como banana, aipim e batata-doce desidratados, fundamentais para a merenda escolar e a assistência social do município.

A fábrica surgiu de uma demanda concreta: evitar o desperdício da produção de agricultores como o senhor Liberino, o “Seu Nitinho”, que perdeu toneladas de tomates orgânicos por falta de escoamento.

Transformada em unidade produtiva moderna, a Fábrica Édio Muniz gerava empregos, garantia preços justos aos produtores e distribuía alimentos saudáveis para escolas, CRAS, Pestalozzi e outras instituições.

Em 2021, a produção chegou a mais de 21 toneladas de alimentos processados, todos destinados à população de Maricá. Além do impacto social, havia também sustentabilidade: resíduos eram reaproveitados em compostagem e alimentação animal.

Memória sufocada

A interrupção do repasse desde a posse de Quaquá é interpretada como um ato político deliberado para apagar a memória de Édio Muniz, um adversário histórico que ousou

Mais do que uma disputa pessoal, o caso simboliza como a política em Maricá se transformou em campo de vinganças e ajustes de contas, muitas vezes às custas da população, dos agricultores e da história coletiva da cidade

Fonte: Jornal Barão de Inohan