Em menos de 24 horas, o navio Guarapari em serviço desde 1981 encalhou na areia, duas embarcações que tentaram resgatá-lo também foram parar no mesmo lugar, bombeiros mobilizaram três moto-aquáticas, retroescavadeiras foram chamadas, o INEA entrou em campo e a ressaca ameaça prolongar o episódio.
Tudo isso enquanto Lula alertava o país para o risco de invasão estrangeira.
Havia marinheiros a bordo. Havia equipamentos pesados no convés. Havia ondas agitadas batendo na proa. E havia, na areia da Praia da Macumba, no Recreio dos Bandeirantes, Zona Sudoeste do Rio de Janeiro, uma plateia crescente de banhistas com celulares apontados para cima registrando, em tempo real, o início do episódio que nos próximos dias se tornaria símbolo involuntário de um episódio constrangedor para a Marinha brasileira
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Era segunda-feira, 9 de março de 2026. Por volta das 18h20, o fotógrafo Raphael Pádua, morador de Vargem Grande, passava pela Estrada do Pontal quando avistou a embarcação se aproximando da costa. Curioso porque nunca tinha visto aquilo antes , ele filmou a cena. “Dentro do barco havia escavadeiras e maquinários pesados, além de marinheiros a bordo”, contaria depois. As imagens chegaram às redes sociais antes mesmo que qualquer nota oficial fosse publicada.
O que Raphael filmou era o navio L10 Guarapari, uma Embarcação de Desembarque de Carga Geral (EDCG) da Marinha do Brasil, incorporada à frota em 1981 um veterano com mais de quatro décadas de serviço. Segundo a Marinha, a embarcação realizava uma manobra técnica chamada “abicagem”: aproximar intencionalmente a proa da faixa de areia por razões operacionais. Até aqui, tudo dentro do planejado.
O problema é que o planejamento, aparentemente, não previa o que viria a seguir.
Ato I: O Guarapari decide virar atração turística
O navio passou a noite de segunda para terça-feira encalhado na faixa de areia da Praia da Macumba. A Marinha do Brasil emitiu nota tranquilizadora: sem feridos, sem avarias, manobra controlada, ações em andamento para o desencalhe. A nota foi recebida com o mesmo ceticismo que os cariocas costumam reservar para comunicados oficiais sobre obras que “serão concluídas em breve”.
Na manhã de terça-feira (10), a cena na praia já tinha virado passeio familiar. Moradores chegaram com cadeiras de praia. Outros trouxeram guarda-sol. Não faltou quem tivesse levado lanche. A operação de desencalhe de um navio de guerra havia se transformado em ponto turístico improvisado na orla carioca com direito a fila de selfies e cobertura ao vivo nas redes sociais.
“Fiquei curioso, porque nunca vi isso aqui.”
Raphael Pádua, fotógrafo e morador de Vargem Grande, ao ver o Guarapari encalhando
A Marinha mobilizou retroescavadeiras para remover o excesso de areia acumulado ao redor do casco uma imagem que, convenhamos, não costuma aparecer nos cartazes de recrutamento das Forças Armadas. Rebocadores foram posicionados.
Equipes do Instituto Estadual do Ambiente (INEA) chegaram para monitorar a operação e garantir que não houvesse vazamento de óleo ou impacto ambiental.
Havia, portanto, uma força-tarefa em plena praia carioca tentando tirar um navio de guerra da areia. E o Guarapari, com seus 45 anos de serviço nas costas, não demonstrava nenhuma pressa.
Ato II: O resgate que precisou de resgate
Foi quando o enredo ganhou o twist que transformou o episódio de vexame localizado em fenômeno nacional.
Na tentativa de rebocar o Guarapari, outra embarcação também da Marinha do Brasil foi enviada ao local. A embarcação de resgate aproximou-se, avaliou a situação, entrou em ação e… encalhou. Na mesma praia. Na mesma areia. No mesmo trecho que já segurava o primeiro navio.
Se alguém achou que dois navios da Marinha encalhados na mesma faixa de areia já era suficiente para encerrar o noticiário do dia, estava enganado.
No fim da manhã de terça-feira, um terceiro barco desta vez menor também participou involuntariamente da operação. Segundo relatos, ele quebrou com a força das ondas ao tentar se aproximar.
O mar agitado, que a própria Marinha havia alertado que chegaria a ondas entre 2,5 e 3 metros de altura, fazia parte do cenário desde o princípio. Havia alerta de ressaca previsto pela própria instituição para o período entre as 15h de terça e as 21h de quarta-feira.
Resultado final: três embarcações militares imobilizadas na praia. Uma plateia de curiosos. Uma retroescavadeira. Três moto-aquáticas do Corpo de Bombeiros tentando amarrar cabos em meio ao mar revolto. E o INEA monitorando para garantir que, além de tudo, a natureza não fosse prejudicada.
“Navio Guarapari encalhou ao realizar manobra operacional de abicagem; outras duas embarcações também ficaram presas na areia durante operação de reboque.”
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