Shopping Vazio em Moscou: Sinal Ominoso do Desgaste Econômico da Rússia Pós-Guerra

Economia Russa Sob Pressão: Um Shopping como Espelho da Realidade

A música pop ecoa vazia nos corredores do shopping Goodzone, em Moscou. Inaugurado em 2014 com pompa, o centro comercial, que antes prometia agitação, agora exibe vitrines tapadas e lojas fechadas. Essa cena desoladora é um reflexo pungente do mal-estar econômico que assola a Rússia, apesar das narrativas oficiais de resiliência.

Após a invasão da Ucrânia e o êxodo de empresas ocidentais, a economia russa, surpreendentemente, desviou o impacto inicial através de gastos militares massivos e redirecionamento de exportações de petróleo. No entanto, os sinais de desgaste são cada vez mais evidentes. O Produto Interno Bruto (PIB) registrou uma contração de 1,8% nos primeiros dois meses de 2026, um dado que nem mesmo o presidente Vladimir Putin conseguiu ignorar, exigindo explicações para o desempenho aquém do esperado.

A Voz da Oposição e o Risco de Instabilidade

Gennady Zyuganov, líder do Partido Comunista da Rússia, expressou preocupação com a falta de respostas eficazes às questões levantadas por Putin. Em um discurso alarmante na Duma Estatal, Zyuganov alertou para o risco de uma revolução bolchevique caso o governo não consiga reverter o declínio econômico. Embora sua crítica seja direcionada ao governo e não ao presidente, a mensagem é clara: a situação é insustentável.

“Com esse rumo, a economia inevitavelmente entrará em colapso”, advertiu Zyuganov, ecoando o sentimento de muitos que observam a deterioração da economia russa.

Relatos do Front Comercial: O Cotidiano de um Shopping Deserto

Apesar de outros centros comerciais em Moscou, como o Aviapark, ainda apresentarem movimento, o Goodzone parece condenado. Funcionários, que preferem manter o anonimato, descrevem um fluxo de clientes escasso. Ivan, um caixa de uma grande rede varejista russa, relata um dia com apenas 13 transações, totalizando cerca de US$ 45. Em tempos melhores, esse número seria dez vezes maior.

“O Goodzone parece meio apocalíptico”, descreve Ivan. “Parece que foi construído para um fluxo enorme de pessoas, mas eu não vi nada disso.” A CNN constatou que o site do shopping anuncia aluguel de espaços comerciais a preços irrisórios, a partir de US$ 0,01 por metro quadrado, e muitas lojas vazias antes abrigavam marcas ocidentais que se retiraram.

Duas funcionárias de uma loja de presentes corroboram o cenário. “Basicamente, estamos usando esta loja como um depósito”, afirmam. A pandemia da Covid-19 já havia impulsionado o comércio online, mas foi a invasão da Ucrânia em 2022 que acentuou a queda no poder de compra. “Não acreditamos que a situação vá melhorar. Só esperamos que não piore”, desabafam, citando o aumento diário dos preços e a estagnação dos salários.

Aumento de Impostos e o Ciclo de Expansão Encerrado

Para suprir a necessidade de fundos, a Rússia aumentou impostos, incluindo o IVA, que subiu para 22% em janeiro de 2026. Ruben Enikolopov, professor da Escola de Economia de Barcelona, explica que o ciclo de expansão econômica, impulsionado por gastos militares e reservas consideráveis, chegou ao fim. Com as reservas baixas, o governo busca recursos através do aumento da carga tributária.

Apesar dos altos preços do petróleo beneficiados pela guerra no Oriente Médio, ataques ucranianos a refinarias russas têm limitado a capacidade de venda. O ministro do Desenvolvimento Econômico, Maxim Reshetnikov, admitiu que as mudanças tributárias afetaram as empresas e que as reservas russas estão “praticamente esgotadas”.

Desigualdade Crescente: Ricos Mais Ricos, Pobres Mais Pobres

Enquanto a população geral enfrenta dificuldades, os bilionários russos viram sua riqueza aumentar em 11% no último ano, segundo a Forbes Rússia. Alexandra Prokopenko, pesquisadora do Carnegie Russia Eurasia Center, aponta que a guerra exacerbou a desigualdade: “Estamos vendo os ricos ficarem mais ricos e os pobres ficarem mais pobres.”

Em Golitsyno, cidade de baixa renda na região de Moscou, moradores como Lyubov Sergeevna vivem de aposentadorias que mal cobrem as despesas. Ela expressa pessimismo quanto aos preços, mas mantém um apoio resignado à “operação militar especial”, afirmando: “Vamos resistir por uma boa causa; não há mais nada a fazer.” A situação é agravada por interrupções estatais na internet e telefonia móvel, que dificultam a comunicação e os negócios, como relata Oksana, de São Petersburgo, cujo trabalho de vendas é prejudicado pela instabilidade tecnológica.