“Eclipse” de Djin Sganzerla: O Cinema Brasileiro que Desafia a “Cartilha” de Hollywood

Uma Proposta Cinematográfica Distinta

O filme “Eclipse”, dirigido por Djin Sganzerla, chega aos cinemas nesta quinta-feira (7), oferecendo uma alternativa refrescante às produções americanas que dominam as telonas. A obra se destaca por sua abordagem temática e narrativa, convidando o público a uma experiência cinematográfica mais profunda e reflexiva.

Feminino, Família e Mistério: A Trama de “Eclipse”

A história acompanha Cléo (interpretada pela própria Djin Sganzerla), uma mulher em um momento de plenitude profissional e pessoal, casada com Tony (Sergio Guizé). Sua vida toma um rumo inesperado com a chegada de sua meia-irmã indígena, Nalu (Lian Gaia). Nalu traz consigo uma revelação familiar que desestabiliza Cléo, levando-a a questionar as camadas mais profundas de seu relacionamento e de sua própria história.

“Essa realização surgiu do desejo de falar sobre esses temas que eu toco e me aprofundo no filme, mas também de fazer um thriller. Foi um processo longo, super elaborado, uma construção intencional. A gente queria mergulhar no feminino, na mulher e em suas questões, tão preciosas e cada vez mais urgentes e necessárias de serem faladas”, explicou a diretora em entrevista à CNN Brasil.

O Cinema Brasileiro em Contraste com Hollywood

Enquanto filmes americanos recentes como “Uma Batalha Após a Outra” (abordando a perseguição a imigrantes) e “O Drama” (sobre tiroteios escolares) tratam de temas relevantes, “Eclipse” foca em questões intrinsecamente ligadas à realidade brasileira. O longa aborda assuntos como feminicídio, violência doméstica, estupro, masculinidade tóxica, noções de família tradicional e cultura indígena, oferecendo um espelho das complexidades sociais do país.

Sganzerla critica a tendência de Hollywood em criar filmes “estimulantes” que priorizam o ritmo acelerado e a repetição de informações para capturar a atenção em meio à distração digital. “Eu parto do princípio que primeiro quero contar uma história e fazer um bom filme. Não adianta eu tentar me moldar e dar informações rápidas, seguir uma cartilha que eu sei que está sendo muito seguida pelos streamings… Eu entendo, mas isso não me interessa”, afirma a cineasta.

A diretora defende um cinema que envolva o espectador em um nível sensorial e intelectual. “O que me interessa é fazer um filme que envolva o espectador, que ele use todos os seus sentidos e capacidades de observar e elaborar os pensamentos enquanto está vendo o filme. É uma tentativa que o público embarque e viaje por essa história”, complementa.

Desafios da Direção Feminina e o Legado Cinematográfico

Djin Sganzerla também compartilhou as dificuldades enfrentadas por mulheres na indústria cinematográfica. “Não é fácil ser uma diretora mulher, ainda sofremos muito preconceito, inclusive dentro do próprio set. Ainda há muita resistência a uma diretora, sempre precisamos nos provar”, desabafou. Ela ressaltou que a percepção sobre seu trabalho mudou significativamente após a exibição de seus filmes em grandes telas.

Filha de ícones do cinema nacional, Rogério Sganzerla e Helena Ignez, Djin carrega um legado de experimentação e liberdade criativa. Ela relembra um passado onde o cinema brasileiro permitia mais riscos e menos preocupação em agradar, resultando em produções inventivas e baratas. “No passado havia um cinema que a gente podia arriscar mais, com menos preocupação em agradar. No Brasil tínhamos uma liberdade maior de fazer, criar filmes mais baratos e inventivos, e isso é maravilhoso pois precisamos dessa diversidade. Normalmente são desses lugares que saem os grandes filmes”, conclui.