Harar: Uma Tradição de Coexistência com os “Homens-Hiena”
Na cidade sagrada de Harar, Etiópia, uma tradição secular desafia a má fama das hienas. Abbas Yusuf, um dos últimos “homens-hiena”, perpetua o costume de alimentar esses animais selvagens, que emergem da escuridão para aceitar a carne oferecida. Essa prática, que começou há séculos com a construção de aberturas nas muralhas da cidade para permitir a passagem dos animais, evoluiu para uma relação de confiança e até mesmo admiração. Turistas pagam para testemunhar as alimentações noturnas, transformando a interação em uma atração cultural e econômica.
Mekelle: As Hienas Como Solução Ecológica para o Lixo Urbano
Longe de Harar, na cidade de Mekelle, o ecólogo Gidey Yirga lidera pesquisas que revelam o valor inestimável das hienas na gestão de resíduos. Em aterros sanitários, esses animais, juntamente com outros necrófagos, processam toneladas de lixo orgânico anualmente. Estima-se que as hienas-malhadas realizem 90% desse trabalho, economizando milhões em custos de descarte para a prefeitura. Ao consumir restos de carne e outros materiais orgânicos, elas reduzem as emissões de carbono e reciclam nutrientes, além de prevenir a disseminação de doenças mortais como antraz e tuberculose bovina.
Benefícios Mútuos e Desafios na Coexistência
A relação entre humanos e hienas em Mekelle é descrita como mutualística. Os animais se beneficiam dos resíduos descartados, enquanto os moradores se beneficiam dos serviços de limpeza. Pesquisas indicam que a maioria da população local reconhece o papel benéfico desses animais. No entanto, a coexistência pacífica enfrenta desafios, especialmente em tempos de conflito. A guerra em Tigray, por exemplo, levou a uma escassez de alimento para as hienas, resultando em ataques a animais domésticos e maior aproximação com áreas habitadas por pessoas deslocadas.
Reescrevendo a Narrativa: Do Vilão ao Guardião Ecológico
A reputação negativa das hienas, perpetuada por séculos e até por representações culturais como “O Rei Leão” da Disney, tem levado ao declínio de suas populações em toda a África. A competição por recursos e a retaliação por ataques ao gado colocam essas espécies em risco. Contudo, na Etiópia, a percepção começa a mudar. A cidade de Harar as reverencia, enquanto Mekelle as respeita como faxineiras essenciais. Especialistas como Gidey Yirga e Marcus Baynes-Rock defendem a necessidade de reeducar o público e oferecer espaços seguros para esses animais, destacando seu valor ecológico e os serviços vitais que prestam aos ecossistemas urbanos em todo o mundo.
O Futuro da Coexistência e a Preservação da Tradição
Enquanto a expansão urbana em Harar ameaça as rotas tradicionais das hienas, planos para um “ecoparque” buscam gerenciar a interação com turistas de forma mais controlada. Apesar dos riscos de excessiva habituação, a tradição dos “homens-hiena” se mantém viva, com Abbas Yusuf passando seus conhecimentos ao filho. A esperança é que, com a valorização de seu papel ecológico e cultural, as hienas continuem a desempenhar suas funções essenciais, reescrevendo sua história de vilãs para guardiãs indispensáveis das cidades etíopes.