MARICÁ: A CIDADE BILIONÁRIA QUE AFUNDA EM PROBLEMAS BÁSICOS…

Por Ricardo Cantarelle

Município com orçamento de R$ 7 bilhões amplia repasses para carnaval enquanto população enfrenta problemas na saúde, saneamento e serviços públicos

MARICÁ – Enquanto a Câmara Municipal aprova aumento de R$ 8 milhões para R$ 20 milhões em repasses para escolas de samba, a população de Maricá segue enfrentando problemas que parecem incompatíveis com um município que possui orçamento de R$ 7 bilhões, impulsionado pelos royalties do petróleo.

Saneamento abaixo da média estadual

Os números são alarmantes: apenas 12,5% da população tem acesso a serviços de esgotamento sanitário, enquanto mais de 113 mil moradores dependem de fossas sépticas ou soluções precárias. O índice é quatro vezes menor que a média do Estado do Rio de Janeiro, que ultrapassa 61%.

A situação contrasta com os discursos oficiais. O prefeito Washington Quaquá prometeu alcançar 67% de cobertura até 2028 e afirmou que “não vai faltar dinheiro para obra e saneamento”, mas a realidade nas ruas segue sendo alvo de críticas da população.

Saúde sob pressão

O sistema de saúde municipal apresenta sinais de pressão crescente. Em maio de 2025, o Hospital Municipal Conde Modesto Leal e a UPA de Inoã registraram superlotação, com pacientes aguardando mais de três horas por atendimento. A causa apontada por moradores e vereadores seria a falta de médicos em postos de saúde de Chácaras de Inoã, Mumbuca e Barra na Divinéia.

O vereador Chiquinho denunciou em abril de 2025 que faltam medicamentos básicos, incluindo insulina, e que postos não tinham sequer copos descartáveis. Pais de crianças autistas também relataram em maio de 2026 dificuldades para encontrar Risperidona, medicamento utilizado no tratamento.

Falhas no sistema administrativo

Em maio de 2026, o sistema da Prefeitura apresentou instabilidade que afetou a emissão de IPTU, alvarás e acesso a contracheques.

Contribuintes relataram dificuldades para acessar serviços digitais e também reclamaram de problemas relacionados à emissão de boletos e descontos prometidos pela administração municipal.

Cresce preocupação com população em situação de rua

Dados municipais de 2025 apontaram crescimento da população em situação de rua, número superior ao registrado em anos anteriores.

Moradores relatam ocupação de áreas públicas, praças e pontos de ônibus, além de sensação de insegurança em determinadas regiões da cidade.

Comerciantes também demonstram preocupação com impactos no cotidiano e cobram medidas sociais e de ordenamento urbano.

Moradores cobram manutenção urbana

O próprio prefeito admitiu ausência da cidade em maio de 2025, quando cobrou produtividade da equipe enquanto passava parte dos primeiros meses de mandato em viagens à Europa, Cuba e Brasília.

Após meses de reclamações sobre mato alto e falta de manutenção na Rodovia Amaral Peixoto, serviços de limpeza e manutenção passaram a receber novas cobranças públicas da população.

Tribunal de Contas acende alerta vermelho

O Tribunal de Contas do Estado não poupou apontamentos à administração municipal:

TCE-RJ emitiu parecer preliminar contrário às contas de 2024, apontando descumprimento da Lei de Responsabilidade Fiscal

Em fevereiro de 2026, suspendeu licitação de R$ 57,1 milhões por irregularidades no edital

Manteve condenação ao ressarcimento de R$ 15,6 milhões por superfaturamento em contrato de 2013-2018 durante gestão anterior de Quaquá

Licitação de R$ 106 milhões para pavimentação está sob investigação após habilitação de empresa citada na Operação Lava Jato

Sensação de inércia institucional aumenta cobrança popular

A sensação de inércia institucional diante de denúncias encaminhadas aos órgãos de fiscalização também passou a alimentar debates políticos e cobranças públicas em Maricá.

Moradores, comunicadores locais e setores da população têm utilizado redes sociais e manifestações públicas para pedir maior rigor na apuração de denúncias envolvendo contratos, licitações e aplicação de recursos públicos no município.

Para parte da população, o momento gera expectativa de fortalecimento das instituições de controle e de uma atuação mais efetiva na fiscalização do dinheiro público em uma das cidades com maior arrecadação proveniente dos royalties do petróleo no Estado do Rio de Janeiro.

Debate sobre prioridades ganha força

Enquanto serviços essenciais enfrentam críticas e cobranças da população, investimentos em eventos e projetos de grande visibilidade seguem avançando na cidade.

Defensores dos investimentos no carnaval afirmam que os eventos movimentam a economia, geram empregos e fortalecem a cultura local.

Já críticos questionam se o aumento milionário nos repasses deveria ocorrer em um momento em que a cidade ainda enfrenta problemas históricos de infraestrutura básica.

Apesar da arrecadação bilionária impulsionada pelos royalties do petróleo, Maricá ainda enfrenta gargalos em saneamento, saúde e infraestrutura urbana.

Dados de desenvolvimento humano apontam que o município possui índice considerado alto, mas ainda distante de figurar entre os principais destaques nacionais em qualidade de vida.

Para parte da população, a discussão deixa de ser apenas sobre carnaval ou eventos públicos.

A pergunta que começa a ecoar nas ruas e nas redes sociais é outra:

como uma das cidades mais ricas do Estado do Rio de Janeiro ainda convive com problemas considerados básicos por parte de seus moradores?