Quaquá trata a Executiva Nacional do PT como “cacho de banana” e a cúpula já planeja a conta

Por Ricardo Cantarelle/TVC

Xingamentos a dirigentes, votos contra a linha do partido e veto a decisões da cúpula: o comportamento do prefeito de Maricá acumula registros que membros do PT classificam como violações ao estatuto e à disciplina partidária. A expulsão, segundo bastidores revelados por Lauro Jardim, virá após as eleições.

A crise entre Washington Quaquá e a direção nacional do PT não nasceu de uma divergência pontual. Ela foi se construindo ao longo de meses em xingamentos públicos a dirigentes, em votos contrários à linha do partido e em decisões tomadas de forma unilateral, como se a Executiva Nacional fosse uma instância que o prefeito de Maricá pudesse simplesmente ignorar.

O resultado está nos bastidores: a cúpula petista planeja, para depois das eleições de outubro, iniciar o processo de afastamento definitivo de Quaquá da legenda.

Segundo informações divulgadas pelo colunista Lauro Jardim, de O Globo, a intervenção da Executiva Nacional no diretório estadual do Rio de Janeiro marca apenas o início de um período conturbado para Quaquá dentro da legenda.

A cúpula petista já traçaria os próximos passos e pretenderia, somente após as eleições, dar início ao processo para afastá-lo definitivamente da sigla.

Mas para entender por que a conta chegou, é preciso reconstituir uma série de episódios que, somados, compõem um retrato de indisciplina partidária sem precedentes recentes no PT fluminense.

Os xingamentos: Gleisi é “máquina particular”, Lindbergh tem “baixo nível”

Em outubro de 2025, o que estava nos bastidores veio a público de forma explosiva.

Em vídeo publicado nas redes sociais e em mensagens privadas enviadas a aliados, Quaquá acusou Lindbergh Farias, André Ceciliano e a presidente nacional do PT, Gleisi Hoffmann, de usarem suas posições no governo federal para “fazer política própria” e de descaso com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

O tom foi além da crítica política. Em mensagens adicionais enviadas pelo WhatsApp, Quaquá escreveu: “Aqui no Rio, o uso da máquina federal por Lindbergh e Ceciliano serve só pra eles! Não falam sequer do Lula! Não organizam nada pra fazer campanha pro presidente Lula e Eduardo Paes!” E foi mais duro com a ministra: “Ministra Gleisi, pare de usar a máquina do governo federal pra fazer política particular! Não vamos tolerar isso!”

A resposta foi à altura. Lindbergh Farias rebateu publicamente: “Dá preguiça e uma sensação de perda de tempo ter de responder a uma figura que eu, cada vez mais, considero desprezível. Sabe baixo nível, cheiro de esgoto.”

Mas Lindbergh não parou nos xingamentos. Ele foi além e foi direto ao ponto que interessa ao estatuto do partido.

“Posições avessas ao PT”: a acusação que abre caminho disciplinar

O que diferencia a briga de outubro de 2025 de uma simples rusga entre correligionários é o enquadramento formal que Lindbergh usou.

O líder do PT na Câmara afirmou que Quaquá “frequentemente adota posições avessas ao PT, prejudicando as ações partidárias e nossa retomada política”. E elencou dois casos concretos: a defesa da anistia aos envolvidos nos ataques de 8 de janeiro e o apoio à PEC da Blindagem.

Ambos os episódios representam, na leitura de setores da cúpula, descumprimento das orientações aprovadas pelos órgãos de direção da legenda exatamente o tipo de conduta que o estatuto do PT tipifica como infração disciplinar.

O Artigo 24 da Lei dos Partidos Políticos é claro ao determinar que o filiado deve subordinar sua ação às diretrizes dos órgãos de direção partidários.

Ao fim de sua declaração, Lindbergh foi conclusivo: “Sinceramente, esse Quaquá sobra no PT.”

A intervenção: quando a Executiva foi tratada como obstáculo

Se os episódios de outubro apontaram para uma crise de conduta, a decisão de maio de 2026 revelou uma crise institucional dentro do partido. Por 19 votos favoráveis, nenhum contrário e três abstenções, a Executiva Nacional do PT decidiu avocar para si a competência exclusiva sobre a indicação, definição e homologação dos nomes destinados à primeira e segunda suplências da pré-candidatura de Benedita da Silva ao Senado Federal pelo Rio de Janeiro.

Na resolução aprovada, a cúpula justificou a medida alegando “a importância de garantir a unidade partidária na construção de uma robusta chapa majoritária no estado do Rio de Janeiro”.

A decisão esvaziou o diretório estadual controlado por aliados de Quaquá de sua principal prerrogativa no processo eleitoral de 2026. Na prática, a medida enfraqueceu a influência de Quaquá, que detinha maioria no diretório estadual e vinha resistindo à indicação de Manoel Severino como primeiro suplente da chapa.

A reação de Quaquá ao resultado da votação instância máxima do partido entre congressos foi reveladora. Ao Metrópoles, ele declarou que “esse pessoal perdeu a noção”. Em seguida, avisou ao PT que não fará campanha para Benedita da Silva.

Tratar uma decisão aprovada por 19 votos na Executiva Nacional como algo que “perdeu a noção” e anunciar publicamente que descumprirá a orientação partidária de campanha é exatamente o tipo de conduta que membros do partido citam, nos bastidores, como violação ao dever de solidariedade e disciplina previstos no estatuto petista.

O nome que está no centro de tudo e seus antecedentes

A disputa em torno dos suplentes de Benedita também levanta questões que a TVC, com apura. Manoel Severino, o nome que Benedita insistia em emplacar como primeiro suplente, foi presidente da Casa da Moeda no primeiro governo Lula e deixou o cargo durante o escândalo do mensalão.

À época, o empresário Marcos Valério entregou à Polícia Federal um documento que o citava como beneficiário do esquema.

Anos depois, Severino admitiu ter recebido R$ 100 mil em caixa dois para quitar dívidas da campanha de Benedita ao governo do Rio, em 2002. É este o nome cuja imposição Quaquá resistiu e que a Executiva Nacional, ainda assim, decidiu homologar.

O que está em jogo para Maricá

A medida da Executiva Nacional reflete o crescente isolamento do prefeito dentro da legenda, onde ele era considerado uma figura de forte influência no estado do Rio de Janeiro. Com a intervenção consumada, o controle sobre o diretório fluminense que o grupo de Quaquá havia consolidado após a eleição do filho Diego Zeidan para a presidência estadual do partido começa a ser contestado a partir do próprio comando nacional.

Se a informação de Lauro Jardim se confirmar, Quaquá pode chegar a outubro de 2026 ainda como prefeito de Maricá, mas politicamente divorciado do PT o partido que ele próprio ajudou a edificar no município ao longo de décadas. O custo para a cidade, em termos de acesso a recursos e influência política junto ao governo federal e ao estado, ainda está por ser calculado.

A TVC solicitou posicionamento à assessoria de comunicação do prefeito Washington Quaquá. O espaço permanece aberto para manifestação.

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