Quebra de safra de soja no Brasil em 2026/27 pode derrubar estoques globais a menor nível em 3 anos, alerta Itaú BBA

Risco de El Niño forte assombra safra de soja brasileira

A possibilidade de uma quebra significativa na safra brasileira de soja em 2026/27 voltou a preocupar o mercado global. A crescente probabilidade de um El Niño forte, já confirmado oficialmente com 63% de chance de intensidade muito forte, acende um alerta para a oferta mundial. Simulações do Itaú BBA indicam que uma perda de apenas 6% na produção nacional seria suficiente para reduzir os estoques globais ao menor nível em três anos, impactando a relação estoque/consumo para 25% e potencialmente reacendendo um ciclo de alta nas commodities agrícolas.

El Niño: Diferenças cruciais em relação à La Niña

Ao contrário do La Niña, que frequentemente causa perdas simultâneas em diversas regiões produtoras, o El Niño tende a gerar um efeito de compensação geográfica. Enquanto algumas áreas sofrem com seca e calor, outras podem apresentar melhora nas condições climáticas e ganhos de produtividade. Historicamente, episódios de El Niño, mesmo os fortes como em 1997/98 e 2015/16, não resultaram em rupturas significativas no balanço global de soja e milho, com mercados apresentando menor volatilidade. A preocupação atual reside na maior dependência global da produção sul-americana.

Brasil no centro do furacão: Vulnerabilidade e impacto em cadeia

O Brasil, juntamente com a Argentina, responde por cerca de 65% das exportações mundiais de soja. A nova realidade do mercado, com maior peso das perdas na América do Sul, torna qualquer choque produtivo no Brasil um motivo de grande apreensão. Regiões como o Centro-Oeste e o Matopiba, importantes polos de expansão agrícola e mais vulneráveis aos efeitos do El Niño, podem sofrer com atrasos no plantio, redução de produtividade e efeitos em cascata sobre o milho safrinha. O ciclo 2023/24, que viu quedas de produtividade no Mato Grosso e Matopiba e um recuo na produção nacional, serve de referência para as simulações.

Estoques globais em queda e a ausência da Argentina como compensação

Uma quebra de 6% na safra brasileira de 2026/27, simulada pelo Itaú BBA, levaria a produção nacional a 169 milhões de toneladas, retirando cerca de 11 milhões de toneladas da oferta global. Os estoques finais globais projetados para 125 milhões de toneladas cairiam para aproximadamente 108 milhões, o menor patamar desde 2023/24. A relação estoque/consumo despencaria de 28% para 25%, indicando maior sensibilidade do mercado a eventos adversos. Diferentemente de 2023/24, quando a Argentina recuperou sua produção e compensou as perdas brasileiras, a safra argentina atual está normalizada, diminuindo a capacidade de compensação global. Além disso, o crescimento da demanda por biocombustíveis pressiona ainda mais a oferta de óleo de soja.

Milho também sob risco e cenário de mercado apertado

Os riscos se estendem ao milho, especialmente o de segunda safra (safrinha). Atrasos no plantio da soja devido ao El Niño podem comprometer a janela ideal para o milho, aumentando sua exposição a déficits hídricos e altas temperaturas. Historicamente, o milho safrinha é ainda mais sensível a esses fenômenos do que a soja. Com estoques globais em declínio e um mercado caminhando para um dos menores superávits da história recente, o cenário é de um mercado progressivamente mais apertado, mesmo que sem ruptura estrutural imediata. Embora o cenário base do Itaú BBA preveja uma safra recorde no Brasil, um cenário alternativo com quebra de produção alteraria drasticamente a dinâmica de estoques e preços internacionais.