Enquanto as apostas online são alvo de projetos no Congresso, dados revelam que o sistema bancário é o maior vetor da inadimplência, endividando 81,7 milhões de brasileiros com juros abusivos.
O debate sobre o endividamento das famílias brasileiras ganhou um novo capítulo com a crescente popularidade das apostas online, as chamadas bets. Um estudo recente da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) apontou um impacto preocupante, mas será que estamos olhando para o problema completo?
É fundamental questionar se a atenção dedicada às bets não estaria desviando o foco de um problema estrutural muito maior: o endividamento massivo gerado pelo sistema bancário, com suas taxas de juros exorbitantes e práticas que penalizam a população.
Essa análise, que busca aprofundar o entendimento sobre as causas reais da fragilidade financeira no país, é defendida por Cristiano Costa, psicólogo e diretor de conhecimento da EBAC (Empresa Brasileira de Apoio ao Compulsivo).
A Realidade do Endividamento no Brasil: Além das Bets
O estudo da CNC, divulgado em abril, estima que as bets levaram 270 mil famílias à inadimplência severa. Embora alarmante, esse número empalidece diante dos 81,7 milhões de brasileiros endividados pelos bancos, um aumento de 38% em uma década, com juros que podem chegar a 61% ao ano. Não houve uma bancada suprapartidária para enfrentar essa realidade.
O endividamento das famílias brasileiras não é um fenômeno recente, nascido com as apostas online. Ele remonta a um cenário de uma das maiores taxas de juros reais do mundo, 9,3%, e um spread bancário que figura entre os mais elevados do planeta, 34,6 pontos percentuais.
A taxa Selic, muitas vezes acima de 14%, não é apenas uma política monetária, mas um mecanismo que favorece rentistas e torna o crédito inacessível ao trabalhador comum. Para uma família humilde, essa estrutura transforma a dívida em uma armadilha permanente, dificultando a travessia do mês.
Regulamentação Essencial: O Dilema das Apostas Online
O projeto “Brasil contra as bets”, protocolado no Congresso em maio, parte de uma premissa legítima: o jogo compulsivo causa danos reais e custosos. O estudo do Ieps, que embasava a proposta, estimou um impacto anual de R$ 38,8 bilhões associado ao jogo problemático, um número que merece atenção.
No entanto, o diagnóstico do projeto era considerado incompleto, e o remédio proposto poderia piorar a situação. A regulamentação urgente nesse setor é crucial, pois o controle democrático é ínfimo, muitas vezes tendendo a zero, uma necessidade que existe desde a gestão do ex-presidente FHC.
É importante destacar que a Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA) já publicou a Portaria nº 2.579 e a Instrução Normativa nº 31. Essas medidas estabelecem mecanismos inéditos no país, como autoexclusão centralizada, autolimites de apostas e um banco de dados de apostadores com comportamento compulsivo.
Nenhum banco, instituição financeira ou lotérica foi obrigado a criar mecanismos semelhantes de proteção ao consumidor. Isso demonstra um modelo de gestão de risco de compulsividade que é único entre os setores que mobilizam conflitos psicológicos similares.
O Perigo do Mercado Clandestino e a Publicidade
As operadoras de bets legalmente licenciadas recolhem impostos, com quase R$ 10 bilhões previstos para 2025 e R$ 2,5 bilhões já nos primeiros dois meses de 2026. Elas operam sob fiscalização contínua, e a SPA, em parceria com a Anatel, já bloqueou mais de 25 mil sites não autorizados, o que revela a dimensão do mercado clandestino.
A proibição de publicidade para quem opera dentro da lei não elimina a demanda, mas favorece o mercado clandestino. Apostar em uma bet ilegal é tão perigoso quanto ingerir bebida adulterada ou contratar empréstimo consignado para idosos e aposentados.
A ausência de controle não protege ninguém, apenas remove qualquer chance de intervenção. O esforço regulatório deveria focar em exterminar o mercado clandestino das bets, em vez de criar novos encargos exclusivamente para quem já está dentro da lei.
A Raiz do Problema: Fragilidade Financeira e Rentismo
O debate público raramente questiona por que uma estrutura que privilegia o rentismo é socialmente aceita, enquanto as bets são atacadas. As apostas e loterias fazem parte da economia popular, e as casas de apostas legais parecem ser o bode expiatório da vez.
Combater as bets gera mais visibilidade e é politicamente menos custoso do que questionar o rentismo. Isso não significa que o setor esteja livre de críticas, pois o jogo compulsivo é real e a publicidade agressiva para populações vulneráveis merece regulação severa, assim como o uso de atletas e influenciadores para normalizar comportamentos de risco entre jovens.
No entanto, a pergunta essencial que o Brasil precisa fazer não é se as bets são ruins, mas por que tantos brasileiros estão tão fragilizados financeiramente que qualquer promessa de alavancagem financeira parece uma saída razoável. Enquanto essa questão não for prioridade, estaremos tratando apenas o sintoma e ignorando a verdadeira doença.