EUA Criticam Decisão do Brasil que Libera Suposto Espião Russo: Tensão Diplomática e o Futuro de Sergey Cherkasov

Os Estados Unidos expressaram formalmente sua insatisfação com a recente decisão do governo brasileiro. A medida em questão autoriza a expulsão de Sergey Cherkasov, um indivíduo apontado como um espião russo, abrindo caminho para seu retorno à Rússia após o cumprimento de sua pena no Brasil.

A reação americana foi divulgada por meio de uma nota do Departamento de Estado, que manifestou grande preocupação. Washington argumenta que tal ação pode comprometer os esforços conjuntos para combater atividades de inteligência estrangeira.

Este desdobramento reacende um complexo imbróglio diplomático envolvendo Brasil, Rússia e Estados Unidos, com o destino do suposto agente russo no centro das atenções, conforme informação divulgada pelo G1.

A Reação Americana e o Caso Cherkasov

Nesta quarta-feira, 8 de maio, um porta-voz do Departamento de Estado americano afirmou que os EUA estão “profundamente preocupados” com a decisão brasileira. Segundo a declaração, a medida enfraquece o compromisso conjunto de combater interferências estrangeiras e de proteger a integridade das instituições democráticas.

O governo americano apelou para que o Brasil reconsidere o precedente que a decisão pode criar. Washington pediu uma colaboração para responsabilizar aqueles que, segundo os EUA, “ameaçam nossa segurança coletiva”. A decisão brasileira, publicada no Diário Oficial da União na segunda-feira, 6 de maio, determina a expulsão de Cherkasov, mas sua execução depende do fim da pena ou de liberação judicial antecipada.

Sergey Cherkasov está detido desde 2022 em uma penitenciária federal em Brasília, onde cumpre uma pena de cinco anos por falsidade ideológica. Ele é identificado pela Polícia Federal brasileira e pelo FBI como um agente de inteligência russo que utilizava uma identidade falsa brasileira para atuar no exterior, tendo vivido por 12 anos como brasileiro.

Contudo, as investigações brasileiras não encontraram evidências de que Cherkasov tenha atuado como espião contra o Brasil. Seu foco de atuação, conforme apurado, seriam os Estados Unidos e países europeus, embora ele negue até hoje ser um agente a serviço do governo russo.

A Disputa Diplomática por Cherkasov

Desde a prisão de Cherkasov, americanos e russos travaram uma intensa disputa diplomática pelo seu destino. Tanto Moscou quanto Washington apresentaram pedidos de extradição ao governo brasileiro, cada um com versões opostas sobre a identidade e as atividades do acusado.

A disputa começou oficialmente em agosto de 2022, quando a Rússia solicitou a extradição de Cherkasov ao Supremo Tribunal Federal (STF), alegando que ele era procurado por tráfico de drogas. Essa versão foi contestada pelos Estados Unidos e pelas autoridades brasileiras, que viram a acusação como uma possível tentativa russa de repatriar um suposto espião.

Em março de 2023, o Departamento de Justiça dos EUA formalizou uma acusação criminal contra Cherkasov, identificando-o como um agente do serviço de inteligência militar russo, o GRU. Segundo os EUA, ele teria usado a identidade falsa de Victor Muller Ferreira para se infiltrar em instituições acadêmicas e políticas americanas, fazendo parte do grupo conhecido como “ilegais”, agentes russos com identidades falsas.

No mesmo mês, o ministro do STF, Luiz Edson Fachin, autorizou a extradição de Cherkasov para a Rússia, mas condicionou a entrega à conclusão das investigações brasileiras. Em abril de 2023, os EUA também apresentaram formalmente um pedido de extradição, acusando Cherkasov de atuar como agente estrangeiro em solo americano e de envolvimento em fraudes financeiras.

Em julho de 2023, o Ministério da Justiça brasileiro negou o pedido de extradição dos EUA, alegando a improcedência devido à existência de um pedido russo já homologado pelo STF. No final do ano passado, a Justiça Federal e o Ministério Público Federal (MPF) informaram que Cherkasov não tinha mais pendências jurídicas que impedissem sua extradição, cabendo a decisão final à Presidência da República.

A Rede de Espiões Russos no Brasil

A suspeita de que o Brasil estaria sendo utilizado como uma espécie de “berçário” de espiões russos ganhou destaque após uma reportagem do jornal norte-americano The New York Times, confirmada pela BBC News Brasil. A investigação da Polícia Federal brasileira teria identificado pelo menos nove supostos espiões russos que utilizaram documentos brasileiros como parte de seus disfarces.

Fontes ligadas à investigação revelaram que, dos nove supostos espiões identificados, apenas Sergey Cherkasov permanece em solo brasileiro. Foi com a prisão dele que essa intrincada rede de disfarces começou a ser desvendada. A rede, segundo as investigações, utilizava disfarces inusitados, como um suposto espião atuando como dono de joalheria em Brasília, outro como estudante apaixonado por forró e uma terceira como modelo.

Como a Descoberta Abalou a Rede

Em abril de 2022, Sergey Cherkasov foi detido em Amsterdã, na Holanda, ao tentar entrar no país para um estágio no Tribunal Penal Internacional, em Haia. Ele se apresentava como o brasileiro Victor Muller Ferreira. As investigações conduzidas por holandeses, americanos e brasileiros apontam que Cherkasov era um agente do GRU.

Devolvido ao Brasil, Cherkasov foi preso, processado e condenado a cinco anos de prisão por uso de documento falso, embora inicialmente a pena fosse de 15 anos. Apesar de investigado por espionagem no Brasil, o inquérito foi arquivado. Ele admitiu ter se passado por brasileiro, mas sempre negou ser um espião.

Poucos meses depois, em novembro de 2022, a polícia norueguesa prendeu outro “brasileiro”, José de Assis Giammaria, que as autoridades europeias afirmam ser Mikhail Mikushin, um espião russo infiltrado em uma universidade na região do Ártico. O terceiro caso veio à tona no final de 2022, com o desaparecimento do “brasileiro” Gerhard Daniel Campos, que seria Artem Shmyrev, outro espião russo que deixou o Brasil antes de ser preso.

A reportagem do The New York Times listou outras seis pessoas que teriam usado documentos brasileiros em seus disfarces, incluindo Yekaterina Leonidovna Danilova e Aleksandr Andreyevich Utekhin, que se disfarçava como empresário do ramo de joias em Brasília. Nenhuma das investigações da Polícia Federal indicou que esses espiões colhiam informações sobre o Brasil. A passagem pelo país era uma estratégia para criar um disfarce sólido para missões em outros locais.

Cherkasov, por exemplo, morou na Irlanda e nos Estados Unidos, chegando a residir a poucos quilômetros da sede da Agência Central de Inteligência (CIA). Em março de 2023, a BBC News Brasil revelou como Cherkasov teria “esquentado” documentos brasileiros com a ajuda de uma funcionária de cartório, a quem teria oferecido um colar de US$ 400. Não havia indícios de que ela soubesse de suas atividades de espionagem.

A Embaixada da Rússia no Brasil nunca se manifestou sobre o caso. A única vez que o governo russo chegou perto de admitir que alguém desse grupo era um espião foi quando Mikhail Mikushin foi incluído em um acordo de troca de prisioneiros entre a Rússia e os Estados Unidos, em agosto de 2024.