Oligarca mais rico da Rússia critica regime de Putin e alerta para futuro sombrio após guerra na Ucrânia: qual o risco?

Oligarca mais rico da Rússia desafia o regime de Putin e revela cenários pós-guerra

Andrey Melnichenko, conhecido como o “rei mundial dos fertilizantes” e considerado o oligarca mais rico da Rússia, realizou um movimento que muitos considerariam suicida no atual cenário político russo. Ele concedeu uma extensa entrevista à revista britânica The Economist, na qual adota uma postura abertamente crítica ao regime de Vladimir Putin.

Em suas declarações, Melnichenko descreve um futuro sombrio para a Rússia após o fim da guerra com a Ucrânia, alertando para a possibilidade de o país se transformar em uma ditadura hermética, similar à Coreia do Norte, ou mergulhar em um caos anárquico com um arsenal nuclear descontrolado.

A ousadia de suas palavras ressoa com a gravidade do momento, especialmente considerando o destino trágico de outros empresários e figuras ligadas ao Kremlin que se manifestaram publicamente, conforme revelado pela revista britânica The Economist.

O Ato de Coragem Sem Precedentes

Um magnata que reside na Rússia conceder uma entrevista com críticas ao regime de Putin neste momento é um ato de coragem quase incompreensível. Desde o início da invasão da Ucrânia em 2022, dezenas de oligarcas, executivos de alto nível de empresas como Gazprom e Lukoil, e figuras antes leais ao Kremlin foram encontrados mortos em circunstâncias misteriosas.

Os episódios incluem quedas de janelas, “suicídios” mal explicados, infartos repentinos, desastres aéreos, acidentes ou assassinatos disfarçados, supostamente com substâncias indetectáveis. O número total de casos gira em torno de dezenas apenas entre empresários e executivos, podendo ultrapassar 60 se incluídos oficiais das forças russas e milícias mercenárias.

Muitos desses casos envolveram pessoas que criticaram publicamente a invasão da Ucrânia, embora não necessariamente Putin de forma direta. Fazer uma declaração pública que coloca em dúvida a liderança de Putin, como fez o oligarca mais rico da Rússia, é, portanto, um ato de grande risco.

A própria coragem de Melnichenko teria impressionado Putin em seu primeiro encontro, segundo o relato do empresário. “Vladimir Vladimirovich, sinceramente, eu entendo que as pessoas geralmente o procuram por pelo menos um destes dois motivos: ou estão com medo, por haver algum problema, ou querem algo: um cargo, um favor… Quanto ao medo, é claro que sinto: tenho 100% de medo, como qualquer outra pessoa. Por que negar? Não tenho medo de nada em particular, a menos que haja algo em sua pasta. Mas, se houver, por favor, me diga, para que eu saiba pelo menos o que temer”, teria dito ele no Kremlin.

Patriotismo e a Desilusão com o Ocidente

Nessa primeira conversa, Melnichenko teria demonstrado um profundo interesse em contribuir para o futuro do país. Ele identificou como um problema da oligarquia russa uma mentalidade que não vinculava o destino dos empresários ao da nação.

Para o bilionário, o Ocidente teria “mentido” ao garantir aos empresários russos o direito a uma fortuna que, ao menor sinal de instabilidade, acabou congelada em bancos. O iate do próprio Melnichenko foi apreendido pela polícia italiana, um exemplo concreto dessa desilusão.

“Não se pode ter um país para fazer dinheiro e outro para ter segurança, viver e construir o futuro da família”, afirmou o magnata. Esse discurso, que ressaltava a importância de vincular o destino pessoal ao da nação, agradou a Putin, que há muito tempo alertava os oligarcas de que eles não seriam verdadeiramente bem-vindos no Ocidente.

Os Cenários Sombrios para a Rússia Pós-Guerra

Hoje, este mesmo magnata, considerado o oligarca mais rico da Rússia, adverte que uma eventual humilhação do país por uma derrota militar na Ucrânia pode mergulhar a sociedade russa em um perigoso sentimento de revanchismo. Ele não afirma diretamente que Putin deva ser destituído, mas pontua que “um país privado de autonomia estratégica acabará por aceitar as regras daqueles que o privaram dela”.

Seus pensamentos foram reunidos em um amplo artigo analítico sobre os impactos do conflito na Ucrânia para o futuro da Rússia. O empresário expôs quatro cenários pós-guerra, todos considerados por ele sombrios:

O primeiro é a Reintegração periférica, onde a Rússia se isolaria e seria reintegrada à ordem ocidental, porém confinada a uma posição secundária. Para Melnichenko, isso soa como vassalagem, e uma Rússia humilhada quase certamente geraria um “revanchismo agressivo”.

O segundo cenário é a Dependência da China, onde o país seria permanentemente atraído para a órbita chinesa, funcionando como zona-tampão e fornecedor de recursos naturais. Com isso, a China passaria a ser responsabilizada pelos problemas locais e enfrentaria a rejeição da população russa. “A China ficaria satisfeita em tirar proveito da assimetria na relação, mas sem pressa em formalizá-la”, argumenta.

O terceiro cenário, considerado “inteiramente plausível” pela The Economist, é a Guerra civil e fragmentação. Este prevê a Rússia mergulhada em um conflito interno, com diferentes senhores da guerra disputando recursos escassos. Uma Rússia em frangalhos e detentora de armas nucleares era o pior pesadelo dos EUA na queda da União Soviética, e continua sendo. “Uma Rússia em frangalhos pode ser uma imagem atraente em discursos políticos, mas é muito menos atraente do ponto de vista da gestão de riscos”, pontua.

Por fim, o Isolamento total (Modelo Coreia do Norte), apoiado por setores da segurança e debatido no Kremlin, representa uma ameaça direta a Melnichenko e à elite russa. Envolve militarismo, repressão, racionamento e exportação de instabilidade. “Uma Rússia aprisionada na mentalidade de fortaleza permanente transformaria o confronto externo em um instrumento constante de política interna”, declarou.

A Única Saída: Uma Rússia Soberana e Previsível

A única alternativa a esses cenários pessimistas, segundo o oligarca mais rico da Rússia, seria o país se tornar “soberano”. Isso significaria priorizar o bem-estar de seu povo e manter um comportamento previsível perante o mundo, evitando os riscos de um futuro incerto sob o regime de Putin.

Melnichenko destaca ainda a lista de figuras que se manifestaram contra o regime de Putin e tiveram destinos trágicos. Executivos da Gazprom e Novatek, como Leonid Shulman, Alexander Tyulyakov, Vladislav Avayev e Sergey Protosenya, morreram em “suicídios” ou quedas não esclarecidas.

Ravil Maganov, presidente da Lukoil, que fez uma rara declaração pública contra a guerra, “caiu” da janela de um hospital em Moscou em setembro de 2022. Boris Berezovsky, um oligarca clássico e crítico ferrenho de Putin no exílio, foi encontrado morto em 2013, oficialmente por suicídio. Yevgeny Prigozhin, fundador do Grupo Wagner, que se rebelou abertamente, morreu em uma queda de avião com suspeita de bomba a bordo.

Outros executivos da Lukoil, como Vladimir Nekrasov, Alexander Subbotin e Vitaly Robertus, também faleceram em episódios suspeitos após a empresa criticar a guerra. Esses casos sublinham a gravidade das críticas de Melnichenko e os perigos enfrentados por quem desafia o poder no atual regime de Putin.