Racha na Convenção do PT-RJ: Freixo e Lindbergh miram Quaquá, e o vice-presidente nacional do partido responde com 37 anos de filiação na mão…

Por Ricardo Cantarelle

A Convenção Estadual do Partido dos Trabalhadores no Rio de Janeiro, que deveria ser vitrine de unidade rumo à eleição de Lula em 2026, terminou expondo em público a fratura que a militância fluminense tenta abafar há meses.

De um lado, os deputados federais Marcelo Freixo e Alessandro Molon, o Lindbergh Farias, gravaram um vídeo conjunto acusando a condução do partido no estado de funcionar como “capitania hereditária”.

Do outro, Washington Quaquá, prefeito de Maricá e vice-presidente nacional do PT, respondeu na mesma velocidade digital e trouxe para o vídeo a própria mãe, fundadora do diretório petista na cidade ao lado dele.

Não houve intervalo de reflexão. O confronto correu em tempo real pelas redes, e a TVC apura que a réplica mais dura não veio dos gabinetes de Brasília, mas de dentro da própria correnteria interna do PT-RJ: Olavo Brandão Carneiro, secretário de formação política do partido no estado, doutor em ciências sociais e militante da Articulação de Esquerda, publicou uma sequência de acusações diretas a Quaquá, relembrando um histórico de atritos que, segundo ele, não é recente.

“Não é picuinha”, dizem os deputados mas o tom sugere o contrário…

No vídeo gravado lado a lado, Freixo abre afirmando que ele e Lindbergh não compareceram à convenção. Lindbergh, na sequência, tenta calibrar o discurso: diz que a dupla “não está preocupada com picuinha interna” e que o objetivo é reeleger Lula e ampliar a bancada federal do PT no Rio. Mas a frase seguinte já muda de registro ele afirma que “tem uma hora que não dá” e que é preciso “colocar o pé no freio”, cravando que o problema não é numérico, mas de democracia interna.

Freixo reforça o ataque batizando a gestão do partido no Rio de “capitania hereditária” e associando a condução atual a “gestos autoritários” cercados de silêncio. É um recado sem citar nome mas que a militância do PT fluminense não teve dificuldade em decifrar.

Quaquá reage: “Pato velho” contra “pato novo”, e a convocação da própria história…

A resposta de Quaquá não demorou. Em vídeo publicado horas depois, o prefeito de Maricá disputa primeiro o terreno simbólico mais concreto da disputa: o número 1313, usado por ele nas eleições anteriores e agora reivindicado, segundo Quaquá, pelo atual presidente estadual do PT. Ele lembra que o número pertence à sigla que ele mesmo ajudou a erguer em Maricá cidade que, na narrativa do prefeito, converteu-se em uma das maiores e mais consolidadas administrações petistas do país.

Mas o núcleo da resposta de Quaquá é biográfico, e é aí que a disputa ganha peso histórico. Ele recorda que, enquanto Freixo apoiava publicamente a Operação Lava Jato e a atuação do então juiz Sergio Moro contra Lula, e enquanto Lindbergh cogitava deixar o PT para acompanhar Heloísa Helena na fundação do PSOL, ele permanecia dentro do partido, organizando caravanas em Curitiba para denunciar a prisão de Lula como injusta e irregular.

É uma linha editorial que a própria trajetória documentada de Quaquá sustenta: Quaquá é um dos raros quadros do PT no Rio de Janeiro descrito por pesquisadores como capaz de negociar tanto com a corrente majoritária do partido quanto de construir, de forma mais autônoma, um projeto próprio com crescimento na Baixada Fluminense um capital político construído justamente nos anos em que o partido enfrentava o deserto eleitoral pós-Lava Jato.

Quaquá reivindica, ainda no vídeo, a fundação do diretório do PT em Maricá “desde que nasci na favela”, grava ao lado da mãe que também presidiu o partido na cidade e classifica a si mesmo como “pato velho” diante de uma nova geração de dirigentes que, na sua leitura, discute legitimidade partidária sem ter atravessado os anos mais duros da sigla.

Olavo Brandão rebate: “Você já saiu do PT”

A réplica mais contundente, porém, partiu de dentro da própria estrutura formal do partido. Olavo Brandão Carneiro, secretário de formação política do PT-RJ e um dos nomes de maior trânsito na Articulação de Esquerda corrente que historicamente disputa espaço com o campo político de Quaquá , rebateu ponto a ponto.

Chamou atenção para a foto do prefeito de Maricá ao lado do general Eduardo Pazuello, ex-ministro da Saúde do governo Bolsonaro, episódio que gerou explícita repercussão negativa dentro do PT, com a então presidente nacional do partido, Gleisi Hoffmann, declarando publicamente que “na vida e na política, tudo tem limites”. Brandão também recuperou a defesa pública que Quaquá fez da família Brazão episódio em que o prefeito de Maricá chegou a afirmar publicamente não haver sequer uma prova contra os irmãos Domingos e Chiquinho Brazão, apesar da repercussão judicial em torno do caso.

Segundo Olavo Brandão, essa sequência de posicionamentos da aproximação com Pazuello à defesa dos Brazão, passando por apoios a nomes identificados com o campo bolsonarista no Rio configuraria um afastamento simbólico do prefeito em relação ao ideário histórico do PT, ainda que ele nunca tenha formalmente deixado a legenda.

O que pesa a favor de Quaquá: tempo de casa e resultado nas urnas

É nesse ponto que a disputa interna do PT-RJ revela sua assimetria mais evidente. Freixo migrou do PSOL para o PT relativamente há pouco tempo, na esteira da aliança que sustentou sua candidatura ao governo do Rio em 2022. Lindbergh, por sua vez, foi um dos que, segundo o próprio relato de Quaquá, cogitou romper com o partido no início dos anos 2000 para acompanhar a fundação do PSOL rompimento que, mesmo não tendo se concretizado, ficou registrado na memória política de quem permaneceu.

Quaquá, ao contrário, filiou-se ao PT ainda jovem, fundou o diretório do partido em Maricá e conduziu dois mandatos como prefeito do município entre 2009 e 2017, período em que implementou em 2014 o transporte público gratuito na cidade, financiado com recursos de royalties do petróleo, tornando Maricá o primeiro município brasileiro com mais de 100 mil habitantes a adotar um programa de tarifa .

É esse lastro de gestão concreta somado à condição de vice-presidente nacional do partido e ao fato de Maricá ter se tornado, nos anos seguintes, uma das administrações petistas mais robustas do país que Quaquá usa como escudo diante das críticas: quem construiu uma estrutura partidária do zero, argumenta, tem mais legitimidade para permanecer nela do que quem chega de fora ou ameaça sair dela.

A leitura que a militância mais próxima de Quaquá faz do episódio é direta: é sempre mais fácil, para quem se incomoda com o estilo de fazer política do prefeito de Maricá, deixar o partido do que desalojar quem ajudou a erguer a própria casa. Enquanto o PT-RJ discutia sobrevivência eleitoral em anos de travessia difícil, foi o pragmatismo de Quaquá, capaz de dialogar inclusive com adversários históricos, que garantiu ao partido caixa de resistência, capilaridade e uma das raras prefeituras de peso mantidas sob a sigla no estado.

O que ainda não está confirmado

A TVC apura se a disputa pelo número 1313 terá desdobramento formal dentro da Executiva estadual do PT, e se o episódio provocará algum tipo de mediação da direção nacional do partido, já em pleno período de organização da campanha de reeleição de Lula no Rio de Janeiro.

Até o fechamento desta reportagem, nem Freixo, nem Lindbergh, nem a direção estadual do PT haviam se manifestado formalmente além dos vídeos publicados nas redes sociais.