Ausência que fala mais alto: Paes evita Garotinho e debate expõe patrimônio de R$ 189 mil contra acusações de mansão, BTG e cemitérios…

Por Ricardo Cantarelle

Havia uma cadeira vazia no palco da Band na noite deste domingo (09). Eduardo Paes, pré-candidato do PSD ao governo do estado e líder nas pesquisas, havia confirmado presença até o fim da tarde de sexta-feira. Poucas horas depois, recuou.

A justificativa oficial, divulgada pela coordenação de campanha, invocou o calendário eleitoral: o período de campanha só começa oficialmente no dia 16, e o departamento jurídico da coligação teria orientado o candidato a não participar de debates antes da confirmação dos registros pela Justiça Eleitoral.

O Grupo Bandeirantes lamentou publicamente a decisão e manteve o encontro com os demais candidatos, em nome do que chamou de respeito ao eleitor.

A ausência, no entanto, não passou em silêncio. E o adversário que mais tinha a dizer sobre ela, Anthony Garotinho, do Republicanos, não perdeu a oportunidade de transformar a cadeira vazia em argumento de campanha.

“Deixa ele vir. Pode vir quente. Eu estou perdendo”, provocou Garotinho, ainda no palco, antes de emendar a leitura que fará da ausência de Paes ao longo da corrida eleitoral. “Acho que ele vai fugir do debate. Porque tem coisas que não tem como ele responder”, afirmou, citando de imediato a declaração de bens do adversário.

O ponto factual aqui é conhecido e já confirmado por documento público: Eduardo Paes declarou à Justiça Eleitoral, para 2026, patrimônio de aproximadamente R$ 189 mil, valor pouco maior que o declarado em 2024. A declaração inclui um Volkswagen Tiguan avaliado em R$ 150 mil, previdência privada de R$ 32 mil e pouco mais de R$ 6 mil distribuídos em contas correntes. É sobre esse contraste, entre o número declarado e o padrão de vida que atribui ao adversário, que Garotinho constrói sua ofensiva.

A tese do padrão de vida incompatível.

Segundo Garotinho, o prefeito tem “dois filhos estudando em Nova Iorque” e mora “em uma mansão em São Conrado”.

Nenhuma das duas afirmações consta, até o momento, de documentação apresentada por Garotinho ou de registro público que a TVC tenha localizado e confirmado de forma independente. Sobre os estudos dos filhos no exterior existe, isso sim, reportagem publicada pela Folha de S.Paulo em 2018, à época informando que as duas crianças estudavam na Avenues, escola particular em Nova York, com mensalidade anual estimada em US$ 45 mil por aluno, e que Paes teria dito a amigos que parentes custeavam as despesas.

O que a reportagem de 2018 não resolve, e que segue como pergunta em aberto, é quem exatamente pagou, quanto foi pago e como essa informação se compara à situação patrimonial que o próprio Paes declarava à Justiça Eleitoral naquele período.

Já a existência do imóvel em São Conrado, seu valor, forma de aquisição e titularidade permanecem, por ora, no campo da afirmação de Garotinho, sem lastro documental apresentado publicamente.

O nome que Garotinho repete: BTG e o irmão do prefeito.

A parte mais dura do ataque de Garotinho recai sobre a relação entre a Prefeitura do Rio e o BTG Pactual, banco em que Guilherme Paes, irmão de Eduardo Paes, ocupa posição de sócio e executivo. “Como é que ele explica um esquema que foi montado no Rio de Janeiro para dar tudo para o BTG, sabendo que o irmão dele é o segundo acionista do BTG? O dono é o André Esteves e o segundo é o Guilherme Paes”, disparou Garotinho, citando nominalmente a concessão dos cemitérios, o contrato do Jaé e a antiga Vila Olímpica como exemplos do que chamou de entrega de ativos públicos ao grupo financeiro.

Essa é, até aqui, uma tese política, não uma conclusão documentada. O que existe de concreto é que Guilherme Paes e o BTG Pactual, junto com André Esteves, recorreram à Justiça contra declarações anteriores de Garotinho sobre o tema, e que houve decisões judiciais determinando a retirada de conteúdos publicados por ele. Ou seja, a acusação já deixou o terreno estritamente político e passou a produzir disputa judicial real, o que reforça a necessidade de apuração documental, mas não confirma, por si só, a existência de irregularidade.

Sobre a concessão dos cemitérios especificamente, Garotinho foi direto: “Entregou para duas empresas, uma do Anjo da Morte, que é o dono da Rio Pax, e a outra é da Reviver. Todo mundo sabe que foi um negócio intermediado pelo BTG Pactual, cujo um dos donos é o irmão dele.”

A operação, batizada por Garotinho de “licitação da morte”, ainda carece de confronto com o edital, o contrato de concessão e a composição societária das empresas envolvidas para que qualquer afirmação de direcionamento ou favorecimento possa ser sustentada com rigor.

Consignado e Banco Master, a frente menos explorada no debate

Fora do palco, mas presente no conjunto de acusações que Garotinho vem construindo contra Paes, está a mudança nas regras do crédito consignado dos servidores municipais promovida pela Prefeitura em 2023.

A pergunta que resta responder documentalmente é se a alteração, ao ampliar o espaço para cartões consignados, abriu caminho especialmente favorável à entrada do Banco Master nesse mercado, e se há qualquer relação entre esse movimento e os mesmos agentes citados na questão dos cemitérios. Não há, até o momento, prova de que a medida tenha sido desenhada com essa finalidade.

O que fica da noite de ausência

TVC entende que o dado mais concreto da noite não está nas acusações em si, ainda pendentes de comprovação documental, mas na decisão do próprio Paes de não comparecer depois de ter confirmado presença.

Ao eleitor fluminense, que segundo as pesquisas já aponta Paes como favorito à disputa pelo Palácio Guanabara, foi retirado o direito de ver o candidato responder, ao vivo, às perguntas que Garotinho prometia fazer.

Ausência que, em campanha, raramente é lida como gesto neutro. Fica no ar o ditado que Garotinho fez questão de sugerir sem precisar dizer com todas as letras: quem não deve, não teme.

A TVC solicita manifestação de Eduardo Paes e de sua coordenação de campanha sobre cada um dos pontos levantados por Garotinho, em especial sobre a concessão dos cemitérios, a relação com o BTG Pactual e a situação patrimonial declarada.

O espaço permanece aberto para publicação da resposta assim que houver retorno….