JUIZ AFASTADO POR BEBER EM AUDIÊNCIA GRAVA VÍDEO E CHAMA MORAES, STF E TODA A CÚPULA DO TJMG DE “CORRUPTOS”

Por Ricardo Cantarelle

Bermuda, garrafa de vinho no gargalo, maçarico aceso para o cigarro e, um dia depois, a câmera do celular ligada para acertar contas com o próprio tribunal que o formou. A cronologia de 48 horas que atropelou a carreira de 36 anos do desembargador auxiliar Milton Lívio Lemos Salles tem o ritmo de um daqueles episódios que o Judiciário brasileiro gostaria de não precisar explicar em público. Mas vai precisar.

Na segunda-feira (10), durante uma sessão virtual do 4º Núcleo de Justiça 4.0 Cível Família, do Tribunal de Justiça de Minas Gerais, câmeras registraram Salles bebendo diretamente do gargalo de uma garrafa de vinho e, minutos depois, acendendo um cigarro com um maçarico tudo enquanto o julgamento de processos ainda corria na tela. A pauta, de 15 processos, foi interrompida.

As imagens, cedidas pela Record Minas, correram as redações antes mesmo de o tribunal se pronunciar.

A resposta institucional veio rápido, para os padrões da Justiça. Nesta terça-feira (11), o corregedor-geral de Justiça de Minas Gerais, desembargador Raimundo Messias Júnior, determinou o afastamento imediato de Salles, decisão que agora segue para apreciação do Órgão Especial do TJMG.

Paralelamente, a Corregedoria abriu sindicância para apurar as circunstâncias do episódio e a eventual responsabilidade funcional do magistrado. Os processos sob sua relatoria foram redistribuídos; um juiz de primeiro grau foi convocado para substituí-lo. A OAB-MG, além de endossar publicamente o afastamento cautelar, protocolou reclamação disciplinar no CNJ pedindo a abertura de Processo Administrativo Disciplinar.

Foi nesse intervalo entre a repercussão do vídeo e o anúncio do afastamento que Salles decidiu não recuar, e sim atacar.

“São todos uns corruptos”: o vídeo-resposta

Gravado, segundo o próprio magistrado relata, no Rio de Janeiro “tomando meu café e curtindo minha mulher” , o segundo vídeo tem o tom de quem já sabe que não tem mais nada a perder.

Salles se apresenta pelo nome completo, reivindica os 36 anos de magistratura e classifica a repercussão do episódio anterior como “difamação”. Em seguida, mira o topo da estrutura que o afastou: “Esse Tribunal de Justiça de Minas Gerais, esse STJ, o STF, o Alexandre de Moraes, são todos uns corruptos. Falo isso com conhecimento de causa.”

Ele cita nominalmente colegas de cúpula do tribunal mineiro o atual presidente, desembargador Vicente de Oliveira Silva, e os ex-presidentes Luiz Carlos de Azevedo Corrêa Júnior, Gilson Soares Lemes e Nelson Missias de Morais atribuindo-lhes conhecimento de “corrupção” sem, em nenhum momento da gravação, apresentar documento, número de processo ou qualquer elemento que sustente a acusação.

É a mesma lacuna que marca a menção que faz à compra de 179 SUVs híbridos Toyota Corolla Cross pelo TJMG, negócio de R$ 38,48 milhões fechado em 2025 por licitação regular: Salles insinua irregularidade, mas não apresenta prova.

A afirmação de que existe corrupção nesses episódios é, até aqui, palavra de um magistrado sob apuração contra a própria corte que o investiga e a TVC a trata como isso: uma acusação grave, não confirmada, feita por quem tem interesse direto no desfecho do processo que sofre.

Na sequência, Salles amplia o alvo para a estrutura física da própria Justiça: “O tribunal não existe hoje, só existe computador e os prédios vazios custando luz, energia e funcionários.” Encerra em tom de desafio, oferecendo-se para debater “em alguma TV, no Jornal Nacional, o que seja”.

Quem é o juiz por trás da bermuda e do maçarico.

Milton Lívio Lemos Salles não é um nome anônimo na magistratura mineira. É filho do desembargador aposentado Tibagy Salles de Oliveira, que presidiu o extinto Tribunal de Alçada de Minas Gerais antes de suas competências serem incorporadas ao TJMG.

Na carreira, soma decisões de peso: condenou em 2010 o chamado “maníaco dos dentistas” a 82 anos de prisão por uma sequência de roubos e estupros em Belo Horizonte; em 2022, sentenciou o ex-presidente da Câmara Municipal de BH, Wellington Magalhães, a mais de 31 anos por lavagem de dinheiro e obstrução à Justiça; em 2023, tornou réu por estupro de vulnerável um pastor evangélico que coordenava um fórum estadual de enfrentamento à violência sexual infantil, classificando-o como “astuto e perigoso”.

Mais recentemente, em 2024, absolveu por reconhecimento de doença mental do acusado um homem que perseguia e ameaçava a jornalista Mônica Fonseca, da RecordTV Minas, determinando internação em hospital de custódia.

É esse currículo, de decisões duras e midiáticas, que agora contrasta com a imagem da garrafa no gargalo e do discurso gravado no litoral fluminense contra a própria toga.

O espaço que segue aberto

Procurados, STJ, STF, TJMG e os gabinetes de todos os desembargadores citados por Salles ainda não se manifestaram publicamente sobre as acusações pontuais feitas no vídeo.

A TVC apura os desdobramentos do caso o resultado da sindicância interna, a tramitação no Órgão Especial e o andamento da representação da OAB-MG no CNJ e mantém o espaço aberto para manifestação de todas as partes citadas.