“Eu falo a verdade”: guarda municipal denuncia perseguição depois de criticar Eduardo Paes nas redes

Por Ricardo Cantarelle

Tem vídeo que se grava com roteiro, luz pensada, cenário organizado. E tem vídeo que se grava com a voz embolada de quem está com a ficha ainda quente, direto de dentro da própria indignação. O segundo tipo é mais raro e é exatamente o que uma guarda municipal publicou nas redes sociais depois de assistir a uma live de Eduardo Paes: catorze anos de farda, ela diz, e a paciência no fio.

Ela reage a um vídeo do próprio pré-candidato ao Governo do Rio, ainda no ar quando ela grava a resposta. “Veja esse vídeo aqui”, diz, antes de chamá-lo de mentiroso usando como prova o episódio mais folclórico da gestão dele à frente da Prefeitura carioca: o sumiço de peças da viga do extinto Elevado da Perimetral, um mistério que Paes tentou explicar em lives próprias ao longo dos anos e que nunca teve responsáveis identificados com precisão pelas autoridades.

“14 anos, você mentiu pra gente”

A fala dela mistura acusação política com relato de vida funcional e é aí que a matéria pede cuidado redobrado, porque uma coisa é o desabafo de quem viveu a rotina da corporação por catorze anos, outra é transformar esse desabafo em veredicto pronto.

A TVC registra o que ela diz, do jeito que ela diz, com a atribuição que o caso exige.

Segundo o relato da guarda, ela ingressou na corporação recebendo R$ 1.500 e, catorze anos depois, segue recebendo R$ 2.500 valor que, segundo ela, deveria ter sido corrigido por um plano de cargos e salários que a própria gestão aprovou, mas, na avaliação dela, nunca colocou em prática. Ela também afirma que a Prefeitura mudou a escala de trabalho da categoria depois de prometer que não mexeria nela outra promessa que, segundo seu relato, não foi cumprida.

Sobre as obras e programas da gestão, ela é direta: diz que são “tudo superfaturado” e que “todo mundo sabe” uma afirmação que, do jeito que foi feita, é uma alegação pessoal dela, sem documento ou processo específico citado no vídeo. A TVC segue apurando se há inquérito, ação do Tribunal de Contas ou notícia-crime formalizada relacionada a esse ponto; até lá, a frase entra na matéria como o que é: a visão dela, não um fato estabelecido pela reportagem.

A denúncia de perseguição

O trecho mais grave do vídeo é o que ela descreve como retaliação direta. Segundo seu relato, desde que passou a criticar Eduardo Paes publicamente nas redes sociais, ela vem sendo alvo de um processo administrativo disciplinar dentro da própria Guarda Municipal processo que, segundo ela, tem como objetivo afastá-la da corporação.

Ela nomeia dois nomes nesse contexto: o vereador Flávio Vale, que segundo ela teria sido eleito com apoio de Eduardo Paes, e o Coronel Eider, identificado por ela como gerente da Subop (Subsecretaria de Ordem Pública). Segundo a guarda, ambos são citados no seu processo administrativo, motivado na versão dela pelas críticas que publicou contra os dois em suas redes sociais.

São acusações sérias, e a TVC trata como tal: a reportagem procura o vereador Flávio Vale e o Coronel Eider para que se manifestem sobre o relato da guarda municipal e sobre a existência e o conteúdo do processo administrativo disciplinar mencionado por ela. Este espaço permanece aberto para a manifestação de ambos, que será incorporada à matéria assim que houver retorno.

O fio comum com o primeiro alerta

O relato dela conversa diretamente com o vídeo de outro guarda municipal, já registrado pela TVC, que também usou as redes para pedir que a população “aprenda a votar” antes de escolher quem administra saúde, educação e segurança do município nos próximos quatro anos. Lá, o argumento era estrutural proporção de médicos por paciente, de guardas por habitante.

Aqui, o argumento é pessoal salário, escala, processo disciplinar. Mas o pano de fundo é o mesmo: servidores da ponta, que vivem o dia a dia da máquina pública, decidindo romper o silêncio institucional às vésperas de uma eleição que pode levar o mesmo grupo político da Prefeitura ao Palácio Guanabara.

Não cabe à TVC validar ou invalidar o que cada um desses servidores viveu por dentro da própria corporação cabe registrar, com nome, cargo e atribuição clara de cada frase, e cobrar dos citados o direito de resposta que a lei e o jornalismo sério garantem. É isso que segue em apuração.

Nota da redação: as falas atribuídas à guarda municipal são de sua exclusiva responsabilidade e estão transcritas conforme veiculadas por ela em vídeo publicado nas redes sociais.