Do líder revolucionário ao ruído: Fabiano Horta rebate Quaquá e reabre a guerra pelo Fundo Soberano

Por Ricardo Cantarelle

Há uma frase que separa duas versões da história recente de Maricá. Ela foi dita na noite desta quarta-feira (2), em entrevista ao canal LSM.

Fabiano Horta, prefeito da cidade entre 2017 e 2024, resumiu:

“DE VEZ EM QUANDO TEM UM RUÍDO EM MARICÁ SOBRE BANCO MASTER. NUNCA EXISTIU, O PREFEITO NUNCA CONVERSOU A RESPEITO DISSO, NUNCA TRATOU A RESPEITO DISSO.”

A declaração, reproduzida pelo Maricá Info nesta quinta (3), é a primeira resposta pública e direta às acusações de Washington Quaquá sobre uma suposta tentativa de direcionar R$ 2 bilhões do Fundo Soberano de Maricá ao Banco Master, hoje sob liquidação extrajudicial do Banco Central.

A TVC apurou que a fala de Fabiano responde a uma sequência de declarações de Quaquá que começou em janeiro, ganhou elementos documentais em maio, com a divulgação de mensagens apreendidas pela Polícia Federal no celular do banqueiro Daniel Vorcaro, e chegou, por enquanto, à acusação de que o ex-prefeito teria “acelerado” a operação.

A frase que Fabiano nega ter existido

Na entrevista ao LSM, Fabiano afirmou que, durante seus seis anos à frente da Prefeitura, os recursos do Fundo Soberano eram aplicados “por determinação do prefeito em bancos públicos, com aplicações de baixo risco”, na Caixa Econômica Federal e no Banco do Brasil, “para que a gente tivesse a garantia do recurso”.

A versão encontra respaldo parcial em documentos oficiais do Fundo, que historicamente registraram parte relevante do patrimônio aplicada em fundos de investimento operados por Caixa e Banco do Brasil.

Até o momento, a TVC não localizou ata, resolução ou relatório de investimento tornado público que mencione o Banco Master como destinatário de recursos do Fundo. A apuração continua sobre os documentos de 2024, incluindo atas, relatórios analíticos e a Resolução nº 38.

Três versões, um só Quaquá

A questão é que Fabiano não responde a uma única acusação, mas a três versões apresentadas por Quaquá em momentos diferentes.

Em 30 de janeiro deste ano, durante um evento em Maricá, Quaquá afirmou que “o malandro que veio de Brasília pra cá, Renato” estaria negociando colocar o Fundo Soberano no Banco Master.

“Os nossos dois bilhões iam pro Master, se a gente não intervém.”

Na fala reproduzida pelo Maricá Info e outros veículos, Quaquá não apresentou sobrenome para “Renato”. A TVC não localizou, até esta apuração, fonte primária que faça essa identificação de forma inequívoca.

Existe o deputado estadual Renato Machado, ex-presidente da SOMAR e aliado histórico de Fabiano Horta, cuja candidatura à Alerj em 2026 é alvo de impugnação no TRE-RJ. A TVC, porém, trata essa coincidência de nome como hipótese a ser investigada, não como identificação confirmada.

Em fevereiro, Quaquá havia atribuído uma tentativa semelhante a outro nome: Leonardo Decio Alves , ex-secretário de Planejamento de Maricá. Segundo o Diário do Rio, Quaquá afirmou que Alves teria “tentado colocar o Fundo Soberano de Maricá no Banco Master” e repetiu a cifra de R$ 2 bilhões.

A terceira versão surgiu quando o caso ganhou elemento documental.

Em 28 de maio, o Metrópoles revelou mensagens apreendidas pela Polícia Federal em que Daniel Vorcaro pergunta ao lobista Ricardo Siqueira Rodrigues:

“Aquele de Maricá travou?”

A mensagem é de 30 de julho de 2024. Rodrigues responde que estava “em campo contornando” a situação.

Segundo o Metrópoles, a PF classificou a movimentação como tentativa de captação de investimentos. A negociação não avançou a ponto de Maricá efetivamente aportar recursos no Banco Master.

No dia seguinte, 29 de maio, Quaquá deu sua declaração mais direta ao Metrópoles. Disse ter recebido alertas durante a transição de governo, no fim de 2024, e afirmou que:

“o prefeito anterior, Fabiano Horta (PT), estaria acelerando o acordo”.

É a única das três versões em que Fabiano aparece nominalmente como participante da suposta negociação.

O que os documentos confirmam e o que não confirmam

É preciso separar fato comprovado de declaração política.

As mensagens apreendidas pela PF documentam uma tentativa de aproximação entre o Banco Master e alguém em Maricá em julho de 2024. Também está documentado que o negócio não avançou até um aporte efetivo de recursos públicos municipais no banco.

Em 21 de agosto de 2024, três semanas depois das mensagens de Vorcaro e Rodrigues e ainda sob a gestão Fabiano Horta, foi sancionada a Lei Municipal nº 3.504, ampliando as modalidades de operações financeiras que o Fundo Soberano poderia realizar, incluindo aportes, empréstimos, capital de giro, microcrédito e financiamentos.

A proximidade das datas, porém, é apenas uma proximidade. A TVC não localizou documento que ligue diretamente a alteração legislativa à negociação com o Master.

Também não está documentado, até esta reportagem, quem dentro da Prefeitura ou da estrutura de governança do Fundo teria efetivamente conversado com o Master ou seus intermediários. Não há prova pública localizada pela TVC de que Fabiano tenha pessoalmente tratado do assunto, como ele nega. Tampouco há prova de que a negociação tenha ocorrido inteiramente à revelia da administração municipal.

Há ainda um dado posterior: em novembro de 2025, o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial do Banco Master. Se a negociação de 2024 tivesse avançado, recursos públicos municipais poderiam ter sido expostos a uma instituição que pouco mais de um ano depois deixou de operar normalmente.

O que ainda falta responder

A pergunta central da apuração da TVC é:

Se Fabiano Horta nunca tratou do Banco Master, como afirma, e se a negociação aparece nas mensagens apreendidas pela PF, quem, dentro da estrutura de governança do Fundo Soberano, chegou a conversar com o banco ou seus intermediários?

Quem era o interlocutor que fez o negócio “travar”, na expressão de Vorcaro?

E por que Quaquá, ao longo de 2026, atribuiu a mesma história a três personagens diferentes: um “Renato” não identificado, Leonardo Alves e, posteriormente, Fabiano Horta?

A TVC seguirá analisando as atas do Fundo Soberano de 2024, os relatórios analíticos de investimentos e a composição dos órgãos de governança da época.

O objetivo é transformar duas versões políticas que hoje se chocam publicamente em uma reconstrução documental dos fatos.