Aos 60 anos, o mineiro Luiz Aragão, morador de Taubaté (SP), concluiu uma jornada épica de 127 dias pelo Rio de Janeiro. Entre 1º de maio e o início de setembro, ele percorreu 2,2 mil quilômetros utilizando diferentes meios de transporte — caminhada, bicicleta e caiaque — com o objetivo de testar, na prática, o traçado da “Volta ao Rio”, uma supertrilha de 3,5 mil km que pretende integrar quase 100 unidades de conservação fluminenses.
Um teste de logística e resistência
O projeto da Volta ao Rio nasceu no papel, com base em mapas e planejamentos teóricos. A missão de Luiz foi transformar esse planejamento em realidade, verificando a viabilidade de hospedagem, alimentação, transporte e sinalização. Durante os quatro meses, ele registrou dados cruciais para futuros aventureiros, avaliando pontos de Wi-Fi, banheiros e a segurança dos percursos. Para ele, o maior desafio físico ocorreu nas subidas íngremes entre o Vale do Paraíba e a Serra da Mantiqueira, enquanto a navegação solitária por cinco dias em rios e sistemas lagunares exigiu um preparo emocional rigoroso.
A humanidade como surpresa da trilha
Para além dos números e da exaustão física, o que mais marcou Luiz foi a acolhida das pessoas. Temeroso sobre como seria recebido em áreas rurais e remotas, o voluntário foi surpreendido pela generosidade de desconhecidos. “Ao olhar nos olhos das pessoas mais simples, ao ver quem me abriu a porta de casa sem nem me conhecer, eu voltei a ter esperança”, relata. Essa experiência, segundo ele, mudou sua visão sobre o estado e reforçou seu otimismo em relação ao ser humano.
Trilhas como ferramenta de conservação
Luiz Aragão acredita que a “Volta ao Rio” vai muito além do esporte; ela é um poderoso instrumento de proteção ambiental. Ao percorrer áreas onde a presença humana era escassa, ele observou que o uso organizado das trilhas inibe ilícitos, como o desmatamento e a caça predatória. A proposta central do projeto é justamente criar corredores que conectem parques nacionais e estaduais, estimulando o ecoturismo e gerando renda para comunidades locais, que agora poderão atuar como rede de apoio aos visitantes.
O futuro da maior rede de trilhas do mundo
Com o fim da expedição, os dados coletados por Luiz serão organizados para orientar os próximos passos da infraestrutura, que envolve desde o aprimoramento da sinalização até a articulação com prefeituras e gestores de unidades de conservação. A meta é transformar a Volta ao Rio em uma política pública reconhecida, conectando os 92 municípios do estado. Para quem deseja se aventurar, a dica do experiente trilheiro é começar com percursos curtos, de um ou dois dias, sempre respeitando os limites físicos e as normas de preservação da natureza.