Por Ricardo Cantarelle
Bilhões de reais em arrecadação, um centro de hemodiálise novo em folha com as portas fechadas e uma emergência que voltou a virar sinônimo de espera e superlotação. É esse o retrato da saúde pública de Maricá que os números orçamentários da Prefeitura insistem em desmentir e que a rotina dos pacientes, dia após dia, confirma.
O caso mais gritante é o do Centro de Hemodiálise do Hospital Municipal Dr. Ernesto Che Guevara, batizado em homenagem a Ronete de Souza Dias, a “Nete da Mumbuca”. A estrutura foi inaugurada com pompa em 26 de maio, com direito a fita cortada, discurso do prefeito Washington Quaquá sobre acabar com o sofrimento dos pacientes renais e declaração do secretário de Saúde, Dr. Marcelo Velho, celebrando a entrega.
Mais de três meses depois, o centro segue sem atender um único paciente. Segundo apurado pela TVC, a unidade aguarda liberação da Vigilância Sanitária Estadual para começar a funcionar, sem que a Prefeitura ou a Secretaria de Saúde tenham apresentado qualquer previsão de data para a resolução do problema.
Enquanto isso, cerca de 150 pacientes renais crônicos de Maricá continuam tendo que se deslocar diariamente para Niterói, São Gonçalo e Itaboraí para realizar o tratamento muitos saindo de casa ainda de madrugada e voltando só ao meio-dia, sem alimentação adequada no trajeto, segundo relatos colhidos por veículos locais.
A cena contrasta com a promessa feita pela própria gestão em fevereiro de 2025, quando o Executivo anunciou que “nenhum morador de Maricá” precisaria mais sair da cidade para fazer hemodiálise.
O vereador Chiquinho (PL) chegou a cobrar publicamente esclarecimentos sobre a origem dos equipamentos instalados no centro, questionando se foram alugados ou comprados com recursos do município dúvida que, segundo apurado, segue sem resposta formal da Prefeitura.
A crise na alta complexidade tem correspondência direta na porta de entrada da rede municipal. O Hospital Municipal Conde Modesto Leal, único equipamento de urgência e emergência 24 horas do Centro de Maricá, voltou a registrar cenas de superlotação neste ano, com pacientes relatando horas de espera mesmo após a triagem inicial. A própria Secretaria de Saúde, procurada por veículos locais em episódios anteriores, chegou a reconhecer tempos de espera de cerca de uma hora para casos não urgentes número que moradores contestam nos relatos que chegam à imprensa e aos gabinetes da Câmara.
É nesse cenário que a atuação do secretário de Saúde, Dr. Marcelo Velho, passou a ser questionada de forma cada vez mais direta pela Câmara Municipal. Em audiência pública sobre a pasta, o vereador Chiquinho (PL), integrante da Comissão de Saúde, levou ao plenário uma mala de viagem com mais de mil denúncias de usuários do SUS municipal da falta de dipirona em unidade hospitalar à carência de cerca de 22 tipos de medicamentos nos postos de saúde, passando pela falta de insulina e fitas para pacientes diabéticos. Diante do secretário, Chiquinho resumiu o momento como um pedido de socorro da população. Marcelo Velho reconheceu falhas pontuais na ocasião, atribuindo parte dos problemas a questões técnicas e a responsabilidades de outras esferas de governo.
Não foi a primeira vez que o parlamentar apontou o dedo diretamente para a gestão do secretário. Em sessão anterior na Câmara, ao relatar a falta de estrutura básica em postos de saúde de bairros como Retiro, Itamambuca e Itaipuaçu de curativo sem material a geladeira de vacina quebrada , Chiquinho classificou a atuação de Marcelo Velho à frente da pasta como um gesto profissional “péssimo”, cobrando providências diretas do prefeito Quaquá.
O vereador também já protocolou indicações na Câmara pedindo a ampliação do Conde Modesto Leal e denunciou possíveis contratações irregulares de agentes comunitários de saúde sem processo seletivo, prometendo levar o caso ao Ministério Público.
A soma dessas denúncias hemodiálise parada, emergência lotada, postos sem insumo básico expõe uma distância entre o discurso oficial de investimento recorde na saúde e o que, segundo vereadores da oposição e moradores, a população efetivamente encontra na ponta do atendimento. Maricá arrecada o que poucas cidades do país arrecadam; o que falta não é dinheiro em caixa, é entrega. E enquanto a Vigilância Sanitária não libera um centro pronto há mais de três meses, quem paga a conta do atraso é o paciente renal que continua na estrada às quatro da manhã, rumo a Niterói.
A TVC apura se há previsão concreta, por parte do governo Quaquá, para a liberação sanitária do centro de hemodiálise e para as medidas estruturais cobradas por Chiquinho e Netuno na Câmara, e segue à disposição da Secretaria Municipal de Saúde e do secretário Marcelo Velho para publicar seu posicionamento sobre os pontos levantados nesta reportagem.