Em vídeo na reta final do segundo turno, o prefeito liga o voto presidencial ao futuro da Zona de Processamento de Exportação (ZPE), do aeroporto e das obras do PAC. Os números do primeiro turno mostram Flávio Bolsonaro à frente de Lula e Douglas Ruas à frente de Eduardo Paes na cidade.
A TVC analisa o que o recado revela: defesa de projetos, cálculo eleitoral ou os dois.
Por Ricardo Cantarelle
Há vídeos que informam e há vídeos que revelam. O que o prefeito de Maricá, Washington Quaquá (PT), publicou na reta final do segundo turno tem os dois ingredientes. Em menos de dois minutos, ele pede voto em Lula e transforma o domingo de urnas numa escolha de destino para a cidade. “Seu voto tem consequências em Maricá”, avisa. E arremata: “Você, domingo, vai escolher se você quer que Maricá fique isolada ou se quer que Maricá vire uma grande economia.”
A pergunta que a TVC faz é simples: por que esse alerta, e por que agora?
Os números que rondam o recado
A resposta começa nas urnas. Segundo dados do TSE do primeiro turno, Flávio Bolsonaro (PL) recebeu 69.193 votos em Maricá, 49,82% dos válidos, contra 59.972 de Lula, 43,18%. Na disputa estadual, Douglas Ruas (PL) teve 63.771 votos, 49,69%, e Eduardo Paes (PSD), 52.690, 41,06%. São números do município. No estado, Ruas foi eleito no primeiro turno depois que a Justiça Eleitoral anulou os votos de Garotinho, o que o levou a 50,88% dos válidos.
Quaquá sabe ler esse quadro. Tanto que, no vídeo, diz que o povo de Maricá “escolheu majoritariamente um candidato a governador”. Não diz o nome. Os números dizem. O mesmo prefeito que havia apoiado Paes contra Ruas na campanha agora pede que a cidade não repita, no plano nacional, o gesto que fez no estadual.
Governa de um jeito, vota de outro?
A conta tem um peso político evidente. Maricá é governada pelo PT desde 2009, há quase 18 anos. Depois de quase duas décadas de hegemonia administrativa, as duas principais urnas de outubro foram para o outro lado.
É preciso, porém, ler com cuidado. Voto presidencial não é plebiscito sobre o prefeito. Na mesma urna, o petista Fabiano Horta foi o mais votado para deputado federal na cidade, e candidatos do PT tiveram votações expressivas na disputa proporcional.
Há ainda a série histórica, que a TVC confere junto ao TSE.
Segundo levantamento em confirmação, Jair Bolsonaro teria obtido 57,59% em 2018 e 47,79% em 2022 em Maricá, contra os 49,82% de Flávio agora. Se a série se confirmar, o dado sugere menos um terremoto e mais uma cidade que há anos vota de forma diferente conforme o cargo em disputa. Quem decreta rejeição ao PT em Maricá, ou aprovação ao prefeito, vai além dos números.
O que o vídeo promete e o que ele não diz
O vídeo cita a Zona de Processamento de Exportação, a internacionalização do aeroporto, projetos no PAC e a relação com a Petrobras e as empresas públicas federais. O próprio verbo do prefeito é revelador. Maricá está “lutando para criar” a ZPE e “vamos com processos de internacionalização” do aeroporto. Ou seja, são projetos em construção, não entregas.
Há um ponto legítimo no argumento. Pela legislação, a criação de uma ZPE passa pela análise do Conselho Nacional das ZPEs e depende de decisão do Presidente da República. Em casos assim, a relação com Brasília pesa de verdade.
Mas o vídeo não informa em que etapa estão os projetos, quais prazos, quais valores, quais já têm obra e quais dependem de autorização ou recurso. E nada, nos elementos disponíveis para esta análise, demonstra que uma troca no Planalto interromperia essas iniciativas.
O que existe é um temor político: legítimo como argumento, mas não comprovado como fato. A dicotomia entre “isolada” e “grande economia” é eficiente como peça de campanha, mas simplifica uma realidade em que decisões dependem de recursos, licenças, calendário e negociação.
O recado do outro lado
Do lado da oposição, o governador eleito Douglas Ruas (PL) participou de uma motociata em Itaipuaçu, em 18 de outubro, reforçando a ligação entre sua vitória e a candidatura de Flávio.
Do outro lado, o recado também veio em vídeo. Em publicação nas suas redes sociais, que integra esta reportagem, o governador eleito Douglas Ruas (PL) agradece a votação recebida em Maricá, pede voto em Flávio Bolsonaro no segundo turno e defende que a mudança política chegue ao município em 2028.
A fala mostra que a oposição já olha para além da disputa presidencial e mira a eleição municipal seguinte. Ainda assim, é discurso de oposição: não é prova de retaliação contra a cidade nem de interrupção de projetos.
O desafio de Quaquá
Quaquá é político experiente e conhece o valor da articulação entre os três níveis de governo. O vídeo pode ser lido, ao mesmo tempo, como mobilização em defesa dos projetos da cidade e como esforço para preservar a influência do grupo que governa Maricá desde 2009. As duas leituras não se excluem.
Há um dado que dá peso extra ao desafio. Independentemente de quem vença no dia 25, Ruas tem posse marcada para 6 de janeiro de 2027. Maricá terá, de qualquer forma, um governador de oposição, e o prefeito precisará demonstrar que sua administração dialoga com forças políticas diferentes e transforma anúncios em entregas concretas.
O desafio não é só eleitoral: passa pela confiança das comunidades e pela capacidade de mostrar resultado. Quanto ao tamanho das resistências ao prefeito, os dados reunidos não incluem pesquisa que permita medi-las, e a TVC não trabalha com percentuais que não possa sustentar.
A pergunta que fica
Maricá está diante de uma mudança duradoura no comportamento eleitoral, ou os números de outubro refletem uma conjuntura que só as próximas disputas vão confirmar? O alerta de Quaquá mostra que o prefeito levou a sério a primeira hipótese.
A resposta virá das urnas, as de domingo e, sobretudo, as de 2028.