A Polícia Federal concluiu, nesta terça-feira (3), que não havia qualquer presença de entorpecentes em um carregamento de 260 toneladas de madeira, interceptado na fronteira com a Bolívia. O caso, que foi celebrado em junho como uma apreensão histórica, tornou-se agora objeto de um inquérito policial para apurar falhas operacionais e a possível comunicação falsa de crime.
A origem do erro: testes rápidos sob suspeita
A operação, batizada de Timber Shield, foi desencadeada após informações compartilhadas pelo DEA, a agência antidrogas dos Estados Unidos. A suspeita era de que a madeira estivesse contaminada com cocaína líquida, técnica similar à utilizada em uma apreensão recente no Chile. Na ocasião, narcotestes preliminares realizados pela Receita Federal em Corumbá (MS) e Cáceres (MT) apontaram positivo para substâncias ilícitas, o que levou ao anúncio imediato da apreensão recorde pelas autoridades.
Laudo pericial desmente resultados preliminares
Após cerca de um mês de alarde, a perícia técnica do Instituto de Criminalística da Polícia Federal realizou uma inspeção minuciosa. Utilizando motosserras e furadeiras, os peritos retiraram amostras de nove pontos diferentes da carga para análises laboratoriais. O laudo foi taxativo: todos os resultados deram negativo para cocaína. Além disso, cães farejadores treinados também inspecionaram o material e não detectaram qualquer sinal de drogas.
Posicionamento da Receita Federal
Em nota, a Receita Federal defendeu a lisura da operação, afirmando que seguiu protocolos internacionais de fiscalização. O órgão destacou que os testes de campo realizados por seus técnicos, e corroborados por autoridades bolivianas, indicaram a presença de drogas no momento da abordagem. A Receita ressaltou que, enquanto as perícias em Cáceres foram encerradas, os trabalhos em Corumbá permanecem em aberto sob supervisão do Ministério Público Federal.
Consequências legais e crise institucional
O caso gerou um nítido mal-estar entre a Polícia Federal e a Receita Federal. O inquérito instaurado pela PF busca agora identificar se houve erro humano, falha na qualidade dos reagentes químicos utilizados na triagem ou uma falha grave na inteligência que originou a denúncia. A investigação pretende esclarecer como um falso positivo pôde ser validado como uma apreensão histórica, impactando a credibilidade das ações de fiscalização nas fronteiras brasileiras.