Um dia depois de Quaquá dizer à TVC que “não existe expulsão por divergência de opinião”, integrante da direção nacional do PT fala em regimento e devido processo legal.
Por Ricardo Cantarelle
Dois dias, duas falas, uma mesma direção.
Na terça-feira (3), o prefeito de Maricá e vice-presidente nacional do PT, Washington Quaquá, disse à TVC que “o PT é um partido democrático” e que “não existe expulsão por divergência de opinião”.
Perguntado se continuava firme na posição de que não há a menor chance de Edinho Silva ter o apoio de Lula para expulsá-lo, respondeu com uma palavra: “Obviamente”.
Quando a TVC apontou que ele poderia se firmar como segunda maior liderança do partido, rebateu: “Esse é o medo dele”, em aparente referência a Edinho.
Na quarta (4), foi a vez de um nome da própria cúpula.
Em entrevista em vídeo que circula nas redes, o secretário nacional de Comunicação, Éden Valadares, afirmou que o PT “não tem processo de expurgar ninguém”, nem mesmo por solicitação de Lula.
Falou em estatuto, regimento, instâncias, em devido processo legal e direito ao contraditório. Disse que punição não se faz por acusação via imprensa e que o partido não vive processo inquisitório nem de perseguição.
O que há, na avaliação dele, é tensionamento e disputa política.
A leitura das entrelinhas
Quando um dirigente nacional vai a público dizer que não existe expurgo, nem a pedido do presidente da República, o recado tem destinatário. A leitura da TVC é a de que o partido aperta o freio.
E a pergunta que se impõe é quem mandou o recado, e se ele passou por Lula. A TVC apura.
A manifestação acontece depois de Quaquá anunciar que procuraria Lula para conversar sobre as declarações de Edinho. A TVC não dispõe de elementos para afirmar que a entrevista tenha sido orientada pelo presidente, mas a proximidade dos acontecimentos merece atenção.
É preciso marcar o limite da fala: Valadares não é o presidente do partido, não falou por Edinho e não disse se Lula pediu afastamentos.
Até agora, a TVC não localizou processo formal contra Quaquá.
O peso de quem está na mira
Quaquá não é um filiado qualquer. Maricá, laboratório do PT segundo a imprensa nacional, implantou o Tarifa Zero e a moeda social Mumbuca a partir de 2013. Segundo registros da própria prefeitura, a Mumbuca inspirou a moeda Arariboia, de Niterói, e a Itajuru, de Cabo Frio, e o modelo do transporte gratuito foi levado a outros municípios.
Em 2025, uma comitiva de países africanos foi à cidade conhecer os programas.
A conta política, na leitura da TVC e não de qualquer dirigente, é dura: entre perder um vice-presidente nacional com essa vitrine e conviver com críticos internos, o partido tende a pensar duas vezes antes de apostar no afastamento de quem tem projeto, voto e história.
A história ainda não acabou
A sequência dos acontecimentos deixa uma pergunta no ar: a manifestação de Éden Valadares foi uma iniciativa individual ou uma sinalização da direção nacional após a repercussão do conflito e a possibilidade de uma conversa entre Quaquá e Lula? Não há elementos para afirmar que tenha partido do presidente, mas a coincidência dos acontecimentos merece atenção.
A história, porém, não acabou. Quando a última página for virada, saberemos se o PT seguirá com as mesmas diretrizes ou se elas serão alteradas diante de uma nova realidade política, na qual Quaquá poderá ser personagem de destaque e influenciar os rumos da própria legenda.