No alto do Monte das Oliveiras, em Maricá, o prefeito Quaquá apresenta mais um projeto classificado como futurístico.
Ao seu lado, o deputado federal Otoni de Paula é apresentado como liderança evangélica, homem de Deus e parceiro na construção de uma cidade “cada vez mais de Cristo”. O cenário é solene, o discurso é manso e a narrativa cuidadosamente construída. É ali que nasce a chamada Arca do Quaquá.
Mas toda arca escolhe quem entra e, principalmente, o que fica do lado de fora.
No vídeo gravado em Maricá, o público conhece apenas uma face do deputado. A face do pastor que abençoa, do aliado que valida o projeto e do representante religioso que legitima a iniciativa com palavras de fé.
Nenhuma outra informação acompanha a cena. Nenhum contexto. Nenhuma lembrança recente.
Só que os registros públicos contam outra história.
Em vídeo amplamente divulgado e gravado na tribuna da Câmara dos Deputados, o mesmo Otoni de Paula aparece em tom completamente oposto.
Ali, ele chama o então ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva de “ladrão” e “vagabundo”, acusa sindicalistas de ameaçar sua família e afirma, de forma literal, que no Rio de Janeiro “bandido se trata na bala”. A fala é agressiva, direta e não deixa espaço para interpretação simbólica. Está gravada. Está documentada.
O tempo passa. O cenário político muda. E surge um novo vídeo.
Após a vitória de Lula nas eleições, o deputado reaparece, agora em postura serena, fazendo uma oração pública pelo presidente. Pede bênçãos para sua saúde, sua família e seu governo. Afirma que a igreja não é de direita nem de esquerda e que abençoar o presidente é abençoar toda a nação. O tom é outro. A mensagem também.
São três vídeos.
Três momentos públicos.
Três discursos distintos.
E é exatamente por isso que o projeto apresentado em Maricá deixa de ser apenas uma obra simbólica e passa a representar um método. A Arca do Quaquá não é apenas uma metáfora arquitetônica ou religiosa.
Ela se transforma em um espaço onde o passado recente é descartado, onde contradições não entram a bordo e onde só navega a versão conveniente de cada aliado.
No alto do morro, não se fala do deputado que xingou, ameaçou e atacou. Apresenta-se apenas o deputado que ora, abençoa e legitima. A biografia é editada. O discurso é higienizado. A memória é seletiva.
Do Centro Aeroespacial surge a Arca do Quaquá, que irá navegar além da imaginação.
Mas essa travessia só acontece porque fatos ficam pelo caminho e porque o público não é convidado a enxergar o quadro completo.
E é aí que a reportagem se impõe. Não para atacar a fé, nem para negar a religião, mas para lembrar que o povo de Maricá tem o direito de conhecer integralmente quem são os personagens apresentados como referências morais, espirituais e políticas de projetos que se pretendem grandiosos.
Porque uma arca construída sobre silêncio, edição e esquecimento pode até flutuar por um tempo.
Mas cedo ou tarde, a verdade volta à superfície.