Por Ricardo Cantarelle
Ex-prefeita de Magé declara apoio ao ex-governador e movimento político acende alerta no grupo de Eduardo Paes para 2026.
Por Ricardo Cantarelle
RIO DE JANEIRO– Um movimento político em Magé acendeu sinal de alerta nos bastidores do grupo do prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes (PSD), que trabalha na construção de alianças visando uma possível candidatura ao governo do estado em 2026. A mais recente demonstração de resistência ao avanço político do prefeito carioca veio justamente de uma região considerada estratégica: a Baixada Fluminense.
A ex-deputada estadual e ex-prefeita de Magé, Núbia Cozolino, declarou publicamente apoio ao ex-governador Anthony Garotinho (Republicanos), contrariando diretamente o alinhamento político mantido atualmente pelo prefeito da cidade, seu sobrinho, com Eduardo Paes.
Divergência familiar expõe fragilidade de alianças
Em vídeo divulgado nas redes sociais, Núbia Cozolino, que exerceu mandatos como deputada estadual entre 1995 e 2004 e governou Magé por dois mandatos, afirmou que apoiará Garotinho na disputa pelo governo estadual.
A declaração ganhou repercussão política por expor uma divergência dentro do próprio núcleo familiar ligado ao comando político da cidade.
“Foi ele quem esteve ao meu lado em vários momentos da minha vida”, declarou Núbia ao recordar episódios marcantes de sua trajetória política e pessoal.
A ex-prefeita citou o sequestro de sua sobrinha Marcela, ocorrido durante o período em que Garotinho ocupava o governo do estado.
“No momento de maior desespero dessa família, ele colocou toda a polícia à nossa disposição, e a Marcela foi libertada. Todo mundo foi preso e nós não pagamos nada de resgate”, afirmou.
Núbia também relembrou apoios políticos recebidos durante campanhas eleitorais e argumentou que Garotinho já demonstrou atuação efetiva na Baixada Fluminense e no interior do estado.
“Quem conhece sabe o que ele já fez pela nossa região”, afirmou.
A manifestação de Núbia Cozolino também trouxe novamente à tona uma antiga polêmica envolvendo Eduardo Paes e Maricá. Em conversa telefônica com o então presidente Lula, divulgada em 2016, o prefeito do Rio fez comentário pejorativo sobre a cidade, episódio que voltou a circular nas redes sociais após a ex-prefeita defender o município durante seu apoio público a Garotinho.
Estratégia de expansão política encontra resistência
Nos bastidores da política fluminense, Eduardo Paes vem ampliando articulações em municípios do interior e da Baixada Fluminense como parte de um projeto político estadual para 2026. A movimentação busca consolidar apoio fora da capital, principalmente em cidades consideradas decisivas em volume eleitoral.
O episódio em Magé, no entanto, mostra que parte dessas alianças ainda enfrenta resistência em grupos políticos tradicionais da região.
Analistas políticos ouvidos reservadamente por interlocutores da TVC avaliam que disputas locais, vínculos históricos e fidelidade política construída ao longo dos anos continuam tendo forte peso eleitoral em municípios da Baixada.
Processos judiciais marcaram trajetória política de Paes..
A trajetória política de Eduardo Paes também foi marcada nos últimos anos por investigações e processos relacionados ao período das obras olímpicas do Rio de Janeiro.
Em 2021, o prefeito foi denunciado pelo Ministério Público Federal por supostos crimes de fraude à licitação, falsidade ideológica e corrupção passiva em contratos ligados às Olimpíadas de 2016.
Inicialmente, o ministro Sebastião Reis Júnior, do Superior Tribunal de Justiça (STJ), negou o pedido para trancar a ação penal. Meses depois, porém, a 6ª Turma do STJ decidiu, por maioria, interromper o andamento do processo.
Os ministros entenderam que os elementos apresentados a partir da colaboração premiada não haviam sido suficientemente aprofundados pelo Ministério Público Federal antes do oferecimento da denúncia.
Segundo a acusação original, teria ocorrido simulação em processo licitatório envolvendo obras de equipamentos olímpicos, incluindo suposta solicitação de propina. A defesa de Eduardo Paes sempre negou irregularidades.
Episódio no Carnaval gerou críticas nas redes sociais.
Mais recentemente, em fevereiro de 2026, Eduardo Paes voltou ao centro de uma polêmica após imagens gravadas durante o Carnaval da Marquês de Sapucaí repercutirem nas redes sociais.
Nos vídeos, o prefeito aparece usando óculos escuros e segurando um objeto semelhante a uma bengala, em uma encenação interpretada por internautas e ativistas como ofensiva a pessoas com deficiência visual.
As imagens viralizaram rapidamente e provocaram críticas nas redes sociais, onde usuários classificaram a atitude como capacitista.
Posteriormente, Paes afirmou que o episódio foi “uma infelicidade”, mas não apresentou retratação formal pública sobre o caso.
O episódio ocorreu durante desfile acompanhado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva e pela primeira-dama Janja da Silva.
Acusações envolvendo concessão de cemitérios ampliaram tensão política
O embate entre Eduardo Paes e Anthony Garotinho ganhou novos capítulos em dezembro de 2025, após o ex-governador afirmar nas redes sociais que apresentaria denúncias relacionadas à concessão dos cemitérios municipais à empresa Rio Pax.
Garotinho alegou existência de irregularidades no processo licitatório e mencionou o nome de Guilherme Paes, irmão do prefeito e sócio do BTG Pactual, como supostamente ligado ao caso.
“Depois de um longo e minucioso trabalho investigativo, apuramos os detalhes da negociata”, escreveu Garotinho, mencionando “manobras licitatórias” e “ameaças a concorrentes”.
Até o momento da publicação, entretanto, não foram apresentadas provas documentais públicas que sustentassem as acusações.
Eduardo Paes reagiu de forma contundente nas redes sociais e afirmou que processaria o ex-governador por calúnia e difamação.
“Vagabundo presidiário (5x). Vai tomar mais um processo! Minha família não depende de política igual a você e sua corja”, escreveu o prefeito.
Até o momento, não existe investigação formal ou ação judicial relacionada às acusações feitas por Garotinho sobre a concessão dos cemitérios.
Força Municipal de Segurança também gerou debates..
Outro ponto de desgaste político recente envolve a criação da chamada Força Municipal de Segurança, proposta anunciada por Eduardo Paes em 2025 com base em decisões do Supremo Tribunal Federal que ampliaram competências das Guardas Municipais.
O projeto prevê uma atuação mais ostensiva e armada da Guarda Municipal do Rio de Janeiro, gerando críticas de entidades representativas da categoria e debates jurídicos sobre constitucionalidade e limites de atuação.
Em setembro de 2025, durante operação de desocupação de um prédio na região portuária, agentes da Guarda Municipal participaram de ação que terminou em confronto.
Houve relatos de uso de bombas de efeito moral, spray de pimenta e balas de borracha. Parlamentares do PSOL presentes na manifestação afirmaram ter sofrido agressões durante a operação.
O Sindicato Estadual dos Profissionais da Educação (Sepe) também divulgou nota criticando a ação.
O outro lado
A reportagem procurou a Prefeitura do Rio de Janeiro para comentar os pontos abordados nesta matéria, mas não obteve retorno até o fechamento desta edição.
Em manifestações públicas anteriores, Eduardo Paes tem negado irregularidades e atribuído parte das acusações a disputas e perseguições políticas.
Nos bastidores do cenário fluminense, aliados e adversários já admitem que a corrida pelo Palácio Guanabara começou antes mesmo do calendário eleitoral oficial.
“Esta reportagem foi produzida com base em declarações públicas, registros jornalísticos, conteúdos audiovisuais já divulgados e informações de ampla circulação pública, apuradas e organizadas editorialmente pela TVC.”