Por Ricardo Cantarelle/ TVC
O presidente do PL-RJ e primeiro vice-presidente da Câmara dos Deputados, Altineu Côrtes, viu seu principal reduto eleitoral, São Gonçalo, receber, no dia 13, um ato com mais de dez mil militantes em apoio à pré-candidatura de Eduardo Paes ao Governo do Estado, levados ao Clube Mauá pelo prefeito de Maricá, Washington Quaquá, e pelo prefeito de Niterói, Rodrigo Neves, como a TVC já registrou em reportagem anterior.
Dias depois, durante encontro com prefeitos e vereadores do interior fluminense, Altineu reagiu publicamente, atribuindo a Eduardo Paes e ao ex-governador Sérgio Cabral a responsabilidade pela expansão do Comando Vermelho para cidades do interior durante o período das UPPs.
No mesmo mês, outro fato passou a ocupar o noticiário estadual. Desta vez, não relacionado a discursos ou atos políticos, mas a contratos públicos. Levantamento publicado por O Globo, confirmado pela BandNews FM e repercutido em comentário do jornalista Ricardo Noblat na Band, revelou que a Max Clean Lavanderia Industrial, registrada em nome de Alice Maria Ramos Freitas, tia de 75 anos do deputado, recebeu R$ 78,8 milhões em contratos com o Governo do Estado do Rio de Janeiro entre 2021 e 2026.
Do total de 23 contratos firmados pela empresa nesse período, 19, o equivalente a quase 80%, foram celebrados sem licitação, segundo o levantamento.
A reportagem recupera ainda um capítulo anterior envolvendo a família Côrtes. Em 2005, o pai do deputado, Altineu Pires Coutinho, foi preso durante a Operação Roupa Suja, investigação que apurou um esquema de fraude em licitações de lavanderia hospitalar com superfaturamento de até 7 mil por cento em insumos do coquetel contra a aids. Posteriormente, ele foi condenado por fraude em licitação, corrupção ativa e formação de quadrilha.
À época, a empresa da família, Brasil Sul, funcionava na Estrada dos Pachecos, em São Gonçalo, o mesmo endereço onde hoje opera a Max Clean. Procurada por O Globo, a empresa foi descrita por um funcionário como “a lavanderia do Altineu”, embora ele não tenha reconhecido o nome da sócia formal, Alice Maria Ramos Freitas.
Entre os contratos identificados pela reportagem, o maior alcançou R$ 37,9 milhões, após aditivos, para prestação de serviços à Fundação Saúde em sete unidades da rede estadual. Outro contrato, também sem licitação, destinou R$ 8,2 milhões ao Hospital Estadual Getúlio Vargas, na Zona Norte do Rio. Ainda segundo o levantamento, o faturamento da empresa com contratos públicos, que era de R$ 9,6 milhões entre 2017 e 2020, durante os governos Luiz Fernando Pezão e Wilson Witzel, multiplicou-se por oito a partir da gestão de Cláudio Castro (PL), aliado político de Altineu Côrtes à frente do Executivo estadual.
As reportagens também abordam uma pedreira da família administrada por Marcelo Côrtes, irmão do deputado e também preso na Operação Roupa Suja ao lado do pai. Segundo a Band, a empresa foi contratada por uma construtora responsável por obras em São Gonçalo, custeadas com recursos oriundos de emendas parlamentares do próprio Altineu Côrtes.
O faturamento da pedreira teria crescido 517% em apenas um ano, coincidindo com a chegada de Douglas Ruas, afilhado político de Altineu, à Secretaria Estadual de Obras. Atualmente, Douglas Ruas preside a Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj) e é apontado como pré-candidato do PL ao Governo do Estado.
Procurado por O Globo, Altineu Côrtes negou qualquer vínculo atual com a Max Clean. Em nota reproduzida pela imprensa, declarou: “Não tenho nada a ver com essa lavanderia. Me desvencilhei dela em 2001, antes da minha primeira eleição.” Segundo o deputado, sua tia assumiu a empresa após enfrentar dificuldades financeiras e ele não possui participação, influência ou qualquer relação com os contratos firmados junto ao poder público.
A sequência dos acontecimentos marcou o cenário político fluminense ao longo do mês de junho. Primeiro, o ato político realizado em São Gonçalo por Washington Quaquá e Rodrigo Neves em apoio à pré-candidatura de Eduardo Paes ao Governo do Estado. Dias depois, Altineu Côrtes respondeu com críticas ao prefeito da capital.
Na sequência, vieram a público as reportagens de O Globo e da Band sobre os contratos envolvendo a Max Clean Lavanderia Industrial. Até o fechamento desta edição, Washington Quaquá não havia se manifestado publicamente sobre o caso envolvendo a família de Altineu Côrtes. A TVC também procurou as assessorias de Washington Quaquá, Altineu Côrtes e Douglas Ruas, mas não recebeu retorno.
As informações sobre os contratos da Max Clean Lavanderia Industrial com o Governo do Estado do Rio de Janeiro têm como fonte original o jornal O Globo, com confirmação editorial da BandNews FM e repercussão na Band.
Os valores, datas e percentuais de contratação sem licitação reproduzidos nesta reportagem refletem o que foi publicado por esses veículos. Até o momento, não há acusação formal contra o deputado Altineu Côrtes relacionada aos contratos da empresa, e sua manifestação foi incluída nesta reportagem em respeito ao contraditório.