ATENÇÃO MARICÁ: secretário que sobreviveu a atentado na Amaral Peixoto aponta postos de combustível ligados a quadrilha na cidade

Por Ricardo Cantarelle/TVC

Um vídeo gravado durante a noite em três postos de combustível de Maricá voltou a acender o alerta sobre a presença de estruturas de lavagem de dinheiro no setor de combustíveis da Região Metropolitana do Rio e desta vez quem aponta o dedo não é um morador anônimo, mas um nome que já pagou o preço de encarar esse mercado de frente.

O homem que aparece nas imagens segurando uma lista impressa é João Vitor Pires, 27 anos, secretário municipal de Proteção e Defesa do Consumidor do Rio de Janeiro (Sedecon/Procon Carioca) desde 2025, na gestão do prefeito Eduardo Paes. “Vou passar para vocês aqui agora a lista dos postos de gasolina da quadrilha”, diz Pires logo no início do vídeo, parado em frente a um posto na Rodovia Ernani do Amaral Peixoto, em Inoã. “Postos que têm histórico de adulteração de combustível, desvio na bomba e principalmente lavagem de dinheiro do crime organizado.”

Pires cita nominalmente três estabelecimentos: um posto ao lado do restaurante do Mauro Alemão e outro do lado oposto da mesma pista, na Amaral Peixoto em Inoã, além de um posto na entrada de Ponta Negra, que ele identifica como “posto Vale da Figueira”.

A TVC apurou que esse último estabelecimento existe formalmente sob a razão social Auto Posto Vale da Figueira Ltda, com sede na Estrada de Ponta Negra o que confere concretude ao endereço indicado, ainda que a TVC não tenha, até o fechamento desta edição, confirmação documental das acusações de adulteração e lavagem de dinheiro atribuídas ao estabelecimento por Pires.

Quem é o secretário que virou alvo de fuzil na estrada que liga o Rio a Maricá

A identidade de quem assina o alerta não é um detalhe menor nessa história. Antes de assumir o Procon Carioca, João Pires foi assessor parlamentar do deputado estadual Renan Ferreirinha, atuando na fiscalização de hospitais de campanha durante a pandemia trabalho cujo relatório final serviu de base para as investigações do Ministério Público que resultaram no impeachment do então governador Wilson Witzel. Natural de Alcântara, em São Gonçalo, disputou uma cadeira na Câmara de Vereadores do município em 2020.

À frente da Sedecon, Pires construiu reputação justamente no enfrentamento a fraudes em postos de combustível na capital fluminense. Em novembro de 2025, lançou a “Operação Posto Sem Roubo”, com mapa digital de monitoramento de estabelecimentos autuados e um veículo batizado de “Cliente Misterioso” para fiscalizações sem aviso prévio, em parceria com o Instituto Combustível Legal (ICL). Em entrevista ao Diário do Rio, ele resumiu sua postura à frente do órgão: “Como não aceito propina, não negocio fiscalização.”

Essa mesma frente de combate quase lhe custou a vida. Em 16 de março de 2026, por volta das 21h, Pires trafegava pela Rodovia Amaral Peixoto (RJ-106) em direção a Maricá a mesma via onde grava o vídeo objeto desta reportagem quando, segundo relato do próprio secretário às autoridades, um veículo emparelhou com o seu, os ocupantes abriram as portas e apontaram dois fuzis em sua direção.

A perseguição se estendeu por cerca de dois quilômetros. Em carro blindado, Pires avistou uma viatura policial e entrou em um posto de combustíveis numa manobra para escapar, perdendo o controle do veículo e colidindo com dois carros e uma bomba de abastecimento. Ele não ficou ferido.

O caso foi registrado na 75ª DP, em São Gonçalo, e segue sob investigação. Nas redes sociais, o prefeito Eduardo Paes classificou o episódio como atentado motivado pelo trabalho “excepcional” de Pires contra o que chamou de “máfia dos postos de combustíveis”.

A Operação Unha e Carne e a pergunta que ainda não tem resposta pública

O pano de fundo institucional citado por Pires no vídeo “alvo da Polícia Federal” remete à Operação Unha e Carne, cuja 6ª fase foi deflagrada pela PF em 7 de julho de 2026.

A ação mira uma organização que teria usado uma rede de postos de combustíveis do Grande Rio para ocultar e movimentar recursos de origem ilícita: segundo relatório de inteligência financeira do Coaf citado pela própria corporação, o grupo teria movimentado R$ 7,6 bilhões nos últimos seis anos.

Entre os alvos de busca e apreensão estão Márcio Canella, ex-prefeito de Belford Roxo e pré-candidato ao Senado pelo União Brasil, o delegado Marcus Vinícius Amim, ex-secretário estadual de Polícia Civil, e o ex-policial militar Juracy Alves Prudêncio, o “Jura”, apontado pelo relatório final da CPI das Milícias da Alerj, de 2008, como chefe de um grupo paramilitar que atuava em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense.

Os mandados dessa fase, segundo o que a TVC apurou na cobertura da imprensa fluminense, foram cumpridos em Niterói, São Gonçalo, Itaboraí, Resende e na capital nenhuma reportagem consultada até o momento cita Maricá entre os municípios de cumprimento de mandados nessa etapa específica.

Essa é a lacuna central que esta reportagem sinaliza antes de qualquer afirmação categórica: não está confirmado, por documento oficial ou fonte na própria PF, que os três postos apontados por João Pires em Maricá integram formalmente o rol de alvos da Operação Unha e Carne.

É possível que se trate de uma frente paralela de apuração do próprio Procon Carioca ou de inteligência que o secretário possui e ainda não tornou pública de forma documental mas, tecnicamente, o Procon Carioca tem jurisdição municipal sobre a cidade do Rio de Janeiro, não sobre Maricá, o que torna ainda mais relevante entender sob que base legal ou informal o alerta foi feito.

A TVC vem denunciando há meses a fragilidade da fiscalização ambiental e regulatória em Maricá, do licenciamento do resort Maraey às irregularidades na saúde e no saneamento do município. O padrão que aparece agora estabelecimentos comerciais servindo de fachada para movimentação de recursos ilícitos, com possível conexão a estruturas de milícia dialoga diretamente com o que já é de conhecimento público sobre a presença de grupos paramilitares na Região Metropolitana e caberá a esta reportagem apurar se, e como, esse fio se conecta ao noticiário local.

O apelo direto ao consumidor

No fim do vídeo, Pires descarta qualquer ambiguidade sobre o que está pedindo à população: “Se você abastecer esses postos, você está ajudando o crime organizado e está sendo roubado, correndo o risco de colocar gasolina ruim no seu carro.” E convoca o compartilhamento da lista “para o povo de Maricá ficar sabendo e não ser roubado, e muito menos favorecer o crime organizado”.

A reportagem tentou contato com as partes citadas, mas não obteve retorno até o fechamento desta edição. A TVC continua apurando o caso e busca confirmação junto à Polícia Federal e ao Procon Carioca sobre o vínculo formal entre os postos citados e a Operação Unha e Carne.