No coração do Vale do Jequitinhonha, uma das regiões mais áridas de Minas Gerais, o governo federal autorizou a mineradora canadense “Sigma Lithium” a explorar lítio em larga escala, retirando até 3,6 milhões de litros de água por dia do rio Jequitinhonha, enquanto as comunidades locais sobrevivem com menos de 20 litros diários por família.
A situação revela uma contradição cruel: a prioridade do lucro estrangeiro sobre a vida, saúde e território brasileiros.
Vulnerabilidade climática e social
Araçuaí e Itinga, municípios onde a Sigma opera, estão entre os mais vulneráveis às mudanças climáticas, segundo o Índice Mineiro de Vulnerabilidade Climática (IMVC) 2024.

Entre 2020 e 2024, a região somou 302 decretos de emergência por seca e estiagem, evidenciando a fragilidade hídrica local. O impacto de uma mineradora que retira água em proporções gigantescas agrava a crise e aprofunda desigualdades históricas.
“Apartheid hídrico” e impacto direto na população
Movimentos sociais e pesquisadores descrevem o fenômeno como “apartheid hídrico”: enquanto a mineradora extrai milhões de litros de água, as comunidades locais lutam por sobrevivência.
Moradores do distrito de Piauí Poço Dantas, vizinho às cavas, relatam que o ribeirão Piauí, principal fonte de abastecimento, tornou-se barrento e impróprio para consumo. Maura Ribeiro dos Santos, 56 anos, declara:
“Antes, nossas crianças brincavam no ribeirão, plantávamos, pescávamos. Hoje, a água está barrenta, o solo degradado. Tudo morre.”

A mineradora distribui água em caminhões-pipa, mas moradores denunciam volume insuficiente e odor intenso de cloro, insuficiente para repor o abastecimento natural perdido.
Impacto ambiental e degradação do território
Desde 2020, a Sigma extraiu 1,5 milhão de toneladas de minério, gerando gigantescas pilhas de estéril, ocupando centenas de hectares e alterando drasticamente a paisagem.
A empresa busca ampliar suas operações para 342 hectares, o que representa 480 campos do Mineirão lado a lado, incluindo áreas de vegetação nativa suprimidas.
Pesquisadores da UFMG, UFVJM e Unimontes analisaram os estudos apresentados e constataram que a mineradora optou por lavra a céu aberto, apesar da existência de alternativas subterrâneas menos impactantes.

O método da Sigma produz 94% de rejeito e apenas 6% de minério, enquanto a CBL, com lavra subterrânea, gera apenas 15,6% de rejeito, preservando o ecossistema e reduzindo impactos sociais.
Hernani Mota de Lima, engenheiro de minas da UFOP, alerta:
“Onde havia uma montanha, agora há um vale; onde havia um vale, ergue-se uma montanha de rejeito. A população sofre com poeira, ruído e alteração extrema na paisagem.”
Falta de fiscalização e automonitoramento
A Sigma é responsável pelo automonitoramento, com envio de relatórios apenas em janeiro de 2026.
A Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA) admite não possuir fiscalização contínua sobre o consumo da mineradora, enquanto comunidades enfrentam escassez, contaminação e solo degradado.
O Ministério Público Federal (MPF) já recomendou a suspensão e revisão das licenças, destacando ausência de consulta prévia às comunidades indígenas, quilombolas e tradicionais, e alertando para riscos graves à infraestrutura hídrica, solo e biodiversidade.
Contexto internacional: crime de lesa pátria
Em países como Canadá, Alemanha ou Noruega, uma exploração com tais impactos sem fiscalização rigorosa seria imediatamente classificada como crime ambiental e de lesa pátria, com punições severas para responsáveis e licenciamento suspenso até a mitigação total dos danos.

No Brasil, porém, a empresa opera sob licença federal, enquanto os custos sociais e ambientais recaem sobre a população local.
Conclusão: lucro estrangeiro vs soberania e vida
O caso Sigma Lithium evidencia a prioridade do lucro estrangeiro sobre o bem-estar e direitos de cidadãos brasileiros, a degradação de ecossistemas estratégicos e a exposição do país a crises socioambientais. Movimentos sociais, pesquisadores e cineastas, como Ricardo Targino, denunciam:
“É exploração predatória e desigualdade social mascaradas como ‘lítio verde’. O Estado transfere os custos ambientais e humanos para a população.”
O Vale do Jequitinhonha exige ação urgente do Estado brasileiro. Fiscalização rigorosa, consulta às comunidades e proteção ambiental são essenciais para impedir que o país repita ciclos históricos de exploração predatória e destruição do patrimônio nacional.
Fonte:*O TEMPO – MG
Veja reportagem link abaixo.