Por Ricardo Cantarelle/TVC
Entre cartas de amizade “profunda e sincera”, festas de aniversário compartilhadas e um áudio em que chamou Maricá de “merda de lugar”, Eduardo Paes tenta reescrever um passado que o filho de Sérgio Cabral — e a própria cidade não deixam esquecer.
Ivan Lopez de Carvalho, o lendário Capitão do Mato, repetia isso todo domingo no Comunidades em Ação*, programa que por anos liderou a audiência da Região dos Lagos:”POLÍTICA ARTE DE ENGANAR O POVO”.
O jornal O Farol deve ter pensado exatamente nisso ao publicar a matéria que reconstitui, com precisão cirúrgica, o passado de Eduardo Paes ao lado de Sérgio Cabral e o presente em que o prefeito tenta, a todo custo, reescrever essa história diante do espelho do eleitorado fluminense.
“Chefe”: a palavra que Dudu não consegue apagar.
Foi Marco Antônio Cabral quem puxou o fio que Dudu insiste em cortar. Diante da insistência do prefeito em minimizar a proximidade com Sérgio Cabral tratando-o publicamente como só mais um “personagem” do período, ao lado de nomes como Sérgio Dornelles e Luiz Fernando Pezão , o ex-deputado publicou vídeo nas redes lembrando um detalhe simples e devastador: o tratamento que Eduardo Paes dispensava ao pai não era o de um aliado ocasional entre outros. Era “chefe”.
A palavra, sozinha, desmonta décadas de tentativa de distanciamento retórico.
Marco Antônio também recuperou o histórico do apoio do pai à candidatura de Paes em momentos nos quais, segundo ele, as pesquisas mostravam o nome do prefeito mal posicionado junto ao eleitorado o tipo de detalhe que quem vive de museu, como diz o ditado popular, prefere esquecer.
Os abraços que ninguém apagou
Não é lenda urbana, nem fake news requentada: existem fotos e registros públicos do Carnaval de 2016 mostrando Cabral e Paes lado a lado na Marquês de Sapucaí, em abraços e cumprimentos, poucos meses antes de o então governador ser preso pela Polícia Federal, em novembro daquele ano, na esteira da Operação Lava Jato.
Mas a intimidade não nasceu ali. Em abril de 2014, ainda no auge do poder de Cabral, Paes enviou ao governador uma carta manuscrita hoje resgatada até em propaganda eleitoral de adversários tratando-o como “Querido Amigo” e exaltando uma amizade que classificou, com as próprias palavras, de “profunda e sincera”.
Foi essa mesma intimidade que apareceu, com outras cores, na transcrição de vídeo a que a TVC teve acesso: Cabral relembra, emocionado, que seus 50 anos foram comemorados numa festa surpresa na casa de Eduardo, em 2013, e que o filho, Marco Antônio, fez 15 anos “na casa dele, na casa pequena”. Cabral diz que a amizade era “tão óbvia, tão verdadeira” que magoou profundamente vê-la negada depois “me magoou muito”, repete.
“Não é verdade, ele era um amigo fraterno meu”, rebate. “Aqueles eram amigos meus, ele era um amigo meu.”
A cantilena: “eles estão lá, eu estou aqui”
A resposta de Paes, replicada à exaustão na mesma gravação, é sempre a mesma: “Eles estão lá e eu estou aqui.” “Ele é que responde pelos atos dele.”
“NÃO HÁ NINGUÉM ME ACUSANDO DE CORRUPÇÃO, DE ROUBO.”
O prefeito reconhece o apoio de Cabral nas eleições de 2008, 2012, 2016 e 2018 mas faz questão de sublinhar que “nunca foi seu padrinho político”, como se vinte anos de proximidade pessoal, cartas de “querido amigo” e festas de aniversário compartilhadas pudessem ser reduzidos a uma relação apenas “institucional”, termo que o próprio prefeito passou a usar publicamente depois que o ex-aliado virou réu.
O detalhe mais revelador, porém, está fora da transcrição enviada pelo Farol: quando questionado, tempos depois, sobre a acusação de Cabral de que fingia não ter sido seu amigo, a resposta de Paes foi dizer, textualmente, que “estava emocionado” com o que o ex-governador havia dito.
A ironia não passou despercebida o mesmo homem que nega padrinhagem política se declara tocado pela mágoa do padrinho que nega ter tido.
Maricá: o troco que a lagoa não esqueceu
E é exatamente em Maricá que o passado de Dudu volta a bater à porta. Em março de 2016, uma ligação interceptada pela Polícia Federal e revelada após a quebra de sigilo autorizada pelo então juiz Sérgio Moro expôs Paes chamando a cidade, em conversa com Lula, de “merda de lugar” comparando o município ao sítio do ex-presidente em Atibaia: “Imagina se fosse aqui no Rio esse sítio dele, não é em Petrópolis, não é em Itaipava. É como se fosse em Maricá. É uma merda de lugar, porra!”
A reação da cidade foi imediata e amarga. Moradores juraram nunca mais votar nele.
O prefeito só voltou fisicamente ao município dois anos depois, em julho de 2018, num evento político, prometendo iniciar por lá sua campanha ao governo do estado e instalar um centro administrativo na cidade promessa que, segundo moradores, ficou pelo caminho.
Quase uma década depois, o roteiro se repete com nova coreografia. Há poucos dias, Dudu voltou a Maricá desta vez no bairro de Araçatiba, à beira da lagoa, num cenário recolhido, longe do fluxo real da população, ao lado de apadrinhados do poder local, aliados do prefeito Washington Quaquá. Montou-se ali uma peça digna de cenário hollywoodiano, com direito a elenco selecionado a dedo para performar a cena da reconciliação. Dudu mostrou, mais uma vez, toda a sua capacidade artística. A população, segundo relatos, só lamentou uma coisa: o espetáculo não ter sido encenado na Praça Central da cidade, onde o povo de verdade e não o elenco de apadrinhados poderia ter assistido, e talvez respondido, de perto.
As imagens tentam vender a narrativa de que mais de 200 mil moradores estariam prontos para validar sua candidatura ao governo do estado. A população de Maricá, porém, aparentemente, não esqueceu e o pedido de desculpas feito “da boca para fora”, como registrou o Farol, foi levado pelo vento.
O museu de quem finge não ter passado.
O que a matéria do Farol e a transcrição enviada à TVC escancaram, lidas juntas, é um mesmo padrão: Eduardo Paes constrói e descarta alianças na medida exata da conveniência eleitoral.
Foi assim com Cabral chefe e amigo fraterno enquanto o poder sorria, personagem descartável quando a Lava Jato bateu à porta.
É assim com Maricá “merda de lugar” quando serve de piada ao telefone com Lula, palco de teatro afetivo quando os votos da Região dos Lagos entram na conta de uma candidatura ao Palácio Guanabara.
A reportagem tentou contato com as partes citadas, mas não obteve retorno até o fechamento desta edição. Caberá ao eleitorado do Rio de Janeiro decidir, nas urnas, se aceita mais um capítulo dessa mesma arte que o Capitão do Mato descrevia com tanta clareza: a arte de enganar o povo.