Do quase extermínio à abundância: como o Brasil se tornou o maior refúgio das baleias-jubarte no Atlântico Sul

Há quatro décadas, avistar uma baleia-jubarte no litoral brasileiro era um evento raro, quase lendário. Hoje, a realidade é outra: o Brasil abriga cerca de 35 mil desses gigantes, o que representa quase metade da população mundial da espécie. Esse salto populacional, que tirou a jubarte da lista de animais ameaçados em 2014, é resultado de um esforço contínuo de preservação.

O santuário de Abrolhos e a recuperação da espécie

O arquipélago de Abrolhos, na Bahia, tornou-se o coração da estratégia de conservação brasileira. Entre junho e novembro, as águas quentes do local servem como berçário e área de reprodução. O trabalho do Instituto da Baleia Jubarte (IBJ), fundado em 1996, foi fundamental para implementar a proibição da caça e criar zonas protegidas, permitindo que a espécie deixasse de ser uma raridade para se tornar presença constante.

Ciência de ponta: biópsias e rotas migratórias

Para entender melhor esses animais, pesquisadores utilizam métodos rigorosos, como a coleta de amostras de pele e gordura via biópsias. Essas análises revelaram conexões surpreendentes, como o parentesco entre baleias observadas em Abrolhos e indivíduos avistados na Geórgia do Sul, a 4 mil quilômetros de distância. Esse mapeamento genético permitiu compreender as vastas rotas migratórias que conectam o extremo sul do Atlântico ao litoral brasileiro.

Inteligência artificial na identificação

A tecnologia revolucionou o acompanhamento dos cetáceos. Cada baleia-jubarte possui um padrão único de manchas na cauda, funcionando como uma impressão digital. Antigamente, a identificação manual era um trabalho exaustivo, mas hoje a plataforma Happy Whale utiliza inteligência artificial para processar milhares de imagens em segundos. Com essa ferramenta, cientistas já catalogaram 8.300 baleias brasileiras e registraram feitos impressionantes, como migrações de mais de 15 mil quilômetros.

Novos desafios para a conservação

Apesar do sucesso, o cenário exige cautela. Com o aumento da população de baleias, novos desafios surgem para a convivência humana. O tráfego marítimo intenso, o risco de emalhamento em redes de pesca e as mudanças climáticas — que afetam a disponibilidade de krill, principal alimento dos animais — são as novas ameaças monitoradas pelo IBJ. O objetivo agora é harmonizar a atividade econômica com a proteção contínua desse patrimônio marinho, que recentemente recebeu o selo de “Hope Spot” pela fundação Mission Blue.