Enquanto o Prefeito Desfila, o Povo de Maricá Sofre na Fila do Conde Modesto Leal

Superlotação, falta de médicos e até segurança fazendo triagem: a crise silenciosa que a gestão municipal insiste em ignorar


As câmeras capturam glitter, fantasias e sorrisos. O prefeito de Maricá desfila na avenida, sob holofotes pagos com dinheiro público, enquanto a poucos quilômetros dali, dentro das paredes do Hospital Municipal Conde Modesto Leal, outra cena bem diferente se repete dia após dia: pacientes amontoados na emergência, horas de espera sem previsão de atendimento e uma gestão que parece enxergar apenas o que lhe convém.

A denúncia que veio de dentro da fila

Foi um próprio morador quem pegou o celular e registrou o que os boletins oficiais da prefeitura jamais mostrariam: a emergência do Conde Modesto Leal tomada por pacientes à espera, sem estrutura suficiente para absorver a demanda. Mas o detalhe que chocou até quem já estava acostumado com o descaso foi outro um segurança realizando a triagem dos pacientes. Isso mesmo: a função de classificar riscos, definir prioridades e avaliar a gravidade de cada caso, entregue a um profissional que não tem qualificação legal nem técnica para exercê-la.

E não se trata de opinião. O Conselho Regional de Enfermagem, o Coren, é categórico: a triagem clínica e a classificação de risco em serviços de urgência e emergência são atos privativos do enfermeiro. Ponto final. Permitir que um guarda de segurança assuma essa função não é apenas uma falha administrativa é uma irregularidade grave que coloca vidas em risco.

O dinheiro existe. A vontade política é que falta.

Enquanto a população aguarda atendimento em corredores lotados, o vereador Ricardinho Netuno foi às câmeras denunciar o que considera uma farra com o erário público. Segundo o parlamentar, milhões de reais foram destinados à escola de samba do prefeito ao longo de sucessivos desfiles recursos que deveriam, por obrigação constitucional e moral, estar sendo investidos em saúde, educação e infraestrutura. O vereador vai além: aponta que decisões são tomadas à margem da lei, como se o município fosse propriedade particular de quem o governa.

As investigações reforçam o quadro. Empresas gestoras contratadas para administrar unidades de saúde receberam repasses milionários e, em contrapartida, entregaram filas, falta de médicos nas unidades básicas e esperas intermináveis por consultas especializadas. A conta não fecha exceto para quem embolsa o contrato.

Inaugurações para inglês ver

A prefeitura tentou, em outubro de 2025, maquiar o cenário com a inauguração de um novo setor de Saúde Mental no hospital. Iniciativa válida, mas insuficiente. O Conde Modesto Leal continua sendo a principal e muitas vezes a única unidade de urgência acessível para grande parte da população de Maricá, e segue operando acima de sua capacidade. A ausência de médicos nas unidades menores empurra todos os casos para o hospital central, que não tem estrutura para suportar tamanha pressão.

Maricá refém de um projeto pessoal

O que se vê em Maricá não é uma tragédia sem causa. É o resultado previsível de uma gestão que trocou o interesse público pelo projeto pessoal de quem governa. Um prefeito que encontra verba para fantasia e bateria, mas não encontra para médico e maca, já deu sua resposta à população ela só precisa decidir se vai continuar aceitando.

Por ora, enquanto o desfile termina e as arquibancadas se esvaziam, a emergência do Conde Modesto Leal continua cheia. E o povo de Maricá, que não tem camarote, aguarda na fila.


Com base em relatos de moradores, denúncia do vereador Ricardinho Netuno e normas do Conselho Regional de Enfermagem (Coren).