A Justiça Federal condenou o ex-chefe de terminal no Porto de Santos, Diogo da Silva Santos, a 11 anos e 1 mês de prisão. A sentença é resultado de seu envolvimento no envio de 416 kg de cocaína à Suíça.
O caso, que ganhou repercussão internacional após a droga ser encontrada em uma fábrica da Nespresso, destaca a vulnerabilidade de terminais portuários no tráfico internacional.
A sentença aponta Diogo como um elo fundamental na operação, que permitiu que traficantes ocultassem a substância ilícita em sacas de café. Ele é acusado de usar sua posição para manipular o fluxo de contêineres e burlar a fiscalização, facilitando a exportação da cocaína.
A decisão, que ainda permite recurso em liberdade, revela detalhes sobre como a organização criminosa agiu no Porto de Santos e a complexidade da investigação que se estendeu até a Europa, conforme informações divulgadas pelo g1.
A condenação e o papel crucial no esquema
O juiz Roberto Lemos dos Santos Filho, responsável pelo caso, afirmou que a conduta de Diogo da Silva Santos “constituiu elo fundamental, imprescindível, para assegurar o sucesso da empreitada criminosa”. Ele se aproveitou de sua função como responsável pelo pátio do terminal Redex em março de 2022.
Isso permitiu a entrada e saída de um contêiner “contaminado” com a droga. Segundo o Ministério Público Federal (MPF), o ex-chefe de terminal orientou funcionários a não realizar os controles e fiscalizações obrigatórios na carga.
Nesse período, a droga foi ocultada sem o devido registro dos procedimentos no sistema do terminal, o que demonstra a intencionalidade e a organização do esquema de tráfico de cocaína.
A defesa de Diogo pediu a redução da pena com base no chamado tráfico privilegiado, mas o juiz negou o pedido. O magistrado justificou que as circunstâncias do crime indicam um claro vínculo com um grupo criminoso ou dedicação a atividades ilícitas.
Essa avaliação afastou a possibilidade de uma pena mais branda para o ex-chefe de terminal em Santos. Além da pena de prisão, Diogo da Silva Santos foi condenado ao pagamento de uma multa de 1.110 dias-multa, equivalente a R$ 44,8 mil.
Ele respondeu ao processo em liberdade e poderá recorrer da decisão ao Tribunal Regional Federal da 3ª Região, mantendo-se solto durante o processo recursal.
A descoberta da droga na Suíça e a investigação
O caso ganhou notoriedade internacional quando a cocaína foi descoberta em sacas de café por funcionários da fábrica da Nespresso, localizada em Romont, na Suíça. Os trabalhadores da empresa acionaram imediatamente as autoridades locais, que apreenderam os 416 kg de droga.
A investigação suíça rapidamente se conectou com a Polícia Federal no Brasil, que passou a apurar a origem da carga no Porto de Santos. A repercussão do caso Nespresso colocou os holofotes sobre as rotas do tráfico internacional e a forma como as quadrilhas utilizam a logística de exportação.
As versões: de confissão a negação
Em depoimento inicial à Polícia Federal e a colegas de trabalho, Diogo da Silva Santos confessou ter participado da retirada e devolução do contêiner. Testemunhas relataram que ele chegou a dizer que havia “vendido” um contêiner por cerca de R$ 250 mil aos criminosos, embora tenha negado ter recebido o dinheiro.
Durante o inquérito, o ex-chefe de terminal alegou que agiu sob ameaça. Ele contou que foi abordado por dois homens em um campo de futebol que ofereceram R$ 250 mil pelo serviço. Após sua recusa, os criminosos teriam mostrado fotos de sua esposa e filha, ameaçando-as para que ele cooperasse.
Diogo descreveu ter recebido um celular dos traficantes, por onde recebia mensagens com opções de números de contêineres. Ele teria indicado qual seria mais fácil de manipular, permitindo a entrada de um caminhão para levar o contêiner e autorizando seu retorno dois dias depois. Em seguida, devolveu o aparelho aos suspeitos.
Contrariando suas declarações anteriores, em depoimento à Justiça, Diogo mudou sua versão e negou o crime. Ele alegou que apenas cumpria ordens e que não possuía autonomia para liberar ou inspecionar contêineres.
Essa nova versão buscou desvincular o ex-chefe de terminal da responsabilidade direta no esquema de tráfico de cocaína, apresentando uma narrativa de coação e falta de poder de decisão.
Entenda o Terminal Redex e a importância da função
O terminal Redex, onde Diogo da Silva Santos atuava como ex-chefe de terminal, é uma estrutura autorizada pela Receita Federal, localizada fora da alfândega. Ele é utilizado para preparar e liberar cargas de exportação com um regime de fiscalização simplificada, o que agiliza o envio de mercadorias ao exterior.
A posição de Diogo, responsável pelo pátio, era estratégica e de grande responsabilidade, o que foi explorado pelos criminosos. Sua função permitia-lhe ter controle sobre a movimentação e o acesso aos contêineres, criando a “janela” necessária para a ocultação da cocaína sem levantar suspeitas imediatas.
O caso do ex-chefe de terminal em Santos reforça a necessidade de rigor na fiscalização e segurança em todas as etapas da cadeia logística de exportação, especialmente em pontos estratégicos como os terminais portuários, para combater o tráfico internacional de drogas.