Ex-PMs irmãos são condenados a mais de 30 anos de prisão pelo homicídio triplamente qualificado de Fernando Iggnácio, bicheiro do Rio

A justiça do Rio de Janeiro proferiu sentenças significativas nesta sexta-feira, condenando dois irmãos, ex-policiais militares, pelo brutal homicídio triplamente qualificado de Fernando Iggnácio. O crime, ocorrido em 2020, chocou o cenário da contravenção carioca e trouxe à tona a complexa rede de interesses e violências que permeia o jogo do bicho.

As condenações de Pedro Emanuel D’onofre Andrade e Otto Samuel D’onofre Andrade marcam um passo importante na elucidação de um caso que envolveu planejamento detalhado e a participação de indivíduos com conhecimento técnico policial. A atuação desses ex-agentes da lei na máfia do jogo do bicho é um ponto central da investigação.

Este desfecho judicial reforça a gravidade do envolvimento de ex-membros das forças de segurança em atividades criminosas, destacando a cooptação de agentes que deveriam zelar pela sociedade. Os detalhes do julgamento e as provas apresentadas revelam a frieza e o profissionalismo dos executores, conforme informações divulgadas pelo g1.

Condenações Severas e o Papel dos Ex-PMs no Homicídio

Pedro Emanuel D’onofre Andrade foi condenado a 32 anos, 9 meses e 18 dias de prisão, enquanto seu irmão, Otto Samuel D’onofre Andrade, recebeu a pena de 31 anos, 5 meses e 6 dias de prisão. As sentenças foram determinadas pelo 1º Tribunal do Júri, que considerou o homicídio triplamente qualificado.

A decisão do juiz Thiago Portes destacou que Pedro D’onofre, mesmo sendo policial militar, uniu-se à máfia do jogo do bicho e participou de atividades criminosas. O magistrado citou o “uso de conhecimentos técnicos para assegurar o êxito da empreitada criminosa”, características típicas de grupos de extermínio.

Segundo o juiz, Pedro foi responsável por levantar informações, monitorar a vítima e reconhecer o local onde o crime seria cometido. A defesa dos réus, no entanto, afirmou que irá recorrer da condenação, buscando reverter a decisão judicial.

A Máfia do Jogo do Bicho e a Cooptação de Agentes da Lei

A promotora Andréa Fava, do Grupo de Atuação Especializada em Júri (Gaejuri) do Ministério Público, ressaltou que, entre os réus pelo crime, pelo menos quatro já atuaram como policiais militares. Além de Pedro e Otto, Rodrigo Silva das Neves já foi condenado a mais de 32 anos, e Márcio Araújo de Souza responde em outro processo.

A promotora descreveu essa situação como um “aspecto nefasto, a cooptação de agentes da lei, que deveriam zelar pela sociedade, pela repressão do crime, agentes que são cooptados pela grande máfia da contravenção, do capo Rogério Andrade, que responde como mandante deste crime em outro processo”. Márcio Araújo é apontado como a ponte entre os executores e Rogério Andrade.

Fernando Iggnácio, a vítima, era um dos “capos” do jogo do bicho no Rio de Janeiro. As investigações apontam para uma disputa sangrenta entre ele e Rogério Andrade pela herança do bicheiro Castor de Andrade, o que teria motivado o assassinato. Rogério Andrade foi preso em outubro de 2024, acusado de ser o mandante do crime, e seu processo tramita separadamente.

Planejamento Minucioso e a Estratégia da Defesa

A promotora Andréa Fava enfatizou que o crime não foi cometido no calor da emoção, mas sim planejado meticulosamente, com a atuação de executores profissionais. “Não se trata de um crime no calor da emoção. Se trata de um crime com características de profissionais da arte de matar, de homens que eram policiais militares”, afirmou.

O delegado Moysés Santana, titular da Delegacia de Homicídios na época do crime, revelou que Pedro Emanuel D’onofre Cordeiro fez um voo de helicóptero para “reconhecimento” do local três dias antes do homicídio. A rota era exatamente a mesma que Fernando Iggnácio faria, de Ilha Grande até o Rio de Janeiro.

O policial civil Luciano Konig, responsável pela análise de dados de celulares, afirmou que o planejamento do crime foi bastante longo, com atos preparatórios desde janeiro de 2020. Ele encontrou imagens do voo na nuvem digital de Pedro, confirmando a data, e também imagens de fardamento usado no crime.

A defesa, representada pelo advogado Flávio Fernandes, classificou a acusação como uma “colcha de retalhos” e questionou a suficiência das provas. Ele citou a ausência de exame de digitais em armas encontradas e acusou a Delegacia de Homicídios de ser um “antro de corrupção”. O advogado também negou qualquer relação dos clientes com Rogério Andrade e chegou a pedir a insanidade mental de Pedro, solicitação que foi negada pela Justiça.

O Julgamento e Outros Envolvidos no Caso Iggnácio

O júri dos irmãos Pedro e Otto teve início na quinta-feira, com a oitiva de seis testemunhas, entre elas o delegado Moysés Santana e o policial civil Luciano Konig. Depoimentos em vídeo de Diego Tichetti, piloto do helicóptero, e Vanessa Mouzo, administradora da Heli-Rio, também foram exibidos aos jurados.

Durante a sessão, os réus permaneceram em silêncio. O julgamento dos irmãos foi desmembrado, pois inicialmente seriam julgados junto com Rodrigo Silva das Neves, outro ex-policial militar já condenado a 32 anos, 9 meses e 18 dias de prisão pelo mesmo crime em abril deste ano.

Rogério Andrade, sobrinho de Castor de Andrade e apontado como o maior bicheiro do Rio, continua preso. Mesmo após pedidos de sua defesa, o Supremo Tribunal Federal (STF) negou a liberdade de Andrade, que segue respondendo a um processo separado como suposto mandante do homicídio de Fernando Iggnácio, acompanhando audiências por videoconferência.