Garotinho denuncia helicóptero de R$ 32 milhões em Maricá, cobra Ricardo Couto e acusa Ministério Público de omissão

Por Ricardo Cantarelle

Há vídeos que funcionam como desabafo. E há vídeos que funcionam como convocação.

O que o ex-governador Anthony Garotinho (Republicanos) publicou nos últimos dias pertence à segunda categoria e mira, ao mesmo tempo, dois alvos que raramente aparecem juntos na mesma frase: o prefeito de Maricá, Washington Quaquá, e o próprio Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro, que Garotinho descreve, com ironia amarga, como um “mistério”.

A TVC amplifica aqui a denúncia de Garotinho e é dele, e só dele, a responsabilidade pelas afirmações que reproduzimos a seguir. Já a parte documental que segue abaixo processo, edital, termo de homologação a TVC apurou e confirma com base em documentos oficiais.

O que os documentos mostram

A reportagem teve acesso ao Procedimento Licitatório Aberto Presencial nº 04/2025 – SRP, Processo Administrativo nº 12545/2025, conduzido pela Codemar sob amparo da Lei Federal nº 13.303/2016 (a lei das estatais) e do Regulamento Interno de Licitações e Contratos da própria companhia. O objeto: registro de preços para contratação de empresa especializada no fretamento de aeronaves de asa fixa e rotativa, destinadas a suprir as necessidades de mobilidade institucional da Codemar. A sessão de julgamento ocorreu em 11 de agosto de 2025, autorizada pela Portaria nº 510, de 3 de julho de 2025.

O Termo de Adjudicação e Homologação, assinado por Ângelo Dutra, Diretor de Administração da Codemar, em 19 de agosto de 2025, é taxativo: o objeto foi adjudicado em favor da empresa Blue Sky Táxi Aéreo Ltda, CNPJ nº 20.130.965/0001-06, pelo valor de R$ 32.241.600,00 trinta e dois milhões, duzentos e quarenta e um mil e seiscentos reais.

Há uma nuance técnica que a TVC julga necessário registrar com precisão, para não dar margem a contestação fácil: trata-se de um Sistema de Registro de Preços (SRP), modalidade em que o valor homologado funciona como teto global estimado para eventual contratação ao longo da vigência não, necessariamente, um valor já integralmente empenhado ou pago. Isso não torna o caso menor. Ao contrário: significa que a própria Codemar estimou e formalizou, como necessidade institucional, um gasto de até R$ 32,24 milhões em fretamento de aeronaves e o edital prevê expressamente que outras entidades de mesma natureza jurídica podem aderir à mesma ata de registro de preços, o que abre a possibilidade de o valor de referência ser utilizado por mais de um órgão público.

O contrato tem vigência de 12 meses a partir da publicação da ordem de início no Jornal Oficial de Maricá o que bate com o relato inicial de que o ato correspondente estaria previsto para publicação em edição de agosto de 2025.

A acusação mais grave de Garotinho.

É sobre esse contrato, agora documentalmente confirmado, que recai a acusação mais grave feita por Anthony Garotinho em vídeo publicado nas redes sociais. Ele afirma saber qual seria a real finalidade da aeronave, mas diz que vai aguardar provas antes de apresentar a denúncia formalmente. Segundo ele, o helicóptero não estaria sendo usado para transportar pessoas.

É uma acusação grave, gravíssima e, até o momento, sem comprovação pública apresentada pelo próprio Garotinho. A TVC registra a declaração exatamente nesses termos: como suspeita anunciada por um adversário político histórico de Quaquá, que diz reunir indícios mas ainda não os exibiu. Não é fato estabelecido. É acusação política em construção, e assim deve ser lida inclusive por quem discorda de Quaquá tanto quanto Garotinho.

O valor contra o mercado

Documentos à parte, os números por si só já convidam à pergunta. Uma tabela de referência do setor de aviação executiva em São Paulo, relativa a 2026, mostra que o valor da hora de voo varia de R$ 7.200 (Robinson R44, três passageiros) a R$ 34.000 (H145, oito passageiros), sempre com pacote mínimo de cinco horas. A aeronave associada à Blue Sky Táxi Aéreo em material de divulgação da própria empresa é justamente um Robinson R44 Raven II modelo de ponta inferior da tabela, o mais barato entre os listados

Fazendo a conta com o valor mais generoso possível para a Prefeitura usando a hora do R44 a R$ 7.200 , o teto de R$ 32.241.600,00 equivaleria a cerca de 4.478 horas de voo em 12 meses. Isso significa uma média de mais de 12 horas de voo por dia, todos os dias do ano, sem exceção inclusive feriados, dias de chuva e períodos de manutenção obrigatória da aeronave. Nenhuma operação institucional municipal, por maior que seja, sustenta essa escala de uso. E se o modelo efetivamente fretado for mais robusto que o R44, a conta de horas cai mas o valor por hora sobe, e a desproporção continua de pé por outro caminho.

Não é a TVC quem afirma, neste momento, que houve superfaturamento essa é uma conclusão técnica que cabe ao TCE-RJ, ao Ministério Público ou a uma perícia formal. Mas os números públicos, colocados lado a lado, mostram uma distância que qualquer leitor consegue medir sozinho: entre o que o mercado cobra por voo de helicóptero e o que a Codemar registrou como teto de gasto, há uma diferença que precisa de explicação e, até aqui, a Prefeitura não deu nenhuma.

A cobrança ao Ministério Público

O trecho mais duro do vídeo, porém, não é sobre o helicóptero é sobre quem deveria fiscalizá-lo. Garotinho relembra o papel dos procuradores do Ministério Público Federal na Operação Lava Jato fluminense, que ajudaram a condenar o ex-governador Sérgio Cabral, e contrasta isso com o que descreve como inércia do Ministério Público estadual hoje. Ele chega a insinuar que promotores teriam medo de repetir o que, segundo ele, aconteceu com colegas do MPF que teriam sido “advertidos” após denunciar o esquema Cabral, enquanto o próprio condenado seguia recebendo regalias no cumprimento da pena.

Garotinho vai além e cobra diretamente o governador em exercício, Ricardo Couto desembargador que preside o Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro desde 2025 e assumiu o comando do Executivo estadual, interinamente, após a renúncia de Cláudio Castro em março de 2026.

A cobrança é direta: se o chefe do Executivo estadual enxerga, segundo o próprio relato do ex-governador, processos contra investigados que não andam e instituições que se omitem diante de irregularidades, caberia a ele magistrado de carreira, com ascendência institucional sobre o próprio Judiciário fluminense provocar a apuração e o afastamento de quem não está cumprindo sua função. É um chamado explícito à ação, dirigido a quem, na leitura de Garotinho, tem musculatura institucional para mexer numa engrenagem que ele descreve como travada.

Outras acusações contra Quaquá

O vídeo não se limita ao helicóptero. Garotinho também afirma que Quaquá viaja ao exterior sem prestar contas publicamente, e atribui ao prefeito a compra de uma fazenda avaliada em mais de vinte milhões de reais registrada, segundo ele, em nome da esposa , além da montagem de uma vinícola e da aquisição de um imóvel em Cascais, ambos em Portugal. Nenhuma dessas afirmações vem acompanhada, no vídeo, de documento, nota fiscal ou registro público apresentado por Garotinho.

A TVC não confirmou, de forma independente, nenhum desses três pontos e os reproduz aqui exclusivamente como declaração atribuída ao ex-governador, sob sua responsabilidade.

Garotinho soma a isso uma crítica política mais ampla, ao questionar o apoio do PT à candidatura de Eduardo Paes ao governo do estado, lembrando que um irmão do mandante do assassinato da vereadora Marielle Franco ocupou cargo de secretário na gestão Paes fato de conhecimento público, mas cujo uso como argumento contra a aliança PT-Paes é interpretação política do próprio Garotinho, não constatação da reportagem.

O que isso significa para Maricá.

Tirando o verniz da disputa pessoal porque existe disputa pessoal, histórica, entre Garotinho e Quaquá, e o leitor tem o direito de saber disso antes de formar opinião , o que sobra é uma pergunta que a TVC já vem fazendo há meses, em outras reportagens, sobre outros contratos: onde está o controle institucional sobre o dinheiro público em Maricá? Não é a primeira vez que a Codemar aparece no centro de uma contratação questionada. Não é a primeira vez que o TCE-RJ suspende bilhões em processos licitatórios da cidade. E não é a primeira vez que uma denúncia pública não encontra, em resposta, nenhuma manifestação imediata do Ministério Público.

E a denúncia de Garotinho não nasce isolada. Há mais de um ano, o único vereador de oposição na Câmara Municipal de Maricá vem subindo à tribuna, sessão após sessão, para relatar o que classifica como um esquema recorrente de desvio de recursos públicos dentro da administração municipal de contratos da Codemar sem licitação somando dezenas de milhões de reais, à compra de computadores por valor mais que o dobro do praticado no mercado, passando por irregularidades no Instituto de Ciência, Tecnologia e Inovação de Maricá (ICTIM) e por mais de R$ 800 milhões consumidos pela autarquia de saneamento com resultado de cobertura ainda mínimo para a população. Parte dessas denúncias já resultou em inquérito aberto no Ministério Público, segundo o próprio parlamentar relatou em sessão.

A TVC optou por não identificar esse vereador nesta matéria, por se tratar de pré-candidato a um cargo eletivo no pleito de outubro mas registra que as denúncias são públicas, foram feitas oficialmente no plenário da Casa de Leis, e reforçam, de forma independente da fala de Garotinho, o mesmo diagnóstico: um padrão sistemático de gasto público sem controle efetivo em Maricá.

Se Garotinho tem ou não as provas que promete apresentar sobre o uso real do helicóptero, só o tempo e, principalmente, a disposição das instituições em investigar vai dizer. Mas a pergunta que ele deixa no ar não depende de prova nenhuma para ser válida: por que o órgão constitucionalmente responsável por fiscalizar o uso do dinheiro público em Maricá segue em silêncio diante de um padrão de irregularidades que já não cabe mais na conta de coincidência?

A TVC segue apurando o caso e vai procurar o Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro, a Prefeitura de Maricá e a Codemar para colher manifestações sobre as denúncias de Garotinho. Este texto será atualizado caso haja resposta.

A palavra final é da TVC, não do Garotinho..

Há um detalhe na composição institucional do Rio de Janeiro, neste exato momento, que merece ser dito sem meio-termo, porque não depende de nenhuma acusação de terceiro para ser verdade: o estado é governado, interinamente, por um desembargador. Um homem que preside o Tribunal de Justiça, que tem no currículo décadas de magistratura, que conhece por dentro o funcionamento e as falhas do sistema de Justiça fluminense. Não é qualquer governador. É alguém que ocupa, ao mesmo tempo, o topo do Judiciário e o comando do Executivo estadual.

Essa dupla condição não é um detalhe protocolar. É uma oportunidade concreta — talvez irrepetível de fazer o que a política tradicional do Rio raramente faz: usar a autoridade da toga para destravar o que a omissão da política deixou parado. Se há, como aponta Garotinho, processos que não andam, órgãos de controle que se calam diante de irregularidades sucessivas e um padrão de impunidade que se repete de gestão em gestão, é justamente um magistrado no comando do Palácio Guanabara quem tem menos desculpa para não agir.

E Maricá, hoje, é o retrato mais nítido do que acontece quando esse vácuo de fiscalização se instala numa administração municipal. A cidade mais rica per capita do estado, bancada pelos royalties do petróleo, vive um momento em que decisões de peso de contratos milionários a dispensas de licitação, de compras de terras a locações de aeronaves parecem nascer de um único centro de vontade: o gabinete do prefeito. A população de Maricá não decide, não é consultada, não é informada. Assiste. E quando questiona, encontra silêncio institucional em quase todas as portas a Prefeitura que não explica, e um padrão de irregularidades que se repete contrato após contrato.

Não se trata de ausência total de fiscalização é preciso precisão aqui, para não fragilizar o argumento com uma generalização incorreta. O Ministério Público já demonstrou, mais de uma vez, capacidade de agir sobre fatos ligados a Maricá: em novembro de 2024, a Operação Escambo, do MPRJ em conjunto com a Polícia Civil, mirou o desvio de R$ 64 milhões do Banco Mumbuca; em agosto de 2025, a Operação Duas Caras, deflagrada pelo Ministério Público de São Paulo, cumpriu mandado em Maricá dentro de uma investigação nacional sobre fraude em organizações sociais de saúde um reflexo de apuração nascida em outro estado, não fruto de investigação originada localmente. Houve também a Operação Salus, da Polícia Federal, sobre o mesmo tema, em 2024.

O que chama atenção não é a ausência de qualquer controle é a ausência de controle exatamente onde o padrão mais se repete: nos contratos da Codemar. E aqui os números do próprio Tribunal de Contas do Estado falam por si. Só em 2026, o TCE-RJ já suspendeu processos licitatórios de Maricá que somam mais de R$ 1,43 bilhão decisão que se soma a um histórico de suspensões que, em maio do mesmo ano, já passava de R$ 730 milhões. Não é uma suspensão isolada, é uma sequência. Editais barrados, processos interrompidos, licitações que precisam ser corrigidas ou refeitas repetidas vezes, no mesmo órgão, sob a mesma gestão. Um erro é falha administrativa.

Uma sequência de erros do mesmo tipo, no mesmo lugar, ano após ano, deixa de parecer acidente e passa a sugerir método: a possibilidade real de que essas licitações sejam desenhadas, desde a origem, para tentar contornar a Lei e que só a atuação recorrente do TCE-RJ está, até aqui, impedindo que esse contorno se consume.

Isso não é normalidade democrática. É captura. E o instrumento mais eficaz contra a captura de uma administração pública por vontade pessoal de um único gestor não é a próxima eleição é o exercício, hoje, das instituições de controle que existem exatamente para isso. A TVC cobra, com a insistência que o tema exige: que o Ministério Público do Rio de Janeiro trate os contratos da Codemar com a mesma disposição investigativa que já demonstrou ter em outros episódios ligados a Maricá; que o TCE-RJ, depois de suspender mais de R$ 1,43 bilhão em licitações da cidade só neste ano, avance da suspensão cautelar para a apuração de responsabilidade porque uma sequência de irregularidades do mesmo tipo, no mesmo órgão, já não se sustenta como coincidência; e que o governador em exercício magistrado, autoridade máxima do Judiciário estadual e agora também do Executivo exerça, com a força que sua dupla investidura permite, o papel de reequilibrar um estado de direito que, em Maricá, dá sinais visíveis de estar sendo atropelado.