“LULA VIRA VIROU!!!!”: QUAQUÁ GRITA PELA VIRADA, COBRA DA CAMPANHA O DISCURSO QUE FALTA E TENTA TRANSFORMAR O VERMELHINHO EM ARMA ELEITORAL

*Em um reel de fundo vermelho, numa entrevista de tom duro e num post de Facebook sem uma palavra sobre as urnas, o prefeito de Maricá mostra duas faces: a do dirigente que sabe que a eleição está apertada e a do gestor que prefere falar de ônibus

Por Ricardo Cantarelle

Quatro pontos de exclamação. É o que Washington Quaquá usou para fechar a legenda do reel que ocupa seu Instagram, “Lula vira virou!!!!”, como quem tenta empurrar o verbo para o futuro na base do volume.

Por cima, em letras brancas e maiúsculas sobre um fundo vermelho que não deixa dúvida de bandeira, a palavra de ordem: “DÁ PRA VIRAR! E VAMOS VIRAR!”. O prefeito não pede, não torce, não sugere. Afirma que Lula vai vencer, e que a vitória passa por uma virada.

A arte é de campanha, desenhada para circular. Embaixo da chamada, Lula e Quaquá aparecem lado a lado, sorrindo, e o nome do prefeito está estampado ao fundo, em letras grandes, como assinatura.

A virada de Lula, no desenho, tem selo de autoria. No miolo do vídeo, um trecho de entrevista: o prefeito, de camiseta cinza, gesticula num ambiente que lembra um cômodo de casa, enquanto o entrevistador acompanha em tela dividida.

O placar por trás do grito

O tom de comício ganha outra temperatura quando o número entra na sala.

Com 100% das seções totalizadas, Flávio Bolsonaro (PL) terminou o primeiro turno com 56.104.503 votos, 47,03% dos válidos, contra 53.879.538 de Lula, 45,16%, uma diferença de 2.224.965 votos, ou 1,87 ponto percentual.

Ao longo do ano, institutos como Genial/Quaest e BTG/Nexus apontavam Lula na liderança e como favorito em um eventual segundo turno. As urnas embaralharam a ordem. E Flávio, na primeira declaração depois da votação, anunciou o “fim da era do PT”. O segundo turno está marcado para 25 de outubro.

É nesse chão que Quaquá planta a palavra “virada”. Quem lê o placar sem pressa entende o recado: o vice-presidente nacional do PT sabe que o jogo mudou de dono, e prefere gritar a se calar.

A aposta com recibo de cobrança

Uma reportagem recente, que circula pela rede, entrega a camada que o reel esconde.

Publicada em 9 de outubro, ela registra que Quaquá aposta na vitória de Lula e, na mesma frase do título, avisa: “O discurso precisa mudar”.

Segundo o texto de apresentação, o prefeito defendeu retomar o diálogo com as periferias e cobrou alianças amplas, mudanças na comunicação e uma campanha mais organizada para enfrentar Flávio no segundo turno.

Traduzindo do jargão: a campanha, na leitura de Quaquá, anda desorganizada, fala pouco com quem mais precisa ouvir e depende de alianças que ainda não fechou. Não é a frase de quem acha que a vitória está a caminho. É a de quem acha que está, mas só se alguém consertar o motor.

A TVC não teve acesso às falas literais, e o conteúdo da entrevista está aqui atribuído ao que a reportagem publicou.

Em casa, o prefeito fala de ônibus

Já no Facebook, na noite de quinta-feira (15), por volta das 21h, segundo o horário exibido pela rede, Quaquá troca o tom de alerta pelo de vitrine. O post, público e ilustrado com outra foto ao lado de Lula, não cita o primeiro turno, nem Flávio, nem a palavra “virada”. Cita o Vermelhinho.

Quaquá lembra que, quando a Tarifa Zero foi anunciada em Maricá, “teve gente que chamou a gente de maluco”, gente que disse que “não dava” e que “era impossível”.

Hoje, afirma, os Vermelhinhos “fazem milhões de viagens” e garantem que o povo vá e volte “sem pagar passagem”.

Em seguida emenda com o anúncio que, segundo ele, o presidente Lula teria feito: uma PEC para levar a Tarifa Zero nos fins de semana a todo o Brasil. O fecho é de manifesto: é assim que se muda a vida das pessoas, “tendo coragem de fazer diferente, enfrentando o descrédito”, e o que começou em Maricá “pode se transformar em realidade para milhões de brasileiros”.

A TVC apura o teor, a autoria e a tramitação da PEC citada, assim como os números de viagens do Vermelhinho. Até o fechamento deste texto, tanto o anúncio quanto os dados de operação aparecem na publicação do prefeito, sem confirmação independente da TVC.

Duas telas, uma estratégia

Lado a lado, as publicações formam um retrato com duas exposições. No Instagram, Quaquá fala a língua da emergência: virar, mobilizar, reagir. No Facebook, fala a da conquista: provou, mostrou o caminho, ganhou dimensão nacional. O prefeito que admite, em entrevista, que o discurso precisa mudar é o mesmo que, no post, empurra para o centro da campanha uma bandeira que ele próprio controla.

É coincidência que, no dia em que cobra mudança de discurso, ele escolha vender o produto de Maricá ao país? A TVC não responde por intenção alheia. Registra, com data, hora e fonte, o que o prefeito disse e como escolheu dizer.

Falta saber se a virada que ele anuncia cabe em ônibus vermelho ou em votos. A resposta não virá do reel nem do post. Virá das urnas, em 25 de outubro.