Algumas ditaduras tentam manter uma fachada de democracia, realizando eleições que, na maioria das vezes, são fraudadas ou limitadas a candidatos aprovados pelo regime. Exemplos como a Venezuela bolivariana ou a Rússia de Vladimir Putin ilustram essa realidade, onde a liberdade e a justiça eleitoral são meras ilusões.
Na Nicarágua, o cenário não era diferente. Daniel Ortega foi “reeleito” em 2021 em uma “disputa” marcada pela prisão de diversos candidatos da oposição, acusados de “traição à pátria”. Contudo, recentemente, o ditador decidiu abandonar de vez qualquer pretensão democrática.
Ele assumiu publicamente o que muitos já percebiam, revelando a verdadeira natureza de seu governo. Esta decisão choca a comunidade internacional e levanta questionamentos sobre os apoios que o regime recebeu ao longo dos anos, conforme informações divulgadas pela Gazeta do Povo.
O Fim da Farsa Democrática na Nicarágua
Em Manágua, capital do país, durante um evento que celebrava o aniversário da Revolução Sandinista, Daniel Ortega fez um anúncio impactante. Ele declarou que “aqui não haverá mais eleições para que eles [a oposição] não tentem tomar o governo, tomar o poder”, pondo fim a qualquer expectativa de pleito no país.
O próximo processo eleitoral, que já havia sido adiado para 2027 após uma reforma constitucional que estendeu o mandato presidencial, estava inicialmente previsto para o fim deste ano. A medida de Ortega elimina, assim, a última sombra de um processo democrático na Nicarágua.
A mesma reforma constitucional que adiou as eleições também consolidou os superpoderes do presidente-ditador. Ela reduziu o Legislativo e o Judiciário a meros “órgãos” do Estado, que agora são coordenados diretamente pelo Executivo, centralizando ainda mais o poder nas mãos de Daniel Ortega.
A Construção de um Regime Autoritário e os Laços com a Esquerda Latino-Americana
A ascensão e a consolidação de Daniel Ortega no poder não ocorreram isoladamente. Ele contou com a parceria de inúmeros outros líderes e organizações da esquerda latino-americana, uma rede de apoio que foi fundamental para a sustentação de seu regime autoritário.
Nessa lista, o ex-presidente Lula e o Partido dos Trabalhadores (PT) não são meros coadjuvantes. Pelo contrário, o histórico de apoio do petista ao regime nicaraguense é extenso e significativo, conforme evidenciado por diversas ações e declarações ao longo dos anos.
Às vésperas de uma eleição presidencial, Lula pode alegar um distanciamento de Ortega em 2024, após a expulsão mútua dos embaixadores de Brasil e Nicarágua. No entanto, é inegável que ele ajudou a criar o “monstro” e o apoiou até o momento em que se tornou insustentável.
O Apoio Explícito e a Tentativa de Censura
A “reeleição” de Ortega em 2021 foi celebrada pelo PT por meio de uma nota oficial, que foi posteriormente removida. Na sequência, o então pré-candidato Lula defendeu abertamente o fim da alternância de poder na Nicarágua, gerando controvérsia e questionamentos.
Lula chegou a comparar Ortega a líderes europeus que conquistaram várias reeleições em pleitos livres e justos, como a alemã Angela Merkel, a britânica Margaret Thatcher e o espanhol Felipe González. Tal comparação minimizou as graves violações democráticas na Nicarágua.
Durante a campanha de 2022, quando Ortega já começava a ser percebido como “tóxico” devido à perseguição ostensiva a cristãos, Lula tentou, e conseguiu, censurar publicações nas mídias sociais. Isso incluiu matérias da Gazeta do Povo que descreviam a aliança entre o brasileiro e o nicaraguense.
A Omissão Diplomática e a Continuidade dos Laços
Mesmo após o suposto rompimento diplomático em 2024, a solidariedade de Lula ao colega de esquerda persistiu em 2023. O petista se absteve de assinar uma declaração do Conselho de Direitos Humanos da ONU que denunciava os crimes cometidos por Ortega, uma ação que gerou críticas internacionais.
A diplomacia brasileira, conhecida por sua prontidão em emitir notas de repúdio e condenação em outras situações, tem mantido um silêncio notável, ou seja, uma omissão, diante de eventos preocupantes na Nicarágua. Um exemplo é o desaparecimento do bispo católico Juan Abelardo Mata, que já dura três semanas.
Além disso, o PT continua a ser parceiro da Frente Sandinista de Libertação Nacional, o grupo de Ortega, no Foro de São Paulo. Isso demonstra a persistência de laços ideológicos e políticos, mesmo diante das crescentes denúncias de autoritarismo na Nicarágua.
O afastamento de Lula de Ortega não parece ser motivado pelo esquerdismo ou pelo autoritarismo do nicaraguense, já que o petista continua a apoiar outros líderes socialistas ao redor do mundo. A real razão seria o alto custo político de defender um perseguidor de cristãos, em um país onde o eleitorado católico e evangélico é crucial.
Os laços que conectam Lula e o PT à construção e sustentação da ditadura de Daniel Ortega na Nicarágua são profundos e não podem ser ignorados. O eleitor brasileiro precisa considerar essas conexões ao se dirigir às urnas em outubro, avaliando o papel do Brasil nas dinâmicas políticas da América Latina.