QUANDO O DINHEIRO ENTRA NA AVENIDA…

Denúncia policial, R$ 30 milhões anunciados, proposta de casa e salário dobrado: o futuro do samba carioca nunca esteve tão ameaçado e nunca foi tão abertamente disputado no campo financeiro.

O Carnaval do Rio de Janeiro sempre foi uma guerra. De suor, de criatividade, de comunidade, de identidade. Escolas como Mangueira, Portela, Beija-Flor, Salgueiro e Imperatriz construíram suas histórias ao longo de décadas com sacrifício coletivo, cultura de raiz e um orgulho que nenhum cheque consegue fabricar.

Mas o que está acontecendo agora, nos dias que se seguiram à apuração da Série Ouro 2026, levanta uma pergunta que o mundo do samba precisa responder com urgência: até quando o mérito vai resistir à força do dinheiro público?

Não é retórica. É o que os fatos estão dizendo em boletim de ocorrência, em declarações públicas de prefeito e em denúncias formais feitas diante de câmeras, com nome, cargo e registros oficiais.

A DENÚNCIA QUE FOI À DELEGACIA.

Reginaldo Gomes, presidente da Inocentes de Belford Roxo, não ficou apenas nas redes sociais. Registrou boletim de ocorrência na Delegacia de Repressão às Ações Criminosas Organizadas (DRACO) e pediu investigação formal sobre a condução da apuração que rebaixou sua escola à Série Prata. Gravou vídeo na porta da delegacia, com o registro em mãos, e foi categórico: “Essa quadrilha que comanda o carnaval está com os dias contados.”

Em declarações públicas, Reginaldo descreveu uma engrenagem que funcionaria em camadas: dirigentes que circulam entre presidências de ligas e presidências de escolas, controle sobre julgamentos, escolas protegidas que não podem cair e um ambiente onde o silêncio seria imposto pelo medo de retaliação esportiva.

“Quando você cai de divisão, você cai em outra liga administrada pelo mesmo grupo. Com a esperança de não criar problema e tentar ascender de volta, eles acabam se calando”, afirmou. E completou: “A Inocente não vai se calar.”

O dirigente informou que levará o caso à Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, ao Ministério Público, à Câmara de Vereadores e defendeu publicamente a criação de uma CPI para investigar a LigaRJ. As acusações ainda serão objeto de apuração pelas autoridades competentes.

A LigaRJ negou as acusações e afirmou, em nota, que todas as decisões foram tomadas em assembleia com participação das escolas.

O QUE O PREFEITO DISSE E O QUE ISSO SIGNIFICA.

Enquanto a denúncia policial tramita, do outro lado do espelho o patrono da escola campeã fala abertamente sobre o futuro. E o que Washington Quaquá, prefeito de Maricá, está anunciando redesenha o mapa de poder do Carnaval carioca.

Após a vitória da Unidos de Maricá, Quaquá anunciou que poderá destinar até R$ 30 milhões ao projeto carnavalesco para o próximo desfile valor muito superior aos repasses tradicionais. As declarações refletem intenções anunciadas publicamente, não contratos formalizados até o momento.

Mais do que números, o discurso chama atenção pelo simbolismo. Quaquá afirmou que a passarela do samba passará por uma “revolução”, inaugurando uma “nova era” no Carnaval. A fala ecoou entre dirigentes de escolas tradicionais, que passaram a se perguntar se essa nova era será definida pela criatividade, pela história e pela identidade cultural ou pela capacidade de investimento financeiro de quem governa.

O prefeito também declarou que pretende contratar profissionais consagrados do samba oferecendo condições superiores às praticadas no mercado. Entre as estratégias anunciadas estão a intenção de dobrar salários de carnavalescos renomados e a oferta de uma casa em Maricá como parte da proposta para atrair talentos de escolas campeãs do Grupo Especial.

Dobrar salários já é um gesto de força. Oferecer moradia adiciona um componente simbólico e estrutural que ultrapassa a lógica artística e entra no campo do poder institucional.

A DÚVIDA QUE AS ESCOLAS TRADICIONAIS PRECISAM ENCARAR

Portela. Mangueira. Beija-Flor. Salgueiro. Imperatriz. Unidos do Viradouro. Escolas forjadas em décadas de comunidade, títulos e tradição.

Estão prontas para competir com um município que pode injetar dezenas de milhões de reais em uma única agremiação, oferecendo salários inflacionados, estrutura ampliada e benefícios que rivalizam com o mercado privado?

A questão não é romantizar o passado. É reconhecer a assimetria que se desenha. Enquanto escolas históricas dependem de patrocínios, subvenções limitadas e do esforço comunitário, surge um modelo em que um orçamento municipal passa a funcionar como principal motor competitivo.

Se esse modelo se consolidar, o Carnaval do Rio corre o risco de deixar de ser uma disputa entre comunidades para se transformar numa disputa entre prefeituras, entre cofres públicos, entre projetos políticos travestidos de enredo.

O FUTURO EM DISPUTA.

O Carnaval nunca foi ingênuo em relação ao dinheiro. Patrocínios e verbas públicas sempre existiram. O que se questiona é outra coisa: a possibilidade de uma competição cultural ser gradualmente colonizada por um projeto financeiro e político, usando dinheiro público como diferencial decisivo.

O que se desenha no horizonte é um Carnaval dividido entre dois mundos: de um lado, escolas moldadas pelo suor da comunidade; do outro, projetos sustentados por orçamentos públicos robustos e ambições declaradas. Um futuro onde o brilho pode ser substituído pela força do dinheiro.

CONCLUSÃO.

Reginaldo Gomes foi à DRACO. Um partido político acionou a Justiça. A imprensa faz as perguntas. O público reage.

Cabe agora às instituições responsáveis Ministério Público, Tribunal de Contas, Assembleia Legislativa e Câmara de Vereadores apurar com rigor o que está sendo denunciado antes que o maior espetáculo da Terra se transforme num jogo decidido fora da Avenida.

O Carnaval é grande demais para ser propriedade de quem tem mais dinheiro.
E a Sapucaí é sagrada demais para ser leiloada.

As declarações atribuídas a Washington Quaquá foram publicadas por veículos de imprensa regional e nacional. As informações sobre o boletim de ocorrência na DRACO e o pedido judicial foram noticiadas pela imprensa especializada. Nenhuma condenação judicial foi proferida contra as partes mencionadas até a publicação deste texto.