O padrão Quaquá: quando o dinheiro público vira escudo

Quaquá não aceita perder. Ou, mais precisamente, não aceita que a RioTur organize um Carnaval no qual a escola que ele patrocina com dinheiro público não vença.

Em 2025, foram destinados R$ 8 milhões do orçamento de Maricá para o desfile da União de Maricá, escola da qual o prefeito é presidente de honra. O resultado foi um 5º lugar na Série Ouro.

A reação veio rápida: Quaquá classificou a apuração como um “roubo à luz do dia”, atacou a organização do Carnaval e colocou sob suspeita o trabalho dos jurados.

Nenhuma autocrítica. Nenhuma avaliação pública sobre o retorno do investimento. A narrativa escolhida foi a da injustiça e da conspiração.

Agora, para 2026, o roteiro se repete em escala ampliada. Segundo denúncia já tornada pública, R$ 17 milhões foram empenhados** para a escola de samba mais que o dobro do valor anterior. O aumento ocorreu sem votação específica da Câmara, sem debate público aprofundado e sem explicações claras à população sobre critérios, metas ou retorno social do investimento.

A aposta é simples: **dessa vez tem que dar certo.

Mas a pergunta que precisa ser feita não é sobre o desfile. É sobre o padrão.

A pergunta inevitável

Se em 2026 a União de Maricá não conquistar o título, mesmo após um investimento público de R$ 17 milhões, qual será a narrativa?

Haverá o reconhecimento de que se ampliou o gasto com dinheiro público em um evento de alto risco competitivo e retorno incerto? Ou novamente a culpa será atribuída à RioTur, aos jurados, ao sistema, à política do Carnaval?

É legítimo investir em cultura. O que se questiona é a escala, a prioridade e a personalização desse investimento, especialmente em um município que enfrenta dificuldades na saúde, na atenção básica, na infraestrutura e no pagamento regular de servidores.

O padrão é recorrente

O comportamento segue uma lógica clara:

  1. Uso de grandes volumes de dinheiro público em um projeto ligado diretamente ao chefe do Executivo
  2. Criação de expectativa de vitória como validação do investimento
  3. Se vence, o resultado vira capital político e marketing pessoal
  4. Se perde, a responsabilidade é deslocada para terceiros, com acusações públicas de irregularidade

O resultado prático é sempre o mesmo:
Maricá não ganha o campeonato, não recebe explicações detalhadas e fica com a conta.

A questão central

Se houve “roubo à luz do dia”, como afirmou o próprio prefeito, o caminho é institucional: apresentação de provas aos órgãos competentes, Ministério Público, instâncias do Carnaval e autoridades responsáveis.

Sem isso, a acusação se transforma apenas em retórica para justificar um investimento malsucedido e preparar o terreno para novos aportes ainda maiores.

Em 2026, com R$ 17 milhões de recursos públicos envolvidos, a discussão deixa de ser Carnaval e passa a ser gestão, prioridade e responsabilidade com o dinheiro do contribuinte.

Se a vitória não vier, a pergunta não será mais sobre a RioTur.
Será sobre quem decidiu apostar tanto dinheiro público em um projeto pessoal e por quê.