Da Zona Portuária à orla do Leblon, dois episódios emblemáticos da gestão Eduardo Paes expõem como obras milionárias podem falhar e como o poder público responde a essas falhas
Dois episódios, separados por três anos, ocorridos em gestões distintas de um mesmo prefeito. Um no coração da Zona Portuária, outro na orla nobre da Zona Sul. Em comum: obras financiadas com dinheiro público, falhas que custaram caro uma, em reais; outra, em vidas humanas. E a mesma figura no centro do palco: o então prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes.
ACO QUE SOME E A PERGUNTA QUE FICOU SEM RESPOSTA
Em 2013, enquanto o Rio se preparava para sediar as Olimpíadas de 2016, seis vigas de aço especial “Corten” cada uma com aproximadamente 40 metros de comprimento e cerca de 20 toneladas simplesmente desapareceram da Zona Portuária.
O material havia sido retirado da demolição do Elevado da Perimetral no âmbito do projeto Porto Maravilha e levado para um terreno no bairro do Caju, onde deveria estar guardado. O aço do tipo Corten é uma liga nobre de aço, nióbio e cromo, e o conjunto das seis peças foi avaliado à época em cerca de 14 milhões de reais.
Em novembro de 2013, duas testemunhas relataram à polícia terem visto guindastes e maçaricos sendo usados para cortar o aço e carregá-lo em caminhões de mais de 20 metros uma operação logística de grande porte, em plena área com intensa atividade portuária. Nada discreto. E ainda assim, ninguém foi responsabilizado.
O então prefeito Eduardo Paes classificou o desaparecimento como “inacreditável” e declarou que a Concessionária Porto Novo, responsável pela guarda do material, teria obrigação de ressarcir a Prefeitura caso as peças não fossem encontradas: “Eles tinham a obrigação de tirar e guardar para a prefeitura. Isso é um absurdo, mas ninguém vai imaginar também que alguém ia roubar vigas com não sei quantas toneladas. O concessionário vai ter que pagar por isso”, disse o prefeito.
A versão oficial encerrou o caso sem maiores danos aos cofres públicos: o Consórcio Porto Novo formado pelas empreiteiras Odebrecht, OAS e Carioca Engenharia, então responsável pela vigilância das vigas ressarciu a Prefeitura pelo valor do material desaparecido. Financeiramente, o poder público disse que saiu no zero. Mas o inquérito policial aberto para investigar o furto seguiu, segundo apuração da Agência Pública publicada em 2016, sem conclusão anos depois do ocorrido e os responsáveis pelo furto nunca foram identificados publicamente.
Há um detalhe, registrado pela mesma investigação, que gerou desconforto: logo após a implosão da Perimetral, o próprio prefeito Eduardo Paes teria levado um fragmento de uma das vigas a sexta, de 25 metros para os Jardins da Gávea Pequena, residência oficial da Prefeitura, onde o pedaço passou a repousar como obra de arte. Paes teria declarado que encontraria uma forma de devolvê-lo à cidade
No total, foram 120 toneladas de aço retiradas do antigo Elevado da Perimetral. O desaparecimento ocorreu entre junho e agosto de 2013 em um terreno localizado no bairro do Caju, na Zona Portuária do Rio de Janeiro.
O sumiço ficou tão marcado na memória coletiva que no Carnaval de 2014, uma das marchinhas vencedora do Concurso Nacional trazia o refrão: “Senhor prefeito, não é intriga. Aonde foi que enfiaram aquela viga?”
Não por acaso: em delação posterior da empreiteira Carioca Engenharia uma das integrantes do próprio Consórcio Porto Novo foi revelado pagamento de propina envolvendo as obras do Porto Maravilha, o mesmo programa no qual as vigas desapareceram.
A CICLOVIA QUE DUROU TRÊS MESES — E LEVOU DUAS VIDAS…
Se no caso das vigas o prejuízo foi contabilizado em reais e formalmente ressarcido, no segundo episódio o custo foi irreparável.
Em janeiro de 2016, com uma lesão no pé, o prefeito Eduardo Paes inaugurou o primeiro trecho da Ciclovia Tim Maia, de 3,9 quilômetros, percorrendo-o em um triciclo elétrico.
A obra custou, segundo informações da época, mais de R$ 40 milhões de reais e prometia conectar por ciclovias parte da orla carioca, do Leblon à Barra da Tijuca, passando por costões de pedra sobre o Oceano Atlântico.
A alegria durou três meses.
No feriado de 21 de abril de 2016, a ciclovia Tim Maia desabou três meses após a inauguração do trecho que ligava o Leblon a São Conrado, na Zona Sul do Rio, causando a morte de duas pessoas. Uma obra pública, recém-entregue pelo poder público com toda a pompa de uma inauguração olímpica, transformou-se em armadilha mortal em menos de noventa dias.
A apuração técnica que se seguiu foi devastadora. O Conselho Regional de Engenharia e Agronomia do Rio de Janeiro (Crea-RJ) constatou uma série de irregularidades e descumprimentos de normas de segurança e de licitação, apontando como causa do desabamento a falta de estudos oceanográficos nos projetos básico e executivo.
Em linguagem direta: a obra foi construída sobre o mar sem que os responsáveis tivessem estudado adequadamente o comportamento das ondas naquele trecho.
O Crea também identificou indícios de falta de ética no exercício profissional, uma vez que não foram verificados registros da ART de Projeto Básico, do orçamento da obra e da fiscalização pelo contratante e órgão de controle.
A Justiça reagiu. A sentença de primeiro grau apontou que os réus “negligenciaram o estudo oceanográfico e costeiro e levaram adiante, ainda assim, a obra até então inédita, edificada às cegas do ponto de vista da hidráulica marítima e costeira”, cooperando entre si para o crime cujo desfecho foi o desabamento seguido de morte. Quinze profissionais foram condenados em primeira instância.
Mas o desfecho jurídico trouxe nova frustração. Em 2023, o Tribunal de Justiça do Rio absolveu 14 dos profissionais envolvidos na fiscalização e na execução da ciclovia, revertendo as condenações de primeira instância. As famílias das duas vítimas seguem sem uma responsabilização penal definitiva.
O histórico da obra não parou nas duas mortes. Em pouco mais de três anos após a inauguração, a Ciclovia Tim Maia acumulou quatro desabamentos no total, ficando mais tempo interditada do que aberta ao público. Relatórios técnicos apontaram graves falhas na concretagem da via e o material usado na estrutura foi classificado como ruim por empresa especializada.
O CONTEXTO QUE NÃO PODE SER IGNORADO…
Os dois episódios não existem no vácuo. Inserem-se num quadro mais amplo de questionamentos sobre a gestão dos megaeventos e das grandes obras no Rio de Janeiro sob o comando de Eduardo Paes.
Um ex-executivo da Odebrecht acusou o ex-prefeito de ter recebido R$ 15 milhões em troca de facilitar contratos relacionados aos Jogos Olímpicos acusação que Paes sempre negou.
O Ministério Público do Rio de Janeiro o denunciou por suposto recebimento de R$ 10,8 milhões da Odebrecht via caixa 2 na eleição de 2012, e a denúncia foi recebida pela Justiça Eleitoral.
Paes foi investigado, mas não foi condenado em relação aos megaeventos. Hoje, após renunciar à Prefeitura do Rio em março de 2026, ele disputa o governo do estado do Rio de Janeiro levando consigo um histórico que, para parte dos eleitores, é legado de modernização urbana, e para outra parte, é rastro de obras que sumiram, quebraram ou mataram.
As perguntas que os dois episódios deixam são simples e ainda estão no ar: quem fiscalizava? Quem aprovou? E quem responde quando o dinheiro público se perde ou quando o concreto cede e leva consigo vidas inocentes?
A TVC Maricá aguarda posicionamento da assessoria de Eduardo Paes sobre os dois episódios. O espaço para resposta está aberto.