Operação Rejeito expõe a ganância que devasta a Serra: esquema bilionário ameaçava Mata Atlântica e recursos hídricos

Juiz de Fora / Minas Gerais — A Operação Rejeito, deflagrada pela Polícia Federal na manhã desta quarta-feira (17), escancarou um esquema bilionário que transformava licenciamentos ambientais em mercadoria e colocava em risco frágeis ecossistemas da Serra da Mantiqueira.

Foram cumpridos 79 mandados e realizadas 22 prisões, entre elas a de líderes apontados como articuladores de uma rede que movimentava, segundo a apuração, projetos avaliados em cerca de R\$ 18 bilhões; bens foram bloqueados em torno de R\$ 1,5 bilhão e cerca de R\$ 3 milhões foram identificados como pagamento de propinas a agentes públicos.

O nome que personifica o esquema é Alan Cavalcante do Nascimento, apontado pela PF como líder da organização e sócio de dezenas de empresas.

Entre as empresas sob seu controle aparece a Serra Negra Empreendimentos Imobiliários, registrada em Juiz de Fora e ligada a projetos de ecoturismo na região atividades agora suspensas por determinação judicial enquanto a PF aprofunda as investigações.

A apuração local revela ainda histórico de autos por captação irregular de água e desmatamento em áreas sensíveis, sinais de uma prática predatória repetida.

O alvo da cobiça não poderia ser mais sensível: o Parque Estadual Serra Negra da Mantiqueira, unidade de conservação que abriga campos rupestres, matas de altitude e espécies endêmicas da Mata Atlântica uma área-chave para a manutenção de nascentes e serviços hídricos que abastecem municípios da Zona da Mata.

Intervenções mal licenciadas, abertura de vias, supressão de vegetação e movimentação de solo nessa paisagem acarretam efeitos imediatos e prolongados sobre solo, água e biodiversidade.

Impactos ambientais potenciais e riscos ao ecossistema

Com base nas irregularidades apuradas e em estudos sobre impactos da mineração no Brasil, os riscos concretos decorrentes de um esquema desse tipo incluem:

Contaminação de cursos d’água e lençóis freáticos: processos de mineração e áreas de beneficiamento frequentemente liberam metais pesados e substâncias tóxicas (mercurio, cianeto, outros) que se acumulam na cadeia alimentar e afetam consumo humano e fauna aquática.

Casos históricos mostram efeitos duradouros na saúde e no ambiente.

Assoreamento e perda de qualidade da água: movimentação de terra e rejeitos aumentam a carga de sedimentos nos rios, reduzindo capacidade de armazenamento e prejudicando espécies que dependem de águas claras e de regime hídrico estável.

Isso compromete o abastecimento de comunidades e a agricultura local.

Destruição de habitat e extinção local de espécies: o Parque Serra Negra abriga flora e fauna adaptadas a ambientes de altitude; remoções de vegetação e fragmentação provocam perda de recursos tróficos e corredores ecológicos, acelerando declínio de populações sensíveis.

Erosão, instabilidade de encostas e risco geológico: obras e retirada de cobertura vegetal aumentam risco de deslizamentos, especialmente em áreas de relevo íngreme, com consequências para infraestrutura e vida humana.

Impacto socioeconômico e turístico: projetos de “ecoturismo” usados como fachada para empreendimentos predatórios comprometem a economia local sustentável (pequenos produtores, turismo) e a confiança da população nas instituições que deveriam proteger unidades de conservação.

O que a investigação precisa esclarecer e o que a sociedade deve exigir

A PF diz que irá detalhar o papel de cada empresa na engrenagem criminosa; o ponto central é decifrar até que ponto projetos apresentados como “sustentáveis” inclusive com investimento estrangeiro serviram de tela para desvio, fraude de licenciamento e destruição ambiental.

É preciso, na sequência das prisões, que o Ministério Público e os órgãos ambientais promovam: perícias independentes em áreas atingidas, levantamento dos danos já causados às bacias e fauna, monitoramento de qualidade da água e recuperação ambiental com participação das comunidades afetadas.

A TVC seguirá acompanhando a apuração e exige: transparência total das investigações, responsabilização efetiva Aministrativa, civil e criminal dos envolvidos, e medidas imediatas de contenção e recuperação ambiental.

O país não pode permitir que a ganância transforme áreas de preservação em bilhetes premiados de um esquema que lucra com a destruição da natureza e a perda do bem comum.

Perguntas que aguardam resposta

Para a Polícia Federal

  1. Quais são os cargos e atribuições dos 22 presos; qual a participação direta atribuída a Alan Cavalcante do Nascimento?
  2. Quais empresas, especificamente, estão sendo investigadas e qual o papel de cada uma na cadeia de fraudes (licenciamento, intermediação, beneficiamento, etc.)?
  3. Quais foram os critérios usados para determinar o bloqueio de bens de R\$ 1,5 bilhão e como esse bloqueio será revertido em reparação ambiental?
  4. Há indícios concretos de exportação de minérios ou remessa de recursos ao exterior envolvendo parceiros estrangeiros?
  5. A PF identificou locais e coordenadas precisas de áreas de exploração irregular que demandem perícia ambiental imediata?

Para o Instituto Estadual de Florestas / órgão ambiental estadual (IEF ou equivalente)

  1. Há registros prévios de autos de infração, termos de embargo ou notificações relacionadas às empresas citadas na operação? Fornecer datas e autos.
  2. Quais áreas do Parque Estadual Serra Negra da Mantiqueira foram licenciadas para qualquer atividade e quais processos de licenciamento existem no sistema (nº dos processos)?
  3. Existe ordem administrativa de suspensão, embargo ou liminar relacionada às obras/projetos nas áreas afetadas? Enviar cópias.
  4. Quais perícias ambientais emergenciais serão solicitadas (qual a equipe técnica e o cronograma sugerido)?
  5. Que medidas imediatas de proteção a nascentes, cursos d’água e fauna foram adotadas desde a deflagração da operação?

Para o Ministério Público / Promotoria Ambiental.

  1. O MP pretende requerer perícia independente e quais laboratórios ou institutos serão indicados?
  2. Haverá pedido de medidas cautelares ambientais (interdição, reserva técnica, reintegração de posse preventiva)?
  3. Quais procedimentos serão adotados para garantir participação das comunidades locais e transparência dos resultados?
  4. Quais medidas de ressarcimento socioambiental o MP pretende exigir (fianças ambientais, recuperação ecológica, compensações)?

Para a defesa / representantes legais citados

  1. A defesa tem manifestação sobre as acusações e sobre o bloqueio de bens?
  2. Há documentos que comprovem supostas atividades de ecoturismo em conformidade com legislação ambiental?
  3. A empresa possui estudos de impacto ambiental (EIA/RIMA) e licenças válidas se sim, fornecer cópias e processos.

“A TVC reitera que o espaço segue aberto para manifestação dos órgãos e da defesa dos citados, considerando que a sociedade tem direito à plena transparência sobre os fatos.”