POPULAÇÃO DE MARICÁ CLAMA PELA JUSTIÇA DIVINA PORQUE A DA TERRA ESTÁ INDIFERENTE…

Por Ricardo Cantarelle

Covardia. A palavra não é da reportagem é do morador que gravou, sozinho e com a voz embargada, o retrato mais cru do abandono que Maricá insiste em maquiar de cidade rica. Nesta sexta-feira (22), enquanto o pai dele deveria estar sentado numa poltrona de hemodiálise em Niterói, ficou em casa. Sem transporte. Sem explicação. Sem satisfação de ninguém.

“O que está acontecendo? Prefeito Washington Quaquá, secretário de Saúde Marcelo Velho, vereadores de Maricá, todos vocês, não tiro nenhum: o que vocês estão fazendo com a população?”, desabafou o morador, em vídeo que circula pelas redes sociais e que a TVC apura com atenção.

Segundo o relato, o pai dele é um dos pacientes renais crônicos que dependem de transporte público para atravessar a Baía de Guanabara três vezes por semana porque a cidade que se vende como polo de inovação, aeroporto internacional e parque tecnológico ainda não consegue fazer funcionar uma clínica de diálise dentro dos seus próprios limites.

Uma clínica de presépio

A comparação do morador é cirúrgica: “É igual vaca de presépio. Está lá, bonita, para todo mundo que passa de fora ver que aqui existe uma clínica.” Não é força de expressão. O Centro de Hemodiálise do Hospital Municipal Dr. Ernesto Che Guevara foi inaugurado com pompa em 26 de maio de 2026 fita cortada, discurso sobre “avanço histórico”, homenagem a Ronete de Souza Dias, a “Nete da Mumbuca”. Trinta e duas estações de tratamento, equipamento de ponta, capacidade projetada para mais de duas mil sessões por mês.

Três meses depois, a unidade segue de portas fechadas. Reportagens da BandNews FM e do portal LSM, ao longo de junho e julho, já registravam pacientes relatando saídas de madrugada “quatro horas da manhã, chegando ao meio-dia sem ter o que comer” para fazer o tratamento em Niterói, São Gonçalo e Itaboraí, porque a liberação da Vigilância Sanitária Estadual, segundo a própria Prefeitura, nunca veio. Até hoje, 22 de agosto, nenhuma data de funcionamento foi apresentada à população. A cerimônia de inauguração, dizem os relatos colhidos por outras redações locais, foi tratada por moradores como “mímica”: entregaram a obra, não entregaram o serviço.

O vereador com a mala cheia de provas

Não é a primeira vez que a saúde de Maricá vira palco de indignação pública. Em maio, o vereador Chiquinho (PL), da Comissão de Saúde da Câmara Municipal, levou ao plenário uma mala de viagem literal cheia de mais de mil registros de reclamações de usuários do SUS municipal. “Isso aqui tudo é denúncia, tudo com prova”, declarou, diante do secretário Marcelo Velho. Faltava dipirona, faltavam cerca de 22 tipos de remédios nos postos, faltava insulina para diabéticos. “A saúde de Maricá não está ruim, não. A saúde de Maricá está péssima”, resumiu o parlamentar, numa frase que passou a ecoar entre os moradores como sentença.

Chiquinho também protocolou pedido de CPI para investigar a atuação da Cempes, Organização Social responsável pela gestão de unidades de saúde da cidade, apontando contratações sem processo seletivo e falhas recorrentes de manutenção.

Segundo apurou a reportagem junto a veículos locais, o vereador tem cobrado publicamente inclusive de deputados estaduais mais agilidade na liberação de recursos e documentos que travam a plena operação de estruturas já entregues fisicamente, como é o caso do próprio Centro de Hemodiálise.

A TVC apura os detalhes exatos dessa cobrança e busca confirmar, com documentação, se há responsabilidade direta atribuída às deputadas e deputados que hoje circulam pelos bairros da cidade em campanha.

Dinheiro há. E sobra até para avião.

É aqui que o clamor do morador deixa de ser desabafo e vira acusação política. A Codemar não é uma empresa qualquer, desvinculada do gabinete do prefeito é uma autarquia municipal cuja presidência é indicada diretamente por Washington Quaquá, e cujo direcionamento orçamentário responde, em última instância, às prioridades definidas pelo próprio Executivo municipal. Não existe, portanto, blindagem institucional: quando a Codemar assina, é a Prefeitura de Maricá que assina, e é o prefeito quem responde pelas escolhas de para onde vai o dinheiro público da cidade.

E as escolhas, nesse caso, saltam aos olhos. Enquanto o Centro de Hemodiálise segue fechado há quase três meses, a mesma estrutura de poder que comanda a cidade mantém, através da Codemar, contratos milionários voltados à aviação como o acordo de R$ 32 milhões firmado com a Desaer para desenvolvimento aeronáutico e formação de pilotos e mecânicos no Galpão Tecnológico de Inoã.

Trinta e dois milhões de reais para fazer a cidade decolar no setor aeroespacial, diz o discurso oficial. Enquanto isso, no chão, pacientes renais crônicos decolam de madrugada rumo a Niterói porque a própria cidade não consegue destravar uma sala de diálise já entregue e equipada. A TVC apura o detalhamento completo da execução orçamentária da Codemar para confirmar, contrato a contrato, o tamanho exato dessa distorção de prioridades mas o retrato já é elocuente: dinheiro público há, e não é pouco. Falta é ele chegar a quem depende de uma máquina para continuar respirando.

Um homem da lei, indiferente à lei da vida

E se a omissão municipal já seria grave em qualquer circunstância, ela ganha um peso simbólico ainda maior neste momento específico do estado do Rio de Janeiro.

O Palácio Guanabara é ocupado, hoje, por um desembargador Ricardo Couto de Castro, presidente do Tribunal de Justiça do Rio, que assumiu o governo interinamente após a saída de Cláudio Castro. Um homem formado para interpretar e fazer cumprir a lei comanda o estado enquanto, a poucos quilômetros da capital, moradores de Maricá gravam vídeos suplicando por um direito que a própria Constituição garante: o acesso à saúde. Se a Justiça da terra encarnada, neste momento histórico, literalmente por um magistrado no comando do Executivo estadual permanece silenciosa diante do sofrimento de pacientes renais abandonados à própria sorte, resta à população recorrer ao apelo que abre esta reportagem: a Justiça Divina, porque a terrena, por ora, está indiferente.

A reportagem da TVC solicita formalmente esclarecimentos à Prefeitura de Maricá, à Secretaria Municipal de Saúde, à Codemar e aos gabinetes dos parlamentares citados nos relatos colhidos.

Qualquer posicionamento oficial será incorporado a esta matéria assim que recebido, conforme os critérios de transparência e edição em tempo real que orientam o trabalho da TVC desde 2007.

Enquanto isso, o morador de Maricá segue esperando. Como esperou seu pai, nesta sexta-feira, por um transporte que não veio. Como espera, há três meses, por uma clínica que já foi inaugurada duas vezes uma para as câmeras, outra que talvez nunca aconteça para quem, de fato, precisa dela.

A TVC seguirá acompanhando o caso e ouvirá todas as partes mencionadas nesta reportagem.

Por Ricardo Cantarelle

Covardia. A palavra não é da reportagem é do morador que gravou, sozinho e com a voz embargada, o retrato mais cru do abandono que Maricá insiste em maquiar de cidade rica. Nesta sexta-feira (22), enquanto o pai dele deveria estar sentado numa poltrona de hemodiálise em Niterói, ficou em casa. Sem transporte. Sem explicação. Sem satisfação de ninguém.

“O que está acontecendo? Prefeito Washington Quaquá, secretário de Saúde Marcelo Velho, vereadores de Maricá, todos vocês, não tiro nenhum: o que vocês estão fazendo com a população?”, desabafou o morador, em vídeo que circula pelas redes sociais e que a TVC apura com atenção.

Segundo o relato, o pai dele é um dos pacientes renais crônicos que dependem de transporte público para atravessar a Baía de Guanabara três vezes por semana porque a cidade que se vende como polo de inovação, aeroporto internacional e parque tecnológico ainda não consegue fazer funcionar uma clínica de diálise dentro dos seus próprios limites.

Uma clínica de presépio

A comparação do morador é cirúrgica: “É igual vaca de presépio. Está lá, bonita, para todo mundo que passa de fora ver que aqui existe uma clínica.” Não é força de expressão. O Centro de Hemodiálise do Hospital Municipal Dr. Ernesto Che Guevara foi inaugurado com pompa em 26 de maio de 2026 fita cortada, discurso sobre “avanço histórico”, homenagem a Ronete de Souza Dias, a “Nete da Mumbuca”. Trinta e duas estações de tratamento, equipamento de ponta, capacidade projetada para mais de duas mil sessões por mês.

Três meses depois, a unidade segue de portas fechadas. Reportagens da BandNews FM e do portal LSM, ao longo de junho e julho, já registravam pacientes relatando saídas de madrugada “quatro horas da manhã, chegando ao meio-dia sem ter o que comer” para fazer o tratamento em Niterói, São Gonçalo e Itaboraí, porque a liberação da Vigilância Sanitária Estadual, segundo a própria Prefeitura, nunca veio. Até hoje, 22 de agosto, nenhuma data de funcionamento foi apresentada à população. A cerimônia de inauguração, dizem os relatos colhidos por outras redações locais, foi tratada por moradores como “mímica”: entregaram a obra, não entregaram o serviço.

O vereador com a mala cheia de provas

Não é a primeira vez que a saúde de Maricá vira palco de indignação pública. Em maio, o vereador Chiquinho (PL), da Comissão de Saúde da Câmara Municipal, levou ao plenário uma mala de viagem literal cheia de mais de mil registros de reclamações de usuários do SUS municipal. “Isso aqui tudo é denúncia, tudo com prova”, declarou, diante do secretário Marcelo Velho. Faltava dipirona, faltavam cerca de 22 tipos de remédios nos postos, faltava insulina para diabéticos. “A saúde de Maricá não está ruim, não. A saúde de Maricá está péssima”, resumiu o parlamentar, numa frase que passou a ecoar entre os moradores como sentença.

Chiquinho também protocolou pedido de CPI para investigar a atuação da Cempes, Organização Social responsável pela gestão de unidades de saúde da cidade, apontando contratações sem processo seletivo e falhas recorrentes de manutenção.

Segundo apurou a reportagem junto a veículos locais, o vereador tem cobrado publicamente inclusive de deputados estaduais mais agilidade na liberação de recursos e documentos que travam a plena operação de estruturas já entregues fisicamente, como é o caso do próprio Centro de Hemodiálise.

A TVC apura os detalhes exatos dessa cobrança e busca confirmar, com documentação, se há responsabilidade direta atribuída às deputadas e deputados que hoje circulam pelos bairros da cidade em campanha.

Dinheiro há. E sobra até para avião.

É aqui que o clamor do morador deixa de ser desabafo e vira acusação política. A Codemar não é uma empresa qualquer, desvinculada do gabinete do prefeito é uma autarquia municipal cuja presidência é indicada diretamente por Washington Quaquá, e cujo direcionamento orçamentário responde, em última instância, às prioridades definidas pelo próprio Executivo municipal. Não existe, portanto, blindagem institucional: quando a Codemar assina, é a Prefeitura de Maricá que assina, e é o prefeito quem responde pelas escolhas de para onde vai o dinheiro público da cidade.

E as escolhas, nesse caso, saltam aos olhos. Enquanto o Centro de Hemodiálise segue fechado há quase três meses, a mesma estrutura de poder que comanda a cidade mantém, através da Codemar, contratos milionários voltados à aviação como o acordo de R$ 32 milhões firmado com a Desaer para desenvolvimento aeronáutico e formação de pilotos e mecânicos no Galpão Tecnológico de Inoã.

Trinta e dois milhões de reais para fazer a cidade decolar no setor aeroespacial, diz o discurso oficial. Enquanto isso, no chão, pacientes renais crônicos decolam de madrugada rumo a Niterói porque a própria cidade não consegue destravar uma sala de diálise já entregue e equipada. A TVC apura o detalhamento completo da execução orçamentária da Codemar para confirmar, contrato a contrato, o tamanho exato dessa distorção de prioridades mas o retrato já é elocuente: dinheiro público há, e não é pouco. Falta é ele chegar a quem depende de uma máquina para continuar respirando.

Um homem da lei, indiferente à lei da vida

E se a omissão municipal já seria grave em qualquer circunstância, ela ganha um peso simbólico ainda maior neste momento específico do estado do Rio de Janeiro.

O Palácio Guanabara é ocupado, hoje, por um desembargador Ricardo Couto de Castro, presidente do Tribunal de Justiça do Rio, que assumiu o governo interinamente após a saída de Cláudio Castro. Um homem formado para interpretar e fazer cumprir a lei comanda o estado enquanto, a poucos quilômetros da capital, moradores de Maricá gravam vídeos suplicando por um direito que a própria Constituição garante: o acesso à saúde. Se a Justiça da terra encarnada, neste momento histórico, literalmente por um magistrado no comando do Executivo estadual permanece silenciosa diante do sofrimento de pacientes renais abandonados à própria sorte, resta à população recorrer ao apelo que abre esta reportagem: a Justiça Divina, porque a terrena, por ora, está indiferente.

A reportagem da TVC solicita formalmente esclarecimentos à Prefeitura de Maricá, à Secretaria Municipal de Saúde, à Codemar e aos gabinetes dos parlamentares citados nos relatos colhidos.

Qualquer posicionamento oficial será incorporado a esta matéria assim que recebido, conforme os critérios de transparência e edição em tempo real que orientam o trabalho da TVC desde 2007.

Enquanto isso, o morador de Maricá segue esperando. Como esperou seu pai, nesta sexta-feira, por um transporte que não veio. Como espera, há três meses, por uma clínica que já foi inaugurada duas vezes uma para as câmeras, outra que talvez nunca aconteça para quem, de fato, precisa dela.

A TVC seguirá acompanhando o caso e ouvirá todas as partes mencionadas nesta reportagem.