QUAQUÁ USA XINGAMENTO PRECONCEITUOSO CONTRA GAROTINHO: AMOR É LIVRE..

Por Ricardo Cantarelle

A troca de vídeos entre o prefeito de Maricá, Washington Quaquá, e o ex-governador Anthony Garotinho ganhou nesta quinta-feira (30) um novo e pesado capítulo. Cobrado sobre a inação da Polícia Federal no município, o prefeito não respondeu ao mérito. Respondeu com xingamento e insinuação preconceituosa.

Tudo começou com o vídeo publicado por Garotinho, gravado em tom sóbrio, com bandeiras do Brasil e do Rio de Janeiro ao fundo. Na peça, fixada com a pergunta “Porque a PF não vem logo em Maricá? Proteção de Brasília?”, o ex-governador não se limita a insinuar: ele constrói a acusação em cima do próprio comportamento de Quaquá.

Para Garotinho, a rotina do prefeito viagens internacionais recorrentes, como a ida a Punta del Este em abril, e a manutenção do cargo mesmo em meio a uma sequência de apurações que incluem suspeitas de irregularidades bilionárias em contratos e o desvio de recursos de saúde apontado na Operação Salus é, por si só, prova de blindagem. A leitura do ex-governador é direta: quem enfrentasse o mesmo volume de denúncias sem proteção política já estaria respondendo a inquérito federal, não posando em resort no exterior.

O vídeo se encerra com um recado que soa como ameaça velada. Segundo apurou a TVC, Garotinho fecha a fala olhando fixamente para a câmera e diz: “Quaquá, Quaquá, seu dia vai chegar.” A frase, curta e seca, rompe o tom político-institucional do restante do discurso e escala o embate para um terreno mais pessoal um aviso que o próprio Garotinho parece fazer questão de deixar em aberto quanto ao significado.

A resposta de Quaquá não tardou. Em vídeo-meme publicado horas depois, o prefeito chamou o ex-governador de “ladrão”, “responsável pela criação das milícias do Rio”, “chifrudo”, “vagabundo” e “bandido” e arrematou chamando-o de “moça barranqueira”. A montagem ironiza o apelido “penta” da seleção brasileira para estampar uma falsa “ficha criminal” com cinco prisões marcadas como “confirmada”, reciclando o histórico judicial de Garotinho como piada, sem qualquer menção à pergunta que motivou a resposta.

É a escolha da palavra “moça” como ofensa que mais chama atenção. Usar feminilidade como xingamento, na mesma legenda em que se acusa o adversário de covardia, reproduz uma lógica que trata “ser mulher” ou “ser gay” como motivo de vergonha ou fraqueza. Não é.

O amor é livre, e ninguém deveria precisar provar orientação ou comportamento para escapar de humilhação pública movida por um prefeito.

Não é a primeira vez que Quaquá recorre a esse tipo de ataque: em abril, na crise da viagem ao Uruguai, ele já havia chamado Garotinho de “chifrudo” outro insulto mirando virilidade e vida pessoal em vez do fato político em disputa.

O incômodo é maior justamente pelo lugar de onde vem a fala. Quaquá é filiado ao PT, partido que reivindica publicamente bandeiras de diversidade e combate à LGBTfobia como parte de sua identidade programática. Um prefeito desse campo recorrendo a insinuação sobre sexualidade como arma contra adversário político escancara a distância entre o discurso institucional do partido e a prática de um de seus principais quadros na Região Metropolitana.

A TVC apura se há manifestação de entidades ou coletivos LGBTQIA+ da região sobre a fala, e se o PT-RJ vai se posicionar.

No fim, restam duas perguntas sem resposta.

A primeira, que motivou toda a sequência: por que a Polícia Federal não avança sobre as denúncias que pesam há meses sobre a administração de Maricá.

A segunda, deixada no ar pelo próprio Garotinho: o que exatamente significa dizer a um prefeito em exercício que “seu dia vai chegar”.

A reportagem tentou contato com as assessorias de Washington Quaquá e de Anthony Garotinho, mas não obteve retorno até o fechamento desta edição.