Queijo Ralado: O Mercado Disputado que Desafia a Lógica do Consumidor e Busca Valor

Um Gigante Subestimado na Cadeia Láctea

O mercado brasileiro de queijo ralado é um colosso silencioso, movimentando cerca de 25 mil toneladas anualmente e consolidando-se como um dos segmentos mais competitivos da indústria de laticínios. No entanto, por trás da sua presença onipresente nas gôndolas, o setor lida com uma complexa teia de desafios que envolvem rentabilidade, a forma como o consumidor percebe o valor do produto e a constante necessidade de inovar para se destacar.

Angelo Sartor, CEO da RAR Agro & Indústria, descreve o cenário como um campo de batalha acirrado. “É um mercado extremamente disputado. Os volumes são significativos, praticamente todo mundo consome queijo ralado. Existem os líderes nacionais, mas também muitas marcas regionais atuando nesse segmento”, afirma. Essa intensa concorrência, que abrange desde gigantes nacionais até empresas regionais, molda a dinâmica do setor.

A Contradição do Preço e a Realidade da Produção

Uma das maiores ironias do mercado de queijo ralado é a percepção equivocada do consumidor quanto ao seu preço. Contrariando a intuição de que um produto processado deveria ser mais barato, o queijo ralado frequentemente é comercializado por valores inferiores aos do queijo em pedaços. Sartor explica que essa visão é um equívoco.

“O consumidor costuma acreditar que o queijo ralado deveria custar menos do que uma fração de queijo. Mas a realidade é justamente o contrário”, pontua o executivo. A produção de queijo ralado tradicional envolve um processo industrial que adiciona custos e, paradoxalmente, reduz o rendimento da matéria-prima. Para transformar um queijo em pó, ele passa por um processo de desidratação, que visa aumentar sua vida útil e permitir a comercialização em temperatura ambiente. “Quando retiramos a umidade, ocorre uma perda de aproximadamente 15% da massa original. Ou seja, você pega 100 gramas de queijo e transforma em cerca de 85 gramas antes de embalar o produto”, detalha Sartor. Essa perda de massa, somada aos custos de processamento e embalagem, torna o custo por grama do queijo ralado superior ao do queijo original. A forte competitividade do mercado, porém, forçou os preços para baixo ao longo dos anos, criando essa distorção na percepção de valor.

Estratégias de Diferenciação: Do Frescor ao Premium

Diante desse cenário, as empresas têm buscado incessantemente estratégias para agregar valor e se diferenciar. Uma das apostas recentes tem sido o desenvolvimento de versões premium e refrigeradas do queijo ralado, que dispensam a desidratação e buscam replicar a experiência de um queijo recém-ralado. A própria RAR tem investido nesse conceito com seu queijo ralado fresco.

“As características são as mesmas de quando você pega uma fração de queijo e rala na hora sobre o prato. O produto mantém mais sabor, mais frescor e entrega uma experiência diferenciada ao consumidor”, descreve Sartor. Contudo, essa inovação traz um novo desafio: a mudança de hábito do consumidor. Produtos frescos exigem refrigeração, o que os afasta das prateleiras tradicionais onde o queijo ralado convencional é encontrado. “O consumidor está acostumado a procurar queijo ralado na prateleira. Quando ele passa para a área refrigerada, existe uma mudança de comportamento que leva tempo para ser assimilada”, observa.

O Futuro Dividido: Volume e Valor Agregado

A busca por diferenciação no mercado de queijo ralado reflete uma tendência maior na indústria de alimentos, onde a competição não se baseia apenas em volume, mas também em qualidade, origem dos ingredientes e experiências de consumo mais sofisticadas. Para empresas como a RAR, posicionadas no segmento premium, essa estratégia visa fidelizar um consumidor que reconhece e valoriza atributos específicos.

Apesar das margens potencialmente menores em comparação com queijos fracionados, o queijo ralado continua sendo um produto estratégico. Ele amplia a presença das marcas no ponto de venda, fortalece o relacionamento com o consumidor e pode servir como porta de entrada para outros produtos da linha. A ampla distribuição nacional e a capacidade de otimizar estruturas logísticas também reforçam sua importância. O crescimento do consumo de produtos premium abre novas avenidas para o segmento, com consumidores cada vez mais dispostos a investir em qualidade e diferenciação. Sartor vislumbra um futuro onde o mercado continuará abrigando tanto produtos de massa quanto opções voltadas a consumidores que buscam atributos específicos. “O mercado continuará tendo espaço para produtos de massa, mas também para aqueles consumidores que buscam qualidade, sabor e uma experiência diferenciada. É nesse segmento que nós acreditamos e continuamos investindo”, conclui.