ROBSON GIORNO: SEIS ANOS DE MISTÉRIO E UM PASSO DECISIVO NA JUSTIÇA…

Uma vida dedicada à denúncia que custou caro

Maricá acordou, em 25 de maio de 2019, com uma notícia que chocou a cidade. O jornalista Robson Giorno estava morto. Executado a tiros na frente de casa, enquanto chegava ao seu domicílio no bairro do Boqueirão. Robson tinha 45 anos.

Era jornalista, empresário, advogado e, acima de tudo, um profissional incômodo.

Proprietário do Jornal O Maricá, Robson não era homem de morder a língua. Enquanto muitos se calavam diante dos desmandos da administração pública local, ele levava para as páginas de seu jornal e para as ruas denúncias que outros tinham medo de fazer.

Corrupção, desvios de recursos públicos, crimes ambientais. Ele incomodava políticos, secretários e pessoas ligadas ao poder.

Robson acreditava que a imprensa tinha um papel claro: dar voz a quem não tinha voz, denunciar abusos e cobrar transparência. Isso o tornou respeitado entre colegas de profissão, mas também o colocou na mira de quem não aceitava ser exposto.

O vídeo que se tornou símbolo

Há um vídeo preservado pela TVC que registra um dos momentos mais emblemáticos da rotina de repórter de Robson Giorno. Ele aparece na Lagoa de Jacaroa, em Maricá, realizando mais uma denúncia de crime ambiental.

No vídeo, Robson expõe uma obra sob responsabilidade da SOMAR, autarquia municipal de obras, então presidida por Renato Machado, hoje deputado estadual e apontado pelo Ministério Público como suspeito de ser o mandante do assassinato do jornalista.

Naquele contexto, Robson Giorno era quem estava sendo procurado por um oficial de justiça para receber uma intimação, decorrente de desdobramentos ligados às suas denúncias.

Paralelamente, Renato Machado passou a ser alvo das autoridades após Robson denunciar crimes ambientais envolvendo a obra. O vídeo registra exatamente esse cenário: o jornalista em campo, denunciando, e o responsável institucional pela obra sendo publicamente confrontado pela reportagem.

Poucas semanas depois, Robson estaria morto.

O silêncio que durou anos

Após o assassinato, instalou-se o silêncio. As investigações seguiram sob sigilo por um longo período. Não havia respostas públicas. Familiares, amigos, colegas de profissão e a população de Maricá aguardavam esclarecimentos.

A pergunta permanecia: quem matou Robson Giorno? Quem mandou executar um jornalista no exercício da profissão?

Organizações de defesa da liberdade de imprensa alertaram para o caso. O assassinato seguia um padrão preocupante: comunicadores emboscados e executados, enquanto a sensação de impunidade permanecia.

No mesmo período, Maricá registrou outro crime contra comunicador. Romário Barros, fundador da Lei Seca Maricá, foi morto a tiros menos de um mês depois. Em seguida, outras execuções ocorreram, todas com características semelhantes de crime encomendado.

A denúncia que mudou o rumo do caso

Em julho de 2024, o cenário começou a mudar. O Grupo de Atuação Especializada de Combate ao Crime Organizado do Ministério Público do Rio de Janeiro apresentou denúncia apontando Renato Machado como mandante da morte de Robson Giorno.

De acordo com o Ministério Público, o crime teria sido encomendado por vingança. Robson havia publicado denúncias e reportagens que atingiam a reputação do então dirigente público, incluindo informações envolvendo sua vida pessoal.

A denúncia descreve uma estrutura criminosa organizada, com divisão de funções entre mandante, intermediária e executores. O Ministério Público sustenta que o homicídio foi planejado, premeditado e executado para silenciar um jornalista que incomodava.

Mais do que um homicídio

A investigação também trouxe à tona outros elementos, incluindo suspeitas de irregularidades em contratos públicos e prejuízos aos cofres municipais. No entanto, o centro desta reportagem é o assassinato de Robson Giorno. A morte de um jornalista em razão de sua atuação profissional.

A audiência aguardada

Na sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026, ocorre uma audiência considerada decisiva no processo. Renato Machado comparecerá em juízo. O caso pode avançar para o Tribunal do Júri.

O processo reúne 3.645 páginas, com documentos, depoimentos e investigações que permaneceram sob sigilo por anos.

A defesa nega as acusações e afirma que o deputado sempre colaborou com as investigações, sustentando sua inocência. O Ministério Público, por sua vez, sustenta que há elementos suficientes para caracterizar homicídio qualificado, por motivo torpe e mediante execução surpresa.

Uma questão que ultrapassa Maricá

O caso Robson Giorno ultrapassa os limites do município. Trata-se de um alerta sobre os riscos enfrentados por jornalistas que denunciam o poder. É um debate sobre liberdade de imprensa e democracia.

Robson era polêmico, combativo e incômodo. Mas tinha direito à vida. Tinha direito de exercer o jornalismo sem ser silenciado pela violência.

A TVC acompanhará atentamente os desdobramentos da audiência. Mais do que o julgamento de um agente público, está em jogo a possibilidade de denunciar sem medo.

Robson Giorno merecia respostas. Sua família merece justiça.

A justiça se aproxima. A questão agora é se ela será feita.

Nota da redação

A TVC mantém disponíveis os vídeos que fazem parte desta história. O registro em que Robson denuncia crimes ambientais na Lagoa de Jacaroa é documento jornalístico e histórico.

As mídias de Maricá acompanham atentamente a audiência desta sexta-feira. Histórias como a de Robson Giorno não podem ser esquecidas. Precisam ser esclarecidas e resolvidas.

Que a justiça prevaleça.