Contratos questionados, aluguéis de vereadores e obras superfaturadas evidenciam padrão administrativo que se repete entre os três municípios
Enquanto o mundo conhece o Triângulo das Bermudas como lugar onde navios e aviões desaparecem misteriosamente, em Maricá, Itaboraí e Saquarema um triângulo bem mais conhecido da população esconde outro tipo de desaparecimento: o da legalidade.
O Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro suspendeu licitações milionárias, enquanto problemas recorrentes em Maricá salas de aula escaldantes, mães preocupadas com o calor e atendimento hospitalar deficitário mostram que a mesma cartilha administrativa do PT foi transportada para Itaboraí e, agora, também para Saquarema, com promessas de “realizações” que evaporam junto à fiscalização e ao controle público.
Maricá: licitação de R$94,8 milhões suspensa.
Em junho de 2025, o TCE-RJ suspendeu a licitação da Autarquia Municipal de Serviços de Obras de Maricá (SOMAR) para a aquisição de pedras de enrocamento, no valor de R$94.846.172,54.
O Conselheiro Christiano Lacerda Ghuerren identificou indícios de sobrepreço, uma vez que o valor estimado da contratação foi elaborado com base na cotação de uma única empresa fornecedora do mesmo produto.
Além disso, o orçamento elaborado pela SOMAR não possuía embasamento técnico suficiente, havendo risco de superfaturamento.
Itaboraí: licitação de R$16,37 milhões suspensa…
O TCE-RJ determinou a suspensão da Concorrência Eletrônica nº 001/2025 da Prefeitura de Itaboraí, voltada a obras de pavimentação, drenagem e sinalização nos bairros Itambi e Visconde.
A representação da LSS Construções apontou ausência de levantamento topográfico, falta de sondagens do solo, inconsistências na planilha orçamentária e risco de superfaturamento.
O parecer técnico do TCE confirmou falhas na publicidade do edital e ausência de fundamentação técnica, proibindo adjudicação, homologação ou contratação até o julgamento final do processo.
Saquarema: obras suspensas e superfaturamento…
O TCE-RJ também suspendeu em agosto de 2025 a Concorrência Eletrônica nº 90002/2025 da Prefeitura de Saquarema, voltada à construção de um complexo educacional de R$51,7 milhões, após identificar falhas graves e indícios de superfaturamento.
Uma auditoria de setembro de 2024 já havia apontado superfaturamento de R$5,2 milhões em obra de pavimentação e drenagem no bairro de Jaconé.
Além disso, o Ministério Público investiga desvios de R$326 milhões envolvendo ex-gestores, fraudes em licitações e direcionamento de contratos.
Entrelinhas políticas: o triângulo da cartilha
O padrão administrativo se repete: decisões centralizadas, pressa em contratar, falhas técnicas em licitações, favorecimento de aliados e contratos duvidosos.
A população conhece os nomes, os núcleos e os métodos, tornando o “triângulo da legalidade” visível.
As evidências mostram que o padrão não é isolado, mas replicado em diferentes cidades, sob justificativas de modernização e obras em ritmo acelerado.
Se no Triângulo das Bermudas desaparecem navios e aviões, em Maricá, Itaboraí e Saquarema desaparece a legalidade.
Licitações suspensas, aluguéis de vereadores, superfaturamento em obras e serviços públicos deficitários somem sob a justificativa de progresso, mas o núcleo do triângulo é conhecido de todos: o TCE, o MP e a população têm documentos que provam que a cartilha administrativa é clara, repetida e, no mínimo, questionável.