Pressionada por custos elevados e queda da competitividade, a maior montadora da Europa reavalia seu modelo de negócios, ameaçando cortar até 100 mil postos de trabalho.
A Volkswagen, uma das montadoras mais tradicionais do mundo, enfrenta um de seus momentos mais delicados. A empresa, com 89 anos de história, está em meio a negociações cruciais para um plano de reestruturação que pode incluir a demissão em massa de até 100 mil funcionários e o fechamento de quatro fábricas na Alemanha.
As propostas, que representam a maior reestruturação na história da companhia, são discutidas em uma reunião decisiva do conselho fiscal, enquanto trabalhadores protestam contra as medidas. O plano visa combater custos elevados, excesso de capacidade produtiva e a crescente concorrência global, especialmente de fabricantes chineses.
Este cenário de incerteza para a Volkswagen também reflete os desafios enfrentados pela maior economia da Europa, marcada por crescimento lento e altos custos de energia e mão de obra, conforme informações divulgadas pelo g1.
Os Desafios da Reestruturação na Alemanha
A Volkswagen busca urgentemente reformular um modelo de negócios que sustentou seu crescimento por décadas. A pressão é intensa, vinda de diversos lados, incluindo custos operacionais elevados, um excesso de capacidade de produção no mercado doméstico e a forte concorrência de fabricantes chineses, além das tarifas de importação impostas pelos Estados Unidos.
O presidente-executivo da companhia, Oliver Blume, tem a difícil tarefa de convencer os influentes representantes sindicais, que fazem parte do conselho fiscal, a aceitarem um programa de cortes mais profundo. A reunião ocorre na sede da Volkswagen, em Wolfsburg, e envolve a discussão de um plano que abrange todo o grupo, incluindo marcas como Audi e Porsche.
Blume também está sob pressão das famílias Porsche e Piëch, que controlam a companhia e viram seus principais investimentos perderem dezenas de bilhões de euros em valor de mercado nos últimos anos. A necessidade de reajuste é vista como fundamental para a sustentabilidade futura da gigante automotiva.
Protestos e a Posição dos Trabalhadores
Em Wolfsburg, a atmosfera é de mobilização. Trabalhadores protestaram com apitos, bandeiras vermelhas do sindicato e faixas, uma delas com a mensagem "Gemeinsam stark", que significa "fortes juntos" em alemão. Buzinas reforçavam o clima de insatisfação, enquanto o sindicato IG Metall estimou a participação de cerca de 400 pessoas apenas nesta localidade.
A demissão em massa é o principal temor dos funcionários. Em resposta aos protestos e preocupações, um porta-voz da Volkswagen afirmou em nota que a empresa compartilha das preocupações dos trabalhadores sobre o futuro. No entanto, ressaltou a necessidade de uma reestruturação para preservar a competitividade da companhia.
"Estamos ajustando nosso portfólio de investimentos e simplificando nossas estruturas corporativas", declarou o porta-voz, reiterando: "E sim, também teremos que reduzir o excesso de capacidade." A empresa se posiciona, assim, em uma linha tênue entre a necessidade de cortes e a manutenção do diálogo com os sindicatos.
O Plano de Demissão em Massa e Fechamento de Fábricas
Fontes próximas às negociações indicam que o plano de Blume pode resultar em até 100 mil demissões, um número que representa aproximadamente o dobro do previsto inicialmente. A proposta inclui o fechamento de quatro fábricas na Alemanha, localizadas em Hanover, Emden, Zwickau e Neckarsulm, onde opera uma unidade da Audi.
A revista Spiegel detalhou que a produção nas unidades de Zwickau e Emden seria encerrada gradualmente ao longo dos próximos cinco anos. A fábrica de veículos comerciais de Hanover seguiria o mesmo caminho em 2032, enquanto a unidade da Audi, em Neckarsulm, teria suas atividades encerradas em 2034.
A complexidade das decisões é ampliada pelo modelo de governança da Volkswagen, cujo conselho fiscal reúne representantes das famílias controladoras, dos sindicatos e do governo do estado da Baixa Saxônia. Embora a revista WirtschaftsWoche tenha noticiado que o governo da Baixa Saxônia estaria disposto a aceitar o fechamento de fábricas, uma fonte governamental negou a informação, classificando-a como "um completo absurdo".
É importante destacar que, em um acordo de reestruturação firmado no fim de 2024, os sindicatos haviam conseguido da direção da empresa o compromisso de evitar o fechamento de fábricas na Alemanha. Desde então, a Volkswagen tem explorado alternativas, como a busca por um parceiro da indústria de defesa para a fábrica de Osnabrück e a possibilidade de produzir na Alemanha modelos originalmente desenvolvidos para o mercado chinês.
Capacidade Produtiva e o Futuro Incerto
Dados da Mobility Global, analisados pela Reuters, pintam um quadro desafiador para a utilização das fábricas do grupo Volkswagen na Alemanha. A projeção é que essas unidades operem com 81% da capacidade considerada padrão em 2026. No entanto, a estimativa é que esse índice caia para 73% até o fim da década, mesmo considerando a retirada planejada da unidade de Osnabrück da rede produtiva.
Entre as quatro fábricas ameaçadas de fechamento, Zwickau apresenta a maior utilização prevista para 2026, com 88% da capacidade ocupada. Contudo, a mesma análise prevê que esse percentual recue drasticamente para apenas 42% até 2030. Esses números evidenciam a necessidade de uma profunda reestruturação para a Volkswagen, que busca garantir sua competitividade em um mercado automotivo global em constante transformação.