Acidente grave, nota máxima contestável e contexto político inevitável: o que os fatos dizem sobre o título da União de Maricá.
A União de Maricá é, nos registros oficiais, a campeã da Série Ouro 2026, com 269,4 pontos, e estará no Grupo Especial do Carnaval carioca em 2027. O título existe. O que também existe documentado, filmado e noticiado por veículos de alcance nacional é um conjunto de fatos que transforma essa conquista numa das apurações mais questionadas da história recente do samba carioca.
Este texto não imputa crime a ninguém. Descreve o que aconteceu, cita as fontes que investigaram o tema e faz as perguntas que o interesse público exige.
UM HOMEM SAIU DO CARNAVAL COM A PERNA FRATURADA…
Antes de qualquer debate sobre pontuação, há um fato humano que não pode ser tratado como nota de rodapé.
Durante o desfile da União de Maricá, o último carro alegórico da escola prensou três pessoas na Avenida. Um funcionário da agremiação sofreu fratura grave na perna.
O episódio ocorreu após a escola acelerar a evolução e o mesmo carro alegórico que causou o acidente cruzou o setor de julgamento com as luzes completamente apagadas. Tudo isso foi filmado, confirmado e reportado pelo portal Metrópoles, entre outros veículos.
Uma pessoa entrou no Carnaval trabalhando e saiu com uma perna fraturada. Esse fato, isoladamente, exigiria resposta formal e pública da LigaRJ e da escola. Até o fechamento desta publicação, nenhuma das duas se pronunciou sobre o episódio.
A NOTA QUE O REGULAMENTO NÃO EXPLICA*.
A escola estourou o tempo regulamentar em dois minutos. A punição automática de 0,2 pontos foi aplicada até aqui, o sistema funcionou. Mas o estouro de tempo no Carnaval não é infração isolada: ele compromete diretamente o andamento da escola, a sincronia da bateria e a harmonia dos componentes nos minutos finais. Isso não é opinião é consequência técnica conhecida por qualquer profissional com experiência no julgamento do samba.
O jurado responsável pelo quesito Harmonia estava posicionado exatamente no setor por onde o carro alegórico passou apagado. Assistiu ou deveria ter assistido ao fechamento completo do desfile.
Atribuiu nota 10.
A nota máxima. A que, pelo regulamento, significa desempenho sem falhas observáveis.
Durante a transmissão ao vivo da apuração, comentaristas da Rádio Bandeirantes — emissora com décadas de cobertura técnica do Carnaval, sem interesse na desqualificação do espetáculo avaliaram que, diante das falhas registradas, a escola deveria terminar entre o 4º e o 6º lugar. A Unidos de Padre Miguel, apontada pela imprensa especializada como a melhor escola da Série Ouro e premiada com o Estandarte de Ouro, terminou em 3º lugar a 0,4 pontos da campeã.
A pergunta é legítima e simples: com base em quais critérios técnicos um desfile com carro apagado no setor de julgamento e estouro de tempo registrado recebe nota máxima no quesito diretamente afetado por essas ocorrências? A LigaRJ tem essa resposta. Não a ofereceu.
O QUE O METRÓPOLES APUROU — E QUE NÃO PODE SER IGNORADO..
O portal Metrópoles, em reportagem publicada após a apuração, trouxe um dado de peso que antecede o próprio Carnaval de 2026: ainda em 2025, o Portal Leo Dias havia publicado a existência de um suposto esquema para beneficiar a União de Maricá na disputa do ano seguinte.
Segundo o veículo, haveria um acordo entre a Liesa responsável pelo Grupo Especial e a LigaRJ, organizadora da Série Ouro, com os nomes de Sandro Avelar e Ailton Guimarães Jorge apontados como articuladores da suposta operação.
A Liesa, consultada pelo Metrópoles, afirmou que “não possui nenhuma ingerência no Grupo de Acesso” e que sua responsabilidade se limita à organização do Grupo Especial. A LigaRJ e a União de Maricá foram procuradas e não responderam até o fechamento da reportagem.
A denúncia foi publicada um ano antes. O resultado veio. As respostas, não.
O CONTEXTO POLÍTICO QUE EXISTE E NÃO PODE SER OMITIDO
Washington Quaquá, prefeito de Maricá, é presidente de honra da União de Maricá. Não é informação de bastidor é cargo público e assumido. Segundo reportagem da revista Veja, citada pelo Metrópoles, o prefeito destinou mais de R$ 8 milhões de recursos municipais à agremiação em junho de 2025 Quaquá comemorou antecipadamente a vitória nas redes sociais.
O prefeito de Maricá mantém aliança política pública e declarada com o prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes. A Prefeitura do Rio co-organiza o Carnaval por meio da Riotur e é gestora do Sambódromo da Marquês de Sapucaí.
Nenhum desses fatos, registrado isoladamente, configura irregularidade. O jornalismo, no entanto, não analisa fatos de forma isolada.
Analisa cenários. E o cenário aqui é formado por: denúncia prévia publicada por veículo nacional, financiamento milionário municipal à escola campeã, vínculo formal do prefeito com a agremiação, nota máxima em quesito afetado por falhas documentadas, e silêncio institucional de todos os envolvidos.
O QUE O PÚBLICO JÁ DIZ
No perfil oficial da União de Maricá no Instagram, conforme reportado pelo Metrópoles, internautas foram diretos: “A Liga RJ fazendo seu trabalho. Chocando zero pessoas”, escreveu um usuário. “Parabéns, escola do prefeito”, comentou outro. “Ela quase mata gente, estoura tempo, passa com carro apagado… mas está aí a campeã de vocês”, afirmou uma internauta. “Não mereceu! O homem que teve a perna cortada? Ninguém viu? A União de Padre Miguel que é dona desse título”, publicou outra.
Não são vozes organizadas de torcida rival. São leituras espontâneas de quem assistiu ao mesmo desfile e à mesma apuração.
CONCLUSÃO.
A União de Maricá tem seu título. Este texto não o apaga e não acusa ninguém de crime. O que este texto faz e o que o jornalismo tem obrigação de fazer é registrar que uma apuração pública, com impacto cultural e financeiro direto sobre instituições e pessoas, deixou perguntas sem resposta.
Por que um jurado atribuiu nota máxima em Harmonia a uma escola que estourou o tempo e teve carro apagado no setor de julgamento? Por que a LigaRJ não se pronunciou sobre o acidente que fraturou a perna de um trabalhador?
Por que uma denúncia de favorecimento publicada um ano antes não gerou qualquer investigação formal?
Quando as instituições não respondem, a imprensa pergunta. Quando a imprensa pergunta, o público avalia.
O restante é história e essa ainda está sendo escrita.