DO AMAPÁ A MARICÁ: prisão de prefeito em operação da PF reacende debate sobre investigações em prefeituras..

Nesta quarta-feira, 4 de março de 2026, o Brasil amanheceu com uma notícia que, em tese, deveria ser comum em um país que combate a corrupção. Ainda assim, continua chocando: o prefeito de Macapá, Dr. Furlan, foi afastado do cargo por decisão judicial no âmbito de uma investigação conduzida pela Polícia Federal.

A medida ocorreu durante a segunda fase da Operação Paroxismo, que apura suspeitas de fraude em licitação, possível desvio de recursos públicos e lavagem de dinheiro envolvendo a construção do Hospital Geral Municipal de Macapá, um contrato estimado em cerca de R$ 69,3 milhões.

Segundo informações da própria investigação, imagens de câmeras de segurança registraram o veículo utilizado pelo prefeito em deslocamentos ligados a saques considerados suspeitos em agências bancárias.

Com base nesses elementos, a Justiça determinou o afastamento do prefeito, do vice-prefeito e da secretária municipal de Saúde enquanto o caso segue sob investigação.

A Justiça agiu. E agiu rápido.

Agora vamos olhar para Maricá.

Em fevereiro de 2024, a Polícia Federal realizou a Operação Salus no município de Maricá, no Rio de Janeiro. Aproximadamente 60 policiais federais cumpriram 14 mandados de busca e apreensão para investigar suspeitas de desvio de mais de R$ 70 milhões em recursos públicos destinados à área da saúde.

De acordo com relatórios citados por órgãos de controle, o caso envolve uma Organização Social contratada pela prefeitura. Informações do Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro indicaram que o contrato analisado teria passado de cerca de R$ 240 milhões para mais de R$ 600 milhões ao longo do período investigado.

Entre os nomes citados nas investigações estavam pessoas ligadas à gestão municipal e que, segundo informações divulgadas à época, teriam sido indicadas politicamente por integrantes do grupo político local, entre eles o atual prefeito Washington Quaquá, que governou Maricá por dois mandatos anteriores.

Apesar da investigação, o cenário político na cidade seguiu seu curso normal. Washington Quaquá foi eleito prefeito em outubro de 2024. O então prefeito Fabiano Horta concluiu seu mandato regularmente. Um dos nomes citados nas investigações chegou inclusive a participar da comissão de transição de governo.

Até o momento, não houve afastamento de autoridades eleitas no caso.

Mas o debate em Maricá não se limita apenas às investigações na área da saúde.

No cotidiano da cidade, moradores relatam com frequência preocupações ligadas à segurança pública, muitas vezes em contraste com a imagem institucional divulgada pela administração municipal.

O sistema de transporte municipal conhecido como Vermelhinho, frequentemente apresentado pela gestão como símbolo de políticas públicas de mobilidade, também tem sido cenário de episódios de criminalidade.

Em fevereiro de 2026, por exemplo, um homem armado foi registrado embarcando em um ônibus do sistema em Itaipuaçu. No mesmo período, um veículo da frota foi furtado na região da passarela de Inoã e posteriormente localizado a cerca de 25 quilômetros dali, no município de Itaboraí.

Nas redes sociais, moradores relatam medo e frustração. Uma trabalhadora que se desloca diariamente para o Rio resumiu o sentimento em um comentário que rapidamente se espalhou entre moradores: “Viemos morar em Maricá para ter sossego. É um terror.”

Imagens de câmeras de segurança também registraram um assalto durante o dia no bairro Mumbuca. O vídeo foi divulgado pelo perfil verificado @noticiasmarica.ofc e passou a circular amplamente entre moradores.

Nas imagens, uma mãe acompanhada do filho é abordada por um criminoso em plena rua.

O episódio chama atenção porque ocorreu justamente no bairro que carrega um dos símbolos políticos da atual gestão. O nome Mumbuca está presente na história da cidade, na narrativa política local e também no principal programa social do município, a Moeda Social Mumbuca.

Para muitos moradores, o contraste entre o discurso institucional de cidade segura e os episódios registrados no cotidiano levanta questionamentos inevitáveis.

Existe hoje uma distância evidente entre a cidade apresentada na propaganda institucional e a realidade percebida por parte da população que circula diariamente pelas ruas.

A comparação entre casos como o de Macapá e o de Maricá acaba alimentando um debate mais amplo sobre a forma como investigações envolvendo gestores públicos evoluem no Brasil.

Em alguns casos, decisões judiciais resultam rapidamente em afastamentos de autoridades. Em outros, investigações seguem seu curso sem medidas dessa natureza.

As razões podem envolver fatores jurídicos, institucionais e processuais que variam de caso para caso.

Mas para o cidadão comum, que acompanha essas notícias de longe e paga a conta dos serviços públicos, a pergunta continua ecoando com força:

A lei alcança todos com o mesmo peso?

Ou ainda existem dois países dentro do mesmo Brasil: o que pune e o que protege?

MARICA E MEU PAĪS, MEU PAĪS É MARICÁ