Com mais de 1.450 mortos e milhares de desaparecidos, a população venezuelana clama por ajuda efetiva, denunciando a lentidão das operações de resgate.
A Venezuela enfrenta uma catástrofe sem precedentes após os recentes terremotos, que já deixaram um rastro de mais de 1.450 mortos e milhares de pessoas presas sob escombros. À medida que as horas cruciais para encontrar sobreviventes se esgotam, a esperança da população diminui drasticamente.
Em meio à devastação, a frustração com a demora dos resgates na Venezuela cresce entre os cidadãos, que denunciam uma resposta insuficiente das autoridades. Muitos se arriscam, sem equipamentos adequados, para tentar salvar seus entes queridos.
Enquanto o governo afirma trabalhar incessantemente, a população questiona a eficácia das operações, clamando por maior presença do Estado e maquinário pesado, conforme informações divulgadas pelo G1.
O Desespero em Meio aos Escombros
As cenas de desespero se repetem em cidades como La Guaira e Caracas, onde voluntários se lançam entre os escombros na busca por sobreviventes. Muitos arriscam suas vidas, abrindo caminho entre placas de concreto sem qualquer equipamento de proteção, e chegam a remover corpos em decomposição com as próprias mãos.
A população expressa abertamente sua indignação. “Estamos todos bastante frustrados porque o governo não oferece o que deveria: uma ajuda séria”, disse Zaira Castro, moradora de Caracas, ao correspondente da BBC. A percepção geral é de que a ajuda oficial é mínima.
Em La Guaira, o drama de Carlos Eduardo, de 31 anos, ilustra a situação. Seus familiares sabem onde ele está e o ouviram sob os destroços, mas não possuem os meios para resgatá-lo. “É isso. Estamos aqui esperando ajuda, esperando para ver se conseguimos tirá-lo com vida”, relatou seu primo à BBC News Mundo.
Um bombeiro que atua na região, e que preferiu não ser identificado, revelou ao enviado especial da BBC News Mundo que “há edifícios onde não foi removida sequer uma única pedra”. Ele acrescentou que “não há mãos suficientes” e que “é muito, muito provável que ainda haja pessoas presas”, evidenciando a demora nos resgates.
Contradições e Promessas Governamentais
A presidente em exercício da Venezuela, Delcy Rodríguez, afirmou que os esforços estão sendo feitos “sem descanso” e assegurou que “o resgate das pessoas que estão vivas é nossa prioridade”. Ela confirmou que 33 pessoas foram resgatadas com vida no sábado, após encontro com brigadistas internacionais.
No entanto, essa declaração contrasta com os relatos de moradores. Em Caraballeda, Mileidy Romero, que participava das operações, disse à agência AP: “Há um monte de corpos ali desde ontem à noite. Bebês recém-nascidos”.
Romero prosseguiu com um desabafo contundente: “Às 20h [de sábado] havia pessoas vivas lá embaixo, e ninguém se preocupou em resgatá-las. Localizamos vários corpos, e também não nos ajudaram a retirá-los. O que estão esperando?”. Essa fala reflete a frustração com a demora dos resgates na Venezuela.
A insatisfação pública é tão grande que alguns venezuelanos manifestaram seu descontentamento vaiando a presidente Rodríguez durante suas visitas às áreas afetadas. “Eles estão fazendo campanha em meio a uma tragédia! O governo não faz nada pelas pessoas”, gritou uma mulher em Chacao.
O presidente da Assembleia Nacional, Jorge Rodríguez, classificou os dois terremotos como “a mais brutal catástrofe natural que nosso país sofreu em sua história”. Ele informou que 12.721 pessoas foram afetadas e 774 edifícios foram danificados ou desabaram, e que o país vive “horas críticas” para salvar vidas.
Jorge Rodríguez também detalhou que 21 delegações internacionais foram mobilizadas, totalizando 2.242 socorristas e 96 equipes com cães farejadores. Além disso, mais de 30 mil pessoas, entre militares, policiais e outros especialistas, estão prestando assistência, segundo o governo.
O Limite das 72 Horas e a Diminuição da Esperança
Mais de 72 horas após os terremotos, as esperanças de encontrar sobreviventes diminuem consideravelmente, alertam especialistas em desastres humanitários. Os três primeiros dias são cruciais para as operações de resgate, pois pessoas com ferimentos leves podem sobreviver à desidratação e à compressão nesse período.
Contudo, ultrapassado esse limite, as chances caem drasticamente. A falta de acesso à água e de atendimento médico são fatores determinantes para a morte das vítimas, seja por desidratação ou por complicações de ferimentos sofridos durante o desabamento das estruturas.
Ainda assim, para alguns, a esperança persiste. Steven Salazar Vásquez, um paramédico experiente, explicou à correspondente da BBC que, apesar da queda rápida nas chances, ele “ainda tem esperança”. Isso porque muitos edifícios altos desabaram apenas parcialmente.
Salazar Vásquez sugere que pode haver construções onde as paredes caídas criaram um espaço viável, conhecido pelas equipes de resgate como “triângulo da vida”, aumentando a possibilidade de encontrar mais sobreviventes.
Enquanto isso, o número de mortos e feridos continua a subir, e a ONU estima que cerca de 50 mil pessoas estejam desaparecidas. O governo venezuelano decretou estado de emergência e anunciou o envio de 14 mil militares para a área, tentando acelerar os resgates e a assistência.
Vulnerabilidade e Crise Humanitária
Especialistas alertam que a crise política que afeta a Venezuela nos últimos anos explica, em parte, a vulnerabilidade de sua infraestrutura e a limitada capacidade de resposta do país diante de uma tragédia dessa magnitude. Essa situação agrava a frustração com a demora dos resgates na Venezuela.
Os feridos estão sendo atendidos em instalações médicas improvisadas, e os centros de saúde que ainda funcionam estão sobrecarregados. Profissionais da área relataram à BBC que, mesmo antes do desastre, já era difícil atender os pacientes.
O ministro do Interior, Diosdado Cabello, fez um apelo para que os venezuelanos deixem as casas danificadas, alertando para a possibilidade de novos desabamentos e vazamentos de gás. No entanto, diversos meios de comunicação relataram uma notável falta de fiscalização nesse aspecto.
A situação é crítica e a pressão sobre as autoridades venezuelanas só aumenta, à medida que a população, exausta e desesperada, continua a lutar por cada vida sob os escombros, clamando por uma resposta mais rápida e eficaz para a demora nos resgates.