Por Ricardo Cantarelle
Por trás do discurso de “frente ampla” costurado pelo PT fluminense para 2026, uma rachadura interna veio à tona nesta quinta-feira (10). A Articulação de Esquerda – RJ, tendência histórica do partido, publicou nota oficial classificando de “falsa unanimidade” o apoio petista a Eduardo Paes (PSD) ao Governo do Estado, a Pedro Paulo (PSD) ao Senado e à confirmação de Washington Quaquá prefeito de Maricá como coordenador da campanha de reeleição de Lula no Rio de Janeiro.
O que diz a nota, ponto a ponto
O documento, assinado pela Direção Estadual da tendência e publicado no Instagram (@articulacaoesquerda.rj), começa denunciando o próprio rito da decisão: segundo o texto, um Diretório Estadual convocado às pressas impediu a participação da Articulação de Esquerda na reunião que definiu, em 8 de julho, a tática eleitoral, a chapa majoritária e a coordenação da campanha presidencial no estado. A ala descreve o resultado dessa reunião como uma sequência de decisões equivocadas, abrindo uma única exceção: a candidatura de Benedita da Silva ao Senado, que classifica como indispensável.
Na sequência, a nota apresenta o que considera ser a candidatura ideal para o PT-RJ em 2026 um projeto com oposição clara à extrema direita e à direita neoliberal, alinhado à defesa do governo Lula e do PT, capaz de disputar a sociedade fluminense em torno de valores democráticos e de um programa voltado aos mais pobres e à classe trabalhadora. Esse programa, descrito em detalhe, deveria tratar o poder público e as instituições como motores do desenvolvimento do estado em oposição à agenda de austeridade fiscal , valorizar o funcionalismo público, fortalecer leis e órgãos de proteção ambiental, adotar políticas inclusivas para camelôs e ambulantes, e preservar praças, parques e espaços públicos como patrimônio inalienável.
É a partir desse programa que a nota classifica Eduardo Paes e Pedro Paulo como opositores do projeto defendido pela ala esquerda, afirmando que ambos, se eleitos, exerceriam seus mandatos de forma mercantilista, recessiva e excludente. Por isso, a tendência declara que nem Paes nem Pedro Paulo deveriam ter espaço na tática eleitoral do PT fluminense, defendendo que o primeiro turno fosse dedicado exclusivamente à propaganda de Lula e à defesa de propostas mais ousadas para um eventual quarto mandato.
A nota critica ainda o fato de o Diretório Estadual ter aprovado a aliança com Paes sem qualquer acordo programático, o que a ala descreve como uma adesão rebaixada e aponta riscos dessa postura tanto para a candidatura de Benedita quanto para a construção do partido no estado. O texto termina convocando o PT a retomar protagonismo na reorganização da esquerda fluminense e na construção de um novo ciclo político no Rio, reafirma o apoio a Benedita ao Senado e fecha com as saudações tradicionais da militância petista. O documento está datado de 10 de julho de 2026 e assinado pela Direção Estadual da Articulação de Esquerda do RJ.
É nesse pacote de resistência interna que a confirmação de Quaquá à frente da coordenação da campanha de Lula no Rio se insere como um dos pontos de atrito — decisão tratada pela nota como parte do mesmo movimento do Diretório Estadual do qual a ala diz ter sido excluída.
O outro lado da aliança
A decisão criticada pela ala esquerda do partido havia sido anunciada dias antes como vitória de unidade. Segundo nota do próprio PT-RJ, a escolha de Quaquá para coordenar a campanha presidencial reconheceria sua capacidade de articulação política e seu papel fundamental na construção da aliança em torno de Paes, Benedita e Pedro Paulo. Em ato público recente ao lado de Pedro Paulo, o próprio Paes chegou a fazer aceno direto a Quaquá, chamando-o de “irmão” e prometendo atuar para amolecer as resistências internas do PT à aliança.
O contraste entre os dois discursos — o de “unidade” defendido pela cúpula estadual e o de “falsa unanimidade” denunciado pela Articulação de Esquerda expõe uma disputa que segue em aberto dentro do petismo fluminense às vésperas da corrida eleitoral de 2026.
A TVC tentou contato com o PT-RJ e com a Articulação de Esquerda RJ para comentários adicionais sobre o episódio, mas não obteve
NOTA OFICIAL
Um Diretório marcado em cima da hora impediu que a Articulação de Esquerda pudesse participar da reunião que definiu a tática eleitoral, a chapa majoritária e a coordenação de campanha do presidente Lula no Rio de Janeiro. Uma sequência de decisões equivocadas, exceto a imprescindível candidatura de Benedita para o Senado, foi aprovada pelo Diretório Estadual, no dia 8 de julho.
A reeleição de Lula deve ser a prioridade de todas as prioridades do PT, mas a campanha no RJ corre o risco de ser seriamente prejudicada com a aprovação de Quaquá como coordenador de campanha no estado. A qualquer momento a Polícia Federal pode bater em sua porta, como já ocorreu com seus aliados públicos: Cláudio Castro, Márcio Canella, Rodrigo Bacellar e família Brazão. Esta função precisa ser desempenhada por quem é capaz de agregar e possui compromisso orgânico com Lula, a esquerda e o PT. E segundo as suas próprias declarações recentes, “que não tenha problemas com investigações.”
A tática eleitoral de apoio a Paes ao Governo do estado e Pedro Paulo como o segundo nome para o Senado é um erro político, que afasta o PT de seus princípios e põe em risco a eleição de Benedita da Silva para uma das duas vagas ao Senado no Rio de Janeiro. Eduardo Paes não é aliado do PT e não tem qualquer compromisso com os acordos estabelecidos. Pedro Paulo tem histórico de violência contra mulher, apoio ao golpe contra a Presidenta Dilma e é autor do Projeto da Reforma Administrativa, que desmonta o Estado, ataca frontalmente os direitos do funcionalismo público e o serviço estatal. E não será surpresa uma dobradinha implícita de Pedro Paulo com a extrema direita para o Senado, colocando em risco a vitória eleitoral do PT na disputa de uma cadeira do Senado. Ambos são representações bem-acabadas da direita neoliberal.
Entendemos que é importante para a campanha nacional e o fortalecimento da esquerda no Rio de Janeiro, uma candidatura que tenha nitidez na oposição à extrema direita, à direita neoliberal, na defesa das políticas do Governo Lula, do PT e que dispute a sociedade fluminense para valores democráticos e um programa comprometido com os mais pobres e a classe trabalhadora. Um programa que referencie o Poder Público e as instituições públicas como indutores do desenvolvimento do estado, em contraposição à austeridade fiscal; que defenda e valorize o funcionalismo; que fortaleça leis e órgãos de proteção e conservação ambiental; que promova políticas inclusivas para camelôs e ambulantes; que preserve praças, parques, jardins e espaços públicos como patrimônios públicos inalienáveis. Paes e Pedro Paulo são oposição a este projeto, e caso eleitos manifestarão sua política mercantilista, recessiva e excludente no exercício dos mandatos.
Assim, entendemos que na tática eleitoral do PT do Rio de Janeiro não cabem nem Paes nem Pedro Paulo. No primeiro turno das eleições precisamos da defesa incansável e intensa propaganda de Lula, divulgando propostas mais ousadas para o governo Lula 4. Mas o Diretório Estadual aprovou a aliança com Paes sem nenhum acordo programático, reafirmando uma adesão rebaixada, com riscos para a candidatura de Benedita e a construção partidária. É preciso que o PT retome o seu papel de liderança na reorganização da esquerda e na construção de um novo ciclo político no Rio de Janeiro.
Benedita é a nossa pré-candidata ao Senado!
Lula é Tetra!
Viva o Partido das Trabalhadoras e dos Trabalhadores!
10 de julho de 2026
Direção Estadual da Articulação de Esquerda do RJ