Por Ricardo Cantarelle/ TVC
O estádio do Pacaembu, em São Paulo, recebeu neste sábado (25) um capítulo que extrapola a política doméstica brasileira e ganha contornos de crise diplomática.
O presidente da Argentina, Javier Milei, atravessou a fronteira para selar, com a própria presença, o lançamento da candidatura presidencial do senador Flávio Bolsonaro (PL) e usou o palco da convenção partidária para desferir um dos ataques mais ácidos já feitos por um chefe de Estado estrangeiro contra um ministro do Supremo Tribunal Federal em solo brasileiro.
A ofensiva teve endereço certo: Alexandre de Moraes. Em trecho do discurso transcrito pela reportagem a partir de gravação em áudio, Milei atribuiu ao ministro o impedimento de uma visita pessoal a Jair Bolsonaro durante a passagem por Brasília e classificou o episódio nesses termos:
“a basura calma, calva, não me permitiu visitar meu amigo injustamente imprisonado”.
Na sequência, Milei foi além e estabeleceu um paralelo direto com o período em que Lula esteve preso, lembrando que o petista “se cansou de receber dirigentes do exterior” citou nominalmente o “desastroso ex-presidente argentino Alberto Fernández” como um desses visitantes e classificou a atual situação de Bolsonaro como “uma clara mostra da injustiça de sua detenção e seu claro caráter vingativo”.
Milei encerrou a passagem com uma mensagem pessoal ao ex-presidente “estimado Jair, te abraço a distância” e previu que o reencontro entre os dois “prontamente se hará realidade”.
O jornal argentino Perfil, um dos principais veículos do país vizinho, registrou trecho complementar do mesmo discurso, no qual o argentino radicalizou o tom contra o campo governista e classificou reiteradamente o adversário político como “basura socialista”, concluindo que Flávio Bolsonaro é “a pessoa que hoje pode parar a Lula”.
UM PALANQUE COM HONRARIA DE ESTADO
A programação do dia não deixou dúvidas sobre o peso simbólico que o Palácio dos Bandeirantes e o PL quiseram atribuir à visita. Milei foi recebido, à chegada, pelo governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) e pela primeira-dama paulista, Cristiane Freitas, e só encontrou Flávio Bolsonaro já dentro do evento no Pacaembu.
Antes de discursar, o presidente argentino foi agraciado com a Ordem do Ipiranga, a mais alta honraria concedida pelo Estado de São Paulo conforme apurou o jornal Terra.
O mesmo veículo registrou que a convenção teve ainda discurso da esposa do senador, Fernanda, e mensagem em vídeo de Michelle Bolsonaro, que optou por não comparecer presencialmente após o desgaste público que teve com o enteado em junho.
A oficialização da candidatura, segundo o Correio Braziliense, ocorre em um cenário eleitoral que os próprios analistas consultados pelo veículo descrevem como frágil para o senador: sem uma federação de partidos consolidada em torno de seu nome, Flávio aparece atrás de Lula da Silva (PT) nas pesquisas 42% a 46% num cenário de segundo turno, segundo o agregador da BBC News Brasil citado pela reportagem , e recorre à presença de Milei e de Tarcísio como tentativa de compensar essa fragilidade de alianças.
A Gazeta do Povo observou que legendas cotadas para uma futura federação PP e União Brasil, sob a liderança de Ciro Nogueira e Antonio Rueda não enviaram seus presidentes nacionais ao evento, e que o Republicanos também não teve representação de cúpula no Pacaembu, ainda que a economista Daniella Marques, filiada à sigla, seja especulada como possível vice na chapa.
UM PANO DE FUNDO DE ATRITO COM WASHINGTON
O desembarque de Milei não é o único sinal, nas últimas 48 horas, de que o processo eleitoral brasileiro passou a atrair movimentação diplomática internacional. Na sexta-feira (24), o Itamaraty negou vistos a dois funcionários do Departamento de Estado dos Estados Unidos o subsecretário-assistente Riley Barnes e o subsecretário-assistente adjunto Samuel Samson , que planejavam viajar a Brasília antes do pleito de outubro.
Segundo apurou o Metrópoles em reportagem replicada pelo Urbs Magna, a solicitação havia sido protocolada em 20 de julho, e autoridades brasileiras consideraram que a missão poderia servir para lançar dúvidas sobre a segurança das urnas eletrônicas e o processo de votação.
A Gazeta do Povo apurou, a partir de reportagem do Washington Post, que os dois indicados políticos da administração de Donald Trump não tiveram o objetivo oficial da viagem esclarecido pelo próprio Departamento de Estado quando questionado pelo jornal americano.
O NC News e o site acritica.net registraram que a decisão brasileira foi lida pelo Planalto como resposta a uma articulação internacional para desgastar a confiança no sistema eleitoral articulação que, segundo o mesmo noticiário, teria ganhado tração após encontros do próprio Flávio Bolsonaro com diplomatas estrangeiros nos quais o senador voltou a levantar suspeitas sobre as urnas, já rejeitadas pelo Tribunal Superior Eleitoral.
Embora sejam episódios de natureza distinta um discurso de apoio de um presidente estrangeiro em ato de campanha, e a negativa de visto a funcionários de outro governo , ambos convergem para o mesmo fato: o tabuleiro eleitoral de outubro deixou de ser um assunto estritamente doméstico.
PRESIDENTE ARGENTINO É OVACIONADO NOS PORTÕES
Imagens obtidas pela reportagem confirmam o episódio: após encerrar o discurso, Milei deixou o protocolo padrão de lado e caminhou até os portões do Pacaembu, onde cumprimentou parte do público presente. Os registros mostram apoiadores se aglomerando para se aproximar do presidente argentino, em cenas de forte comoção.