Há políticos que se apresentam pela pauta do momento. Júlio Lopes (PP-RJ) se apresenta pela obra que ficou e é a partir dela, mais do que de qualquer discurso, que sua incursão recente na segurança pública ganha peso.
Antes de virar autor de projeto de lei sobre crime organizado, ele foi o nome por trás de decisões que ainda hoje moldam o deslocamento de milhões de cariocas todos os dias: a Linha 4 do Metrô até a Barra da Tijuca e a arquitetura do Bilhete Único que integra ônibus, trem e metrô na Região Metropolitana.
É essa cartilha a de quem prefere entregar infraestrutura a discursar sobre ela que o deputado tenta agora aplicar a um tema mais espinhoso: o crime organizado.
Da prancheta do metrô ao plenário da segurança
Como secretário estadual de Transportes, Lopes esteve à frente da negociação que tirou do papel a Linha 4, ligando a Zona Sul à Barra da Tijuca sete estações, 13,5 quilômetros, um projeto “prometido e anunciado tantas vezes”, nas palavras do próprio secretário à época, e que dependeu de acordos com a Prefeitura do Rio e articulação junto ao Instituto Estadual do Ambiente.
O mesmo período consolidou o desenho do Bilhete Único fluminense, hoje operado via RioCard, que permite ao passageiro trocar de modal ônibus, van, trem, barca ou metrô dentro de uma mesma tarifa integrada.
Não é pouco. É o tipo de entrega que não cabe em post de rede social e que, décadas depois, segue sendo usada por quem nunca ouviu falar do nome do secretário que a viabilizou. É desse capital técnico mobilidade, engenharia, negociação com múltiplas esferas de governo que Lopes tenta agora extrair um método para tratar da segurança pública, tema em que oficialmente não tem assento.
Fora da comissão, dentro do debate
Júlio Lopes não integra a Comissão de Segurança Pública e Combate ao Crime Organizado da Câmara dos Deputados. Ainda assim, é autor do PL 2.646/2025, um pacote amplo que altera o Código Penal, o Código de Processo Penal e a Lei de Combate ao Crime Organizado para endurecer penas ligadas a furto e roubo de carga, receptação qualificada, contrabando, lavagem de dinheiro e liderança de organização criminosa e milícia privada este último, o ponto que mais dialoga com a realidade da Região Metropolitana e da Baixada Fluminense, onde o avanço miliciano sobre serviços públicos segue sendo uma das feridas abertas da segurança estadual.
O projeto, que soma como coautores os deputados Joaquim Passarinho (PL-PA) e Gilvan Maximo (Republicanos-DF), entre outros, está atualmente pronto para pauta na comissão temática ou seja, apresentado e tramitando, ainda sem votação concluída.
Segundo publicações do próprio gabinete em suas redes sociais, Lopes também tem se posicionado na liderança de frentes voltadas ao combate à ilegalidade financeira que sustenta facções criminosas, além de participar de debates e seminários dedicados à segurança pública nacional atuação que, por ora, só pode ser verificada pelo que o próprio parlamentar divulga, e que a TVC trata como tal.
O que fica
A aposta de Lopes é clara: transformar a mesma disciplina que produziu quilômetros de trilho e integração tarifária em legislação capaz de mirar o bolso do crime organizado furto de carga, contrabando de combustível, lavagem de dinheiro.
Falta o teste mais duro, que nenhuma rede social resolve: a aprovação em comissão, depois em plenário, e a distância sempre incerta entre o texto de um projeto de lei e o efeito real nas ruas da Região Metropolitana.